Não me lembro mais quem postou. Era domingo, eu rolando o feed sem prestar muita atenção, e parou nos olhos uma frase atribuída a Michelangelo: “vi o anjo no mármore e fui esculpindo até libertá-lo”. Fechei o aplicativo, fui almoçar. À noite, no escuro, voltei a pensar na frase. Não pela frase em si, provavelmente apócrifa, aliás, mas por uma coisa que ela faz. Inverte uma certeza que a gente costuma carregar quase sem reparar: a de que somos os autores da nossa própria forma.
A história do bloco vale uma releitura. 1464, Florença. A Catedral encomenda um pedaço de mármore enorme, mais de cinco metros de altura, com uma estátua em mente. Dois escultores experientes começam o trabalho e desistem. Diziam que a pedra era ruim, frágil, defeituosa. O bloco fica encostado num pátio quase quarenta anos. Chove em cima, pega sol, a poeira de Florença se acomoda. Em 1501 chega Michelangelo, vinte e seis anos, topa o serviço. Em três anos saca dali o Davi.
Os gregos tinham Pigmalião, escultor de Chipre que talhou uma mulher em marfim e se apaixonou por ela com tal convicção que Afrodite, comovida, deu vida à estátua. São histórias diferentes em tom, mas o ponto é o mesmo: alguém de fora decide a forma de quem está dentro.
A diferença entre as histórias importa. Pigmalião projeta no marfim a mulher que ele quer ter. Em Michelangelo, pela frase que se atribui a ele, a forma já estava na pedra, e o escultor só ajudou a sair. Não foi por acaso que estudos liderados por Caryl Rusbult, nos anos noventa, escolheu Michelangelo, e não Pigmalião, para batizar o que ela e seu grupo vinham encontrando em estudos com casais. A psicologia social separa essas duas coisas.
No efeito Pigmalião, alguém molda o outro segundo o ideal que ele, moldador, tem do outro. No efeito Michelangelo, ajuda o outro a se aproximar do ideal que esse outro tem de si mesmo. Parece detalhe acadêmico, mas pesa quando se é o esculpido.
O que os estudos da Rusbult mostraram, em mais de uma década de acompanhamento, é que a coisa funciona devagar. Não é transformação dramática; é deslocamento por confirmação repetida. A pedra é mais maleável do que costumo admitir, inclusive a minha.
Falo “no dia a dia” porque o tamanho do efeito é menor do que parece. Não está no discurso de aniversário de casamento. Está na pergunta no café: “como foi a aula ontem?”, feita com interesse real ou com tédio. Está em lembrar de uma coisa pequena que o outro disse na semana passada, ou em achar graça quando a pessoa se anima com algo que parece bobo. Soma de pequenas confirmações, soma de pequenas omissões. Vai assim, a vida inteira.
Quem dá aula tropeça nesse efeito direto. Faz pouco tempo, num exame de banca, um aluno meu defendeu uma tese que cinco anos antes ele nem teria apresentado em sala. Não quero contar de quê era a tese, porque dá para reconhecer a pessoa, e ele que conte se quiser. Mas eu lembro do primeiro semestre dele, sempre o último a falar, e em frases curtas, como pedindo desculpa pelo espaço ocupado. E hoje me sentei na banca e vi um sujeito com lugar próprio numa discussão. Sou um dos cinzéis. Não o principal, espero. Mas estive ali, e isso me obriga a uma certa responsabilidade na primeira aula de cada semestre.
O contrário também acontece, e não é raro. Os próprios pesquisadores estudaram o oposto, o “efeito Michelangelo negativo”, quando o convívio próximo empurra a pessoa para uma versão menor de si. Curioso que se fale tão pouco disso fora da psicologia, porque na literatura o assunto é velho. Nelson Rodrigues construiu sua “Vida como ela é…” em cima dessa observação: cônjuges, irmãos, vizinhos esculpindo-se uns aos outros em movimentos miúdos, dia após dia, dos quais ninguém na hora se dá conta. Era em boa parte isso o que ele via na vida íntima brasileira, esse esculpir e ser esculpido às escondidas. Na advocacia, sobretudo em direito de família, a coisa aparece direto, com outros nomes. Já vi muitos casos em que a queixa formal era patrimonial, mas o que estava dito por baixo era: não sou mais quem eu era, e em parte é porque essa pessoa esculpiu para fora o que eu mais gostava em mim.
Que faço, sabendo disso? Não muita coisa, na maior parte do tempo. A pergunta “quem está esculpindo você?” é dramática demais para a vida adulta, que é feita de segunda-feira com prazo. Mas em umas poucas horas, dessas que tomam a vida inteira, ela vale. Quando se decide com quem morar, com quem se casar, com quem trabalhar de verdade. Quando se aceita um cargo, ou se topa uma amizade que vai ocupar tempo. Aí dá para ouvir a pergunta sem fingir. E a sua irmã siamesa, que é a que eu menos costumo ouvir: também sou cinzel na vida de alguém, e isso pede atenção parecida.
Luiz Antônio Costa de Santana, Professor da Univasf e da Uneb. Doutor em Direito, em Ecologia Humana e em Gestão Socioambiental. Advogado e Engenheiro.



