Em 2022, o então ministro Paulo Guedes repetia em tom profético e apocalíptico que, se Luiz Inácio Lula da Silva voltasse ao poder, o Brasil viraria uma Venezuela.
Não era uma análise econômica. Era um medo organizado em uma frase curta, feita para caber em rede social e caber principalmente no imaginário leigo das pessoas. Uma frase feita pra aterrorizar e confundir.
Três anos se passaram. E imagine só, o Brasil não virou Venezuela.
Virou outra coisa muito mais simples e muito mais concreta: um país onde mais gente voltou a trabalhar.
O desemprego caiu para perto de 5%, o menor nível da série histórica. Mais de 2 Milhões de empregos formais foram criados. O comércio voltou a respirar.
Supermercado cheio outra vez não é ideologia, é renda circulando. O salário voltou a comprar comida de verdade e não apenas sobreviver até o fim do mês. O país não explodiu, não confiscou poupança, não fechou Congresso, não ruiu economicamente. A inflação ficou sob controle e a economia cresceu moderadamente como qualquer país normal.
Nada disso parece com a Venezuela. Parece mais com estabilidade.
Enquanto isso, do outro lado da fronteira sul, a Argentina decidiu apostar na experiência mais radical de ultraliberalismo das últimas décadas, elegendo Javier Milei, prometendo destruir o Estado para salvar a economia. A inflação caiu, é verdade. Mas junto com ela caiu a comida da mesa de milhões de pessoas. A pobreza chegou a mais da metade da população em poucos meses. O consumo despencou. A economia encolheu. O cotidiano virou cálculo permanente entre pagar aluguel ou jantar.
E agora a crise ganhou corpo nas ruas. Após a aprovação de uma reforma trabalhista que flexibiliza demissões, reduz indenizações, amplia jornada para até 12 horas e limita o direito de greve, milhares de trabalhadores foram às ruas em Buenos Aires e em outras cidades. Houve confrontos, prisões e repressão policial. Não é detalhe: quando uma economia melhora apenas no papel e piora na vida real, a sociedade reage e a rua vira termômetro do que as estatísticas escondem.
É curioso observar a inversão histórica. Durante anos ensinaram que políticas sociais levariam ao colapso econômico e que austeridade salvaria a prosperidade. Hoje vemos um país com emprego alto e consumo funcionando e outro com ajuste brutal e sociedade empobrecida tentando sobreviver ao choque.
Não se trata de torcida ideológica. Trata-se de observar o que acontece quando a economia olha apenas para números e esquece pessoas.
A grande ironia é que o fantasma usado para assustar eleitores não apareceu onde prometeram. O Brasil não mergulhou no caos anunciado e a vida seguiu com suas dificuldades reais, mas dentro da normalidade democrática e econômica. Já a Argentina vive uma experiência em que a estabilização veio acompanhada de um sofrimento social imediato e profundo.
Talvez o erro não tenha sido apenas de previsão. Talvez tenha sido de compreensão.
No fim, a frase famosa ficou invertida pela própria realidade. Não foi a eleição que determinou o destino, foi a má escolha de um modelo econômico que privilegia os mais ricos em detrimento dos mais pobres.
A política conservadora brasileira prometeu um apocalipse que não aconteceu. A realidade infelizmente entregou outro, em outro lugar.
Como alertava a economista Maria da Conceição Tavares, “a economia que não se preocupa com a justiça social condena os povos à concentração de renda, ao desemprego e à miséria”.
Fica a lição para as eleições deste ano de 2026.
Por João Gilberto Guimarães Sobrinho é cientista social formado pela Univasf, editor, poeta, escritor, produtor cultural e Representante territorial de cultura do Território do Sertão do São Francisco.



