Sou um (quase não) ariano nascido no único dia
em que o Brasil lembra
dos nossos primeiros ancestrais
Carrego no peito um tambor indígena
e no ombro um santo em festa: Viva Antônio, nas novenas e quermesses
onde a fé dança sem pedir licença
Sou feito de uma fé que
não disputa e nem fere,
apenas acolhe
Sou da missa e respeito o culto, a sessão espírita, o terreiro e até as dúvidas dos agnósticos
Acredito em Jesus
como quem acredita
no amor possível:
manso, justo, humano
Sigo abrindo caminhos pelo fraterno coração com a coragem de quem ainda acredita no ser humano
(apesar dessas pessoas nefastas)
Escrevo porque preciso respirar
A poesia é meu oxigênio,
o rock pulsa nas veias
como urgência de vida
e a bossa nova me ensina
que é possível seduzir
o mundo com delicadeza
Sou um nordestino de
sol na pele e na alma
Latino de saudade larga
e brasileiro de bonitas contradições
Não torço: eu sou!
Sou Flamengo como quem foi parido da mais pura essência da paixão, como quem carrega o manto sagrado tatuado em rubro-negro no próprio corpo
Aprendi com Pessoa
que a grandeza mora
na verdade do sentir
E com Blake,
que quem não se ilumina
dos próprios olhos
jamais haverá de ser estrela
Bebo a vida em goles lentos, sem pressa e sem
necessidade de soltar
a âncora da lucidez criativa
Um pouco de boa cerveja ou de um bom vinho e nada mais
Naquela energia gostosa
como a do prazer adocicado
de um domingo de celebração
em família
A paz me chama pelo
nome de minha mãe,
me visita no amor da mulher que me redescobriu todo coração, brinca nas presenças dos meus amados e iluminados gurizinhos, vencedores agraciados por Deus que me ofertam tanta pureza
Sou um escritor de palavras inquietas e de sentidos diversos, colecionador de canções que vão de
Caetano a Lennon,
de Gonzaga à guitarra do rock
Leio Rimbaud nas madrugadas,
converso com Kerouac
nas estradas invisíveis,
e deixo Pessoa me habitar
como quem aceita um
destino múltiplo
No cinema, me reconheço em sonhos que não sonhei, em cartas não entregues, em poetas que caminham entre
o amor e a solidão
Sou um idealista assumido:
libertário no pensamento,
esperançoso na escolha
ainda necessária da
vermelha estrela
Uma parte em sonho
outra em construção
E digo, sem medo
e sem medida,
que estamos aqui
para conquistar o horizonte
que nos é devido
Porque tudo é
Todos são
E no fundo de tudo,
o amor, esse delicioso exagero, é total
A vida é totalista.
Evoé!
Luiz Hélio Poeta
Juazeiro/BA (Terra Amada), 19 se abril de 2026



