O jornalismo e a comunicação atravessam, na contemporaneidade, um dos períodos mais desafiadores de sua história. A consolidação das redes sociais, aliada ao avanço acelerado da inteligência artificial e das tecnologias de informação, alterou profundamente a forma como as notícias são produzidas, difundidas e consumidas. Se, por um lado, esse cenário ampliou o acesso à informação e democratizou os meios de comunicação, por outro, instaurou um ambiente marcado pela urgência, pela superficialidade e pela proliferação de conteúdos falsos, ofensivos ou descontextualizados.
A lógica da velocidade passou a se sobrepor à lógica da apuração. A necessidade de noticiar em tempo real cria uma corrida permanente por curtidas, compartilhamentos e engajamento, muitas vezes em detrimento da checagem dos fatos, da responsabilidade ética e do respeito às pessoas envolvidas. Nesse contexto, cada indivíduo conectado passa a se perceber como um potencial divulgador de notícias, sem necessariamente possuir formação técnica, compromisso com a verdade ou compreensão das consequências sociais de suas publicações.
Esse fenômeno se manifesta de forma especialmente grave na disseminação de imagens de pessoas mortas ou acidentadas, expostas sem qualquer cuidado, respeito ou consentimento. Tragédias pessoais são transformadas em espetáculo, reduzidas a cliques e comentários, alimentando uma cultura de insensibilidade e violação da dignidade humana. O que deveria ser tratado com humanidade e responsabilidade passa a circular como entretenimento mórbido.
Paralelamente, observa-se a banalização da ofensa, do xingamento e do ataque pessoal. Muitos usuários agem a partir da falsa noção de que a internet é uma terra de ninguém, um espaço sem regras, onde tudo é permitido. O anonimato, real ou percebido, serve de escudo para o surgimento dos chamados ogros ou trolls digitais, indivíduos ou grupos que se valem das plataformas para propagar discursos de ódio, desinformação e violência simbólica contra quem pensa diferente, reforçando polarizações e aprofundando fraturas sociais.
Outro aspecto preocupante é a ascensão do achismo como substituto do conhecimento técnico. Em diversas áreas, como saúde, educação, política, ciência e cultura, opiniões pessoais são difundidas como verdades absolutas, muitas vezes em confronto direto com estudos, dados e especialistas. A desvalorização do saber técnico e do jornalismo profissional fragiliza o debate público e compromete a capacidade coletiva de tomar decisões informadas.
Diante de uma sociedade cada vez mais conectada, torna-se urgente refletir sobre a necessidade de regulações, bom senso e marcos legais que acompanhem o avanço das tecnologias. Não se trata de cercear a liberdade de expressão, mas de estabelecer limites claros entre opinião e desinformação, entre crítica e discurso de ódio, entre comunicação responsável e violência simbólica. As plataformas digitais, os Estados, as instituições e os próprios usuários precisam compartilhar essa responsabilidade.
Nesse cenário complexo, o jornalismo reafirma seu papel fundamental como mediador qualificado da informação, comprometido com a ética, a veracidade e o interesse público. Em meio a fakes, algoritmos e ogros digitais, comunicar com responsabilidade torna-se não apenas um exercício profissional, mas um ato de cidadania. O desafio que se impõe é construir, coletivamente, um ambiente digital mais humano, crítico e consciente, à altura das tecnologias que criamos e das sociedades que desejamos sustentar.
Por João Gilberto Guimarães Sobrinho, cientista social formado pela Universidade Federal do Vale do São Francisco, graduando em história, pós graduando em História da arte, poeta editor e produtor cultural



