A vida, como eu sempre digo, é um abismo que nos espreita por trás da porta da sala de jantar, como dizia minha mãe. E a arte é apenas o grito que damos ao cair. Quando me sentei para assistir a Hamnet: a vida antes de Hamlet (2025), sob a batuta de Chloé Zhao, eu esperava o óbvio. Esperava o bardo, o gênio, o intocável William Shakespeare com sua pena em punho, ditando os rumos da eternidade. Mas a diretora, num gesto de crueldade sublime, nos dá as costas para o mito. Ela nos arrasta, pelos cabelos, para o centro do palco onde a verdadeira tragédia se consuma: o coração de uma mãe que, como a minha, perdeu um filho, em condição trágica.
O filme é uma bofetada na nossa cara de burgueses bem-comportados. Esqueçam os palcos de Londres e a pompa elisabetana. A genialidade da obra está em esfolar a alma humana na sua mais terrível banalidade. A morte de um filho, o pequeno Hamnet, levado pela peste. E o que sobra? O que sobra é o luto que não se berra em praça pública, mas aquele que apodrece as paredes da casa, que silencia o tilintar dos talheres, que transforma cada sombra num espectro de saudade.
Agnes, a esposa, vivida por uma Jessie Buckley que atua não com o corpo, mas com as vísceras expostas, é a verdadeira dona dessa tragédia. Ela é a terra, o barro, a mulher que uiva por dentro enquanto o marido foge. E o marido? Paul Mescal nos entrega um Shakespeare miúdo, impotente, um homem que, incapaz de salvar o próprio sangue, resolve engarrafar a dor em palavras. É de uma ironia patética e maravilhosa: o maior dramaturgo de todos os tempos, o homem que explicou o mundo, era um analfabeto diante do caixão do filho.
Aí chegamos ao desfecho. O momento em que a tela nos devora. A música de Max Richter, “On the Nature of Daylight”, desce sobre a cena final como uma mortalha. Qualquer outro diretor, um desses farsantes de Hollywood, teria afogado o espectador num oceano de violinos chorosos. Mas Zhao não. Ela deixa a música apenas roçar a pele da dor. É um silêncio que ensurdece. É a prova de que o amor, quando esmagado pela morte, só pode ser traduzido pelo indizível.
Eu digo, sem o menor pudor: Hamnet não é um filme sobre como se escreve uma obra-prima. É um filme sobre o preço que se paga por ela. É a constatação terrível de que por trás de todo grande homem existe uma mulher mastigando vidro moído. Chloé Zhao pegou a lenda, virou-a do avesso e nos mostrou as costuras sujas de sangue. E nós com a certeza de que a vida é, e sempre será, a maior e mais implacável das tragédias.
Para Nélia e Ricardo, requiescant in pace.
Por Luiz Antônio Costa de Santana, Professor da Univasf e da Uneb. Doutor em Direito, em Ecologia Humana e em Gestão Socioambiental. Advogado e Engenheiro.



