Eu já te tive em tantos números: 10, 15, 20, 30, e agora te abraço nos 59. Vívidos anos. Anos que não cabem em calendário, que não se explicam em linhas retas. Anos que me atravessaram como o sol de Juazeiro: quente, insistente, impossível de ignorar.
Chego como quem chega a um mirante depois de longa travessia, não ofegante, mas consciente. Olho para trás e não vejo apenas o caminho percorrido: vejo as versões de mim que precisei ser para continuar. Algumas ficaram pelo percurso, outras ainda caminham comigo, misturadas na mulher que hoje sustento.
Eu dei conta. Até aqui, dei conta.
Nunca pensei no envelhecer. Não como destino, não como medo. Fui vivendo, fase por fase, como quem atravessa um rio sem saber a profundidade exata, mas confiando no próprio corpo. Houve dias de correnteza forte, em que precisei nadar contra tudo. Em outros, me deixei levar, suave, aprendendo que a vida também sabe conduzir.
Nunca fiz pacto com o tempo. Nem tentei detê-lo ou corrigi-lo. Vivi. Às vezes com bravura, às vezes com delicadeza, mas sempre inteira no que era possível ser em cada instante. E talvez seja isso que agora me oferece essa sensação rara: a de não estar em dívida comigo.
Houve um momento em que o espelho me perguntou quem eu era. As linhas que surgiram no rosto, os fios brancos, a pele que mudou de textura … tudo isso parecia anunciar uma despedida. Mas não era. Era chegada. Era o tempo me devolvendo a mim mesma, sem disfarces, sem urgência de caber em expectativas alheias.
Hoje, quando me olho, não procuro vestígios do que fui. Eu reconheço o que permaneci.
Envelhecer, para mim, não foi queda, foi revelação.
Hoje, digo sem vergonha: envelheço bem. E não é vaidade, é consciência. O espelho já me assustou, sim, mas entendi o tempo desenhando seu mapa em mim. O espanto passou. E o que ficou foi um encontro.
Eu me gosto. Gosto de me ver no espelho, gosto de me escutar. Gosto da mulher que o tempo escreveu.
Não negocio minhas marcas. Não desejo apagá-las. Não me seduz a promessa de retorno a um rosto que já não me pertence. Há uma liberdade imensa em não querer voltar. Há uma paz profunda em permanecer. Em não precisar corrigir o passado. Em não desejar um corpo que já cumpriu seu ciclo. Meu corpo agora é memória viva, essa casa habitada, não uma vitrine.
Dentro dessa casa, mora uma mulher que já não negocia sua paz. Porque o que vejo hoje não é perda, é acúmulo. É história viva. É permanência.
Existe um brilho nesse meu olhar que não se fabrica. Nenhuma intervenção alcança o que a vida lapidou. Esse brilho vem das vezes em que fui chão e mesmo assim floresci. Das vezes em que fui abrigo, mesmo precisando de colo.
Sou mãe de quatro filhos, quatro universos, quatro maneiras de amar. E entre eles, a experiência de maternar um filho que me ensinou outras gramáticas do cuidado, outras formas de presença, outras medidas de mundo. A maternidade me expandiu e me desorganizou e depois me reconstruiu maior, como quem carrega um território inteiro dentro do peito: vasto, complexo, indomável.
Sou comunicadora. Fiz da palavra minha melhor ferramenta e da escuta meu ofício. Aprendi a narrar o mundo, mas sobretudo aprendi a me reescrever dentro dele.
Entre uma urgência e outra, nunca deixei de cantar. Não me intitulo cantora, mas quando a vida me transborda é a música a quem recorro. Porque há sentimentos que não cabem em prosa, que pedem melodia, que precisam voar.
Eu sou, acima de tudo, uma mulher que aprendeu a escolher.
Escolher onde ficar.
Escolher quando sair.
Escolher o que não carregar mais.
Aos 59, não sou ausência de dores. Mas também não sou dominada por elas. O cansaço existe, mas não me define. O que me define é essa chama acesa, mais serena, talvez. Infinitamente mais consciente do que merece queimar e do necessita ascender, acender.
O desânimo não me governa. A fadiga não me nomeia. Há em mim um tesão pela vida mais honesto, mais limpo, mais meu. Um desejo que não pede licença, que apenas pulsa.
Derrubei muros. E os que restam, já não me intimidam, cabem no bolso. Aprendi que vencer não é espetáculo. É cotidiano. É silencioso. É íntimo.
Não faço mais concessões ao que me diminui. Não sustento desconfortos desnecessários.
Já não me explico tanto. Já não me justifico tanto.
Fui muitas vezes chamada de ousada. E fui. Meti os peitos na vida quando era mais fácil recuar. Confrontei quando esperavam silêncio. Segui quando o roteiro pedia desistência. E hoje entendo: era isso ou não seria eu.
Se tivesse vivido para agradar, talvez agora estivesse assombrada pela velhice, tentando deter o tempo, temendo o peso que o mundo insiste em colocar sobre os anos. Mas não. Eu escolhi viver. E viver me trouxe até aqui inteira.
Amar, para mim, deixou de ser esforço. É natureza. Mas já não aceito o que me desarmoniza. Já não me submeto ao que me apaga. Esse tempo passou.
Existe uma dignidade silenciosa em chegar até aqui sem ter traído a própria essência. Jamais quis ser perfeita, ainda bem. Fui real. Fui intensa. Fui, muitas vezes, excesso. E foi nesse excesso que aprendi a me reconhecer.
Se há vitória, ela não está nos aplausos. Está no fato de eu conseguir, hoje, habitar a mim mesma com conforto.
Sem pressa.
Sem fuga.
Sem medo.
Amar deixou de ser um campo de batalha. Tornou-se território de escolha.
Não celebro apenas o tempo vivido. Celebro a mulher que restou de tudo isso, e que, curiosamente, não é resto: é síntese.
Sou muitas em uma só. Sou passado que respira no presente. Futuro que se permite sonhar.
E se me perguntarem o que espero dos anos que virão, eu direi com a tranquilidade de quem já aprendeu o essencial: Espero continuar sendo. Com coragem. Com verdade.
Hoje, celebro a inteireza. Sou feita de tudo o que vivi e também do que recusei viver. Sou soma e sou escolha. Sou permanência e reinvenção.
Não me sinto chegando ao fim de nada.
Me sinto no auge de mim.
E, isso me basta.
Sibelle Fonseca é juazeirense, radialista, militante do jornalismo, pedagoga, feminista, humanista, mãe de Carla, Pingo, Mariana, Ananda e humana de Diana e de mais 5, cantora nas horas mais prazerosas, defensora dos direitos humanos e dos animais, uma amante da vida e das gentes.



