Nascido de, e criado por jornalista, deveria saber que não se escreve na primeira pessoa.
Mas, eu não sou jornalista e tomei gosto por decepcionar meu pai. Ele há de entender.
Só vale a pena escrever se for pessoal.
Como bom filho de mau comunista, muitas vezes é difícil fugir das ideias românticas e rasas. Então quando passando ali pela antiga TV vi a Adolfo Viana lotada, toda colorida de sorrisos, espumas e glitter, sonhei:
Me vi menino no Pimentinha jogando espuma pra cima e torcendo pra minha mãe não achar ruim. Vi meu primo mais velho com o abadá do Sei-lá, um biri-night na mão e se escondendo da câmera da TV já que ele estava em Juazeiro pra cuidar de minha Vó ou pelo menos é o que a namorada de Salvador achava.
E vi minha mãe brincando.
E vi meu pai de bigode, boné e óculos escuros.
E Vi eles dois se beijando na avenida cercados de amigos. Todos usavam a mesma camisa. Filhos da Pauta.
Vi tudo isso e pensei: JUAZEIRO RENASCEU!
Que ideia ótima para um artigo. Juazeiro Fênix. Renascida na quarta-feira de cinzas.
No domingo, como é de costume aos Domingos, a realidade fez questão de jogar fora minhas ideias rasas com uma cena pitoresca e duas constatações óbvias.
A cena eu presenciei passando ali perto do antigo ITAÚ, achei caipirinha por DOIS REAIS e Vi um Neto natimorto brincando nos ombros de um vaqueiro que levava entre as pernas um triste cabo de vassoura com cara de cavalo. Junto deles, uma senhora muito parecida com a Priscila da TV Colosso estava tentando comprar uma pulseira de camarote pro filho.
Fiquei ali alguns segundos perplexo com a cena. Um homem feito brincando de cavalinho, um bebê morto falando que se identificava com a cor bege e a Priscilla querendo comprar OPENBAR pra uma criança.
Meu Deus, ninguém tá vendo isso?
Não.
Ninguém estava.
Kannario tava passando.
As pessoas balançavam juntas. Sem deixar ninguém cair.
E quando vinha a polícia a gente se abraçava e abria caminho. E quando esquentava, quem tivesse leque abanava todo mundo. E quando o moço perdeu o chinelo todo mundo parou pra procurar. Tinha criança, vaqueiro, rapadura, Priscila, banqueiro, doido, metaleiro, crente, cachorro caramelo e quente, Tudo ali, até a caipirinha de 2 reais é Luiz Galvão e Chico Science. “Eu me rebolo pra continuar menino e o orgulho, a arrogância, a glória são demônios que destroem o poder bravio da humanidade”.
Daí as duas constatações:
1- Juazeiro não cabe no raso.
Juazeiro é capaz de eleger A Mãe sem molho de um filho sem carisma só pra mostrar que não aceita ser desrespeitada. Só pra deixar claro que não tem dono. Juazeiro é capaz de encontrar revolução comunista em empresa de agrotóxico pra fugir de polaridades burras. Juazeiro não queima. Apaga o fogo e corrige rumo. Juazeiro Não morre. Logo não renasce. Não há cinzas.
2. Depois de domingo é segunda.
Não sobrou nem a quarta feira da minha metáfora e me dei por satisfeito assim.
Achei mais bonito. No lugar da Quarta-feira de Cinzas. Segunda-feira de água.
Juazeiro é assim desde a planta. Continua sombra, não importa o tanto que esquente.
Por Joaquim Leão



