Tornar-se mãe é um momento muito sensível e transformador para as mulheres. Para muitas, é a realização de um sonho e a concretização de um projeto de vida. No entanto, as mulheres têm cada vez menos pressa em iniciar essa fase e optam por gestações mais tardiamente.
Pesquisas do IBGE indicam um aumento de mais de 50% no número de brasileiras que se tornaram mães após os 40 anos, entre 2010 e 2022. Na Bahia, a maternidade tardia acompanha a tendência nacional. O percentual de nascimentos de mães com 40 anos ou mais subiu de 2,1% em 2003 para 4,4% em 2022.
A maternidade depois dos 40 revela um perfil de mulher mais madura, decidida e preparada emocionalmente. Contudo, essas mães ainda enfrentam dificuldades, como falta de empatia, às vezes quase hostilidade, ausência de rede de apoio e um sentimento de solidão mesmo cercada por outras pessoas.
A romantização do “dar conta de tudo”
Para a psicóloga e professora Luciene Figueiredo, doutora em Família na Sociedade Contemporânea, essa escolha por adiar a maternidade está intimamente ligada à busca de realização pelas mulheres também em outras áreas. “A gente romantiza muito, achando que nossas mães e avós tinham quatro, cinco filhos, e ainda ‘davam conta de tudo’, mas isso não é verdade”, disse.
Conforme explica a psicóloga, para dar conta de ser mãe, a mulher precisa fazer sacrifícios em outras áreas, seja acadêmica, profissional, social e até no relacionamento conjugal. Não seria possível “dar conta de tudo” ao mesmo tempo e de alguma coisa, em algum momento, seria necessário abrir mão.
Luciene explica que, em outras épocas, o mais comum era que as mulheres se casavam muito jovens, mesmo ainda adolescentes. A vida e o sucesso eram pautados no casamento e na criação dos filhos.
Atualmente, as mulheres cada vez mais buscam a realização nos estudos e na carreira e, por isso, acabam adiando ou até mesmo optando por não serem mães. De acordo com a psicóloga, a liberdade de poder fazer escolhas e estabelecer prioridades de realização é uma grande conquista.
Mas as escolhas fora dos padrões esperados ainda são um entrave e geram preconceitos. As mulheres sofrem julgamento inclusive de outras mulheres. “Ainda hoje, mulheres que têm fiho julgam as que escolhem esperar ou não ter filhos como se elas fossem menos afetivas, mais frias. Algumas até profetizam, dizendo ‘assim você nunca vai conhecer o maior amor do mundo’. Existe, inclusive, muita competição”, relata Luciene.
Escolhas e acasos
“Eu acho que o perfil da maternidade está mudando”, diz Michelle Oliveira, influenciadora digital do perfil Mamães Baianas. Segundo informou, do total de suas 128 mil seguidoras, cerca de 47% estão na faixa dos 35 a 44 anos e 23% tem 45 anos ou mais.
De acordo com a sua análise, há muitas mães entre as suas seguidoras que se tornaram mãe depois dos 40 anos sem planejamento. Recentemente, inclusive, conheceu alguns casos de “bebê ozempic”, de mães que engravidaram tardiamente após o uso do medicamento para emagrecer.
No entanto, conforme a sua percepção através dos registros nos grupos de apoio organizados em seu perfil, o adiamento da maternidade na maioria das vezes se dá por escolha. “O que eu percebo é que muitas mães priorizam mesmo a carreira, ter uma estabilidade emocional, ter uma estabilidade financeira, para só depois pensar em ter filhos”, explicou Michelle.
A solidão da mãe madura
Michelle acredita que há muitas vantagens no fato de a mulher esperar um pouco para ser mãe. “Normalmente, elas estão mais conscientes, mais informadas, são mais seguras até, aceitam menos ‘pitacos’ dos outros”, explicou.
Por outro lado, há dificuldades que atingem muito fortemente uma mãe tardia. Segundo Michelle, a diferença que há no momento de vida dessas mulheres e das outras em seu círculo de amizades acaba por gerar um isolamento emocional. “É uma maternidade que, às vezes, é muito solitária. As amigas já passaram pela fase inicial da maternidade e ela está começando agora”, disse a influenciadora.
Rede de apoio
Uma das formas de combater esse isolamento é buscar conexão com outras mães que estão na mesma fase. Conforme relata Michelle, algumas mães, por exemplo, acabam se aproximando de outras mães de colegas dos filhos na escola e formam amizades “bem improváveis”, com pessoas com quem normalmente não haveria qualquer proximidade mas vivenciar o mesmo momento acaba criando um vínculo.
“Você não precisa estar sozinha”, disse Michelle, apontando grupos de apoio como os que ela administra através do perfil nas redes sociais. Segundo explicou, os grupos são divididos pelas faixas de idade das crianças. Assim, as mães que se encontram lá passam pelas mesmas fases, com as mesmas dificuldades.
Entre crianças, sonhos, trabalho e climatério
Patrícia Muniz, de 53 anos, é pedagoga. Trabalha em tempo integral como professora e vice-diretora em uma escola municipal. Ela precisou aprender a conciliar a vida profissional e a rotina de ser mãe de três crianças, uma delas com necessidades especiais.
Patricia conta que foi mãe pela primeira vez aos 35 anos. Já no segundo casamento, ela teve sua segunda gestação, que havia sido planejada, com 41. Quando sua filha tinha apenas cinco meses, ela engravidou novamente, dessa vez sem planejamento, aos 42 anos.
“Foi um choque, um susto, um desespero. Eu achava que não ia fazer mais nada da vida, só criar filho. Nessa época, eu sonhava com o mestrado acadêmico. E para completar, havia um indicativo de Síndrome de Down na gestação do caçula”, relatou a pedagoga.
Aos 42 anos, Patrícia começou a sentir todo o impacto das mudanças. “A vida, a disposição, as responsabilidades, os cuidados com uma criança atípica… tudo ficou mais difícil”, desabafou. Ela relatou que recebia muitos elogios por dar conta de tudo, mas que na verdade se sentia esgotada fisicamente.
Com o marido que ficava muito tempo ausente devido ao trabalho e com os próprios pais já idosos, ela contou que nunca pode dispor de uma rede de apoio efetivamente. “Com a chegada do climatério, em plena pandemia, as coisas foram piorando. Fui ficando sem paciência, me sentindo sufocada, sobrecarregada e triste”, relembrou.
Patrícia contou que, nesse período, o casamento começou a declinar, chegando ao fim em 2023. “Desde então, cá estou exercendo maternidade solo, tentando fazer o possível para manter tudo dentro da normalidade e sem esquecer de mim”, disse.
Apesar dos dissabores, Patrícia se sente recompensada, orgulhosa e realizada com a maternidade. “É incrível quando você vê que tudo que você está fazendo, está dando certo. Quando alguém elogia como seu filho se comportou bem, como é bem educado, isso é maravilhoso”, contou.
Conforme falou Michelle Oliveira, para cada momento da vida a maternidade apresenta desafios e alegrias. “Eu não acho que existe uma idade ideal para ser mãe. Existe todo o contexto, o desejo, a possibilidade e o acaso. Se a maternidade chegou para você depois dos 40, ela não veio fora de hora, ela veio no tempo da sua história.”
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