“Ninguém sai! O humor que nos fazia rir para dentro” por João Gilberto Guimarães

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O primeiro livro de Luiz Fernando Veríssimo que me caiu às mãos foi O Analista de Bagé. Eu ainda era adolescente, exímio frequentador das bibliotecas públicas de Juazeiro e Petrolina, e atacava com fome tudo que encontrava da literatura nacional. Entre um Jorge Amado cheio de maresias e um Fernando Sabino repleto de juventudes inquietas, encontrei aquele gaúcho discreto, dono de um humor elegante, quase tímido, mas certeiro.

Lembro bem do encantamento. Sentado em uma mesa de madeira já gasta pelo tempo, com o barulho distante da rua entrando pelas janelas abertas da biblioteca municipal, eu ria sozinho enquanto lia. Não era uma risada ruidosa, daquelas que chamam a atenção, mas um riso contido, íntimo, que parecia nascer de dentro para fora. Veríssimo tinha esse dom raro de transformar a leitura em cumplicidade, como se estivesse falando apenas comigo.

Filho do sisudo Érico Veríssimo, ele poderia ter se apoiado na sombra do pai. Mas não. Começou no jornalismo, e só depois dos 30 se lançou na literatura, mostrando que nunca é tarde para recomeçar a vida no lugar certo. Foi ali que se firmou como mestre das crônicas curtas, das ironias suaves e dos personagens que pareciam atravessar as páginas para se sentar ao nosso lado.

Para mim, descobrir Veríssimo foi descobrir também que a literatura não precisava ser solene para ser grande. Seus textos eram uma porta de entrada generosa, capazes de conquistar um leitor iniciante, mas também eram uma janela sempre aberta para quem já carregava alguma estrada de leitura. Eu, que mergulhava sem fôlego em tudo que encontrava nas estantes, sentia em Veríssimo um aliado. Ele parecia me dizer que o ato de ler humor podia ser também uma forma de leveza.

Agora que ele se despediu, no dia 30 de agosto, sinto que o Brasil perdeu não apenas um escritor, mas também um companheiro cotidiano. Veríssimo estava presente no jornal da manhã, na cabeceira da cama, no sorriso que ele provocava em silêncio. E mesmo partindo, permanece. Ninguém sai, como diria um de seus personagens em minha crônica favorita. Veríssimo não sai da memória, não sai das prateleiras, não sai desse espaço secreto onde guardamos o riso mais puro.

Luiz Fernando Veríssimo nos ensinou que o humor é também uma forma de ternura. Hoje, o silêncio que fica é do tamanho de uma gargalhada que nunca mais ouviremos, mas que continuará ecoando em cada leitor que um dia abriu um de seus livros e descobriu que rir para dentro é também uma forma de se reconhecer no mundo, e reinventá-lo.

João Gilberto Guimarães é Cientista Social, escritor e poeta, produtor cultural e entre outras coisas, admirador da nossa literatura brasileira.

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