“A cadela do fascismo está sempre no cio”, por João Gilberto

2

A frase de Brecht atravessa o tempo com um desconforto persistente e retorna sempre que a história decide repetir seus erros sob novas roupagens. Ela ecoa hoje diante da invasão da Venezuela pelos Estados Unidos e da prisão de Nicolás Maduro por forças militares estrangeiras.

Mais perturbador ainda do que a ação em si é observar a reação entusiasmada de parte da opinião pública brasileira diante desse acontecimento. É preciso afirmar com clareza. Nicolás Maduro consolidou-se como um projeto autoritário de poder.

Seu governo perseguiu opositores, restringiu liberdades civis, enfraqueceu instituições e aprofundou uma crise econômica e social devastadora. A Venezuela viveu anos de hiperinflação, escassez, colapso de
serviços públicos e migração em massa.

Esses fatos não são invenção retórica
nem devem ser relativizados.
Mas reconhecer o caráter autoritário do governo venezuelano não legitima uma
invasão militar estrangeira. O que ocorreu hoje ultrapassa qualquer debate sobre
direitos humanos ou democracia.

Trata-se de uma potência global decidindo,
unilateralmente, intervir militarmente em um país soberano, capturar seu chefe
de Estado e impor sua própria lógica de poder sobre uma nação inteira. O que mais surpreende e choca é ver brasileiros comemorando essa ação.

Como se tanques, bombardeios e prisões extraterritoriais fossem instrumentos
legítimos de reorganização política. Como se a história não tivesse mostrado,
repetidas vezes, que intervenções desse tipo produzem ruínas, não soluções.

Os Estados Unidos possuem uma longa tradição de invadir e desestabilizar
países sob o pretexto de levar democracia. Na prática, essas ações quase
sempre estiveram associadas à defesa de interesses econômicos, estratégicos
e geopolíticos. O discurso da liberdade costuma servir de verniz moral para a
espoliação de recursos, o controle político e a submissão de economias inteiras.

O Oriente Médio é prova disso, com países destruídos, Estados fragmentados e
populações condenadas a décadas de instabilidade. A América Latina também conhece bem esse roteiro. O Brasil não foi exceção.

O golpe militar de 1964 contou com apoio direto dos Estados Unidos, que
financiaram, articularam e sustentaram uma ditadura responsável por censura,
perseguições, tortura e assassinatos. Foram vinte e um anos de autoritarismo
justificados, à época, exatamente com o mesmo discurso que hoje reaparece
travestido de “salvação democrática”.

Celebrar a invasão da Venezuela é, no fundo, torcer para que esse mesmo método seja aplicado aqui. É desejar que uma potência estrangeira intervenha no Brasil, anule processos institucionais, liberte aliados políticos e imponha um governo alinhado aos seus interesses. Essa mentalidade revela um desprezo profundo pela soberania nacional e pela própria ideia de democracia.

Essa pequena parcela de brasileiros que vibra com a invasão pode ser comparada a um grupo de insetos que, em sua ânsia fascistóide de destruir os que pensam diferente, implora para que o dono da casa espalhe inseticida. Acreditam que o veneno cairá apenas sobre os inimigos, sem perceber que ele sempre contamina todo o ambiente.

Intervenções militares desestabilizam economias, provocam altas abruptas de
preços, ampliam a violência e destroem qualquer perspectiva de estabilidade a
médio ou longo prazo. Além disso, enfraquecem o direito internacional e
consolidam a ideia de que países menores não passam de territórios disponíveis
à vontade das grandes potências.

Parece desnecessário lembrar, mas é urgente fazê-lo. O Brasil não é a
Venezuela. Bolsonaro responde a processos dentro do sistema judicial
brasileiro. A América Latina não é o pomar do sonho americano, nem um
tabuleiro onde impérios movem peças conforme sua conveniência.

Criticar Maduro é legítimo. Defender direitos humanos é necessário. Mas
aplaudir uma invasão estrangeira é aderir ao mesmo autoritarismo que se diz
combater. Não há democracia que nasça da ocupação militar. Não há soberania
possível quando o destino de um povo é decidido fora de suas fronteiras.

A emancipação política da América Latina passa pelo fortalecimento de
instituições próprias, pela resolução interna de conflitos e pela solidariedade
entre os povos do continente. Aplaudir invasões é abdicar dessa possibilidade e
aceitar, de joelhos, a lógica imperial que sempre tratou a região como área de
saque. Hoje, mais uma vez, a história nos lembra que o fascismo não surge apenas nas
botas que invadem, mas se fortalece também nos aplausos que ecoam à
distância.

João Gilberto Guimarães Sobrinho, é Cientista social formado pela Universidade Federal do Vale do São Franscisco, escritor e produtor cultural.

2 COMENTÁRIOS

  1. “O texto do autor é um exemplo acadêmico da Teoria da Estupidez de Dietrich Bonhoeffer. Como bem explorado no artigo de RNT Pincelli, a estupidez não é um defeito intelectual, mas moral. O autor não carece de inteligência, mas abdicou da sua autonomia de pensamento em favor de um ‘slogan’ ideológico. Ao se tornar parte de um grupo ou de um dogma, ele se torna incapaz de enxergar o óbvio: que a soberania de um povo não pode ser confundida com a imunidade de um ditador.
    Ao usar a frase de Brecht para camuflar crimes contra a humanidade, o blogueiro entra no estado que Bonhoeffer descreve: ele se torna ‘irritado’ e perigoso quando confrontado com fatos. Para ele, o fato de Maduro ter sequestrado as instituições e torturado opositores — crimes investigados pelo Tribunal Penal Internacional — torna-se secundário diante do fetiche antiamericano. Ele prefere a ‘estabilidade’ de uma tirania vizinha a aceitar que a libertação de um povo pode vir por vias que ele não aprova.
    A teoria de Bonhoeffer explica por que o autor usa a palavra ‘Cio’: sob o domínio de um dogma, o indivíduo torna-se uma ferramenta cega. Ele não analisa a Venezuela; ele apenas repete o roteiro da ‘vítima do império’. Ele esquece que a maior invasão ocorrida na Venezuela foi a do próprio regime contra os direitos de seus cidadãos, documentada exaustivamente pela ONU.
    Invocar 1964 para proteger um ditador em 2026 é um malabarismo retórico que ignora uma diferença fundamental: o golpe no Brasil derrubou a democracia; a queda de Maduro é a remoção de quem já a destruiu por dentro. Como diz a teoria: contra a estupidez, não há argumentos. Mas é necessário expô-la, pois o autor não está apenas enganado; ele está ‘enfeitiçado’ por uma ideologia que o impede de sentir indignação pela fome e pelo exílio de milhões, reservando seu ‘humanismo’ apenas para o destino de um tirano.”

Deixe um comentário para Justiça Verdadeira Cancelar resposta

Comentar
Seu nome