Quando empreender também é maternar: histórias de mulheres que transformam desafios em autonomia no interior da Bahia

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Pesquisa do Sebrae revela que 57% das mães empreendedoras baianas dependem exclusivamente do próprio negócio para sustentar suas famílias; trajetórias de Juliana Ferreira Dias e Yonara Santos ilustram essa realidade

No sertão do norte da Bahia, onde a paisagem é marcada pelo calor intenso e pela resistência de quem aprende a prosperar em meio às adversidades, duas mulheres construíram caminhos próprios para garantir renda, autonomia e presença na vida dos filhos. Embora atuem em áreas completamente diferentes, a empresária Juliana Ferreira Dias e a jornalista Yonara Santos compartilham uma mesma realidade: a de mães que encontraram no empreendedorismo uma forma de sustentar suas famílias sem abrir mão de acompanhar de perto o crescimento dos filhos.

As histórias das duas juazeirenses refletem uma realidade cada vez mais comum no estado. De acordo com a terceira edição da pesquisa Maternidade e Negócios – A força das mães empreendedoras baianas, realizada pelo Sebrae, 57% das mães empreendedoras da Bahia têm no próprio negócio sua única fonte de renda. O levantamento evidencia o papel central do empreendedorismo feminino na manutenção financeira das famílias e revela os desafios enfrentados por mulheres que acumulam responsabilidades profissionais e domésticas.

 

Foi justamente em busca de autonomia que Juliana Ferreira Dias decidiu mudar o rumo da própria trajetória. Aos 42 anos, depois de anos atuando no comércio e chegar ao cargo de gerente de loja, ela resolveu abrir mão da estabilidade do emprego formal para investir em um sonho considerado improvável para a região: uma casa especializada em mariscos e peixes em Juazeiro.

Há seis anos nasceu a Point dos Pescados. Em uma cidade distante do litoral, Juliana apostou em um segmento pouco explorado e encontrou uma oportunidade de negócio. O empreendimento cresceu, conquistou clientes e se transformou na principal fonte de sustento da família. Mas, para ela, o maior resultado não aparece apenas no faturamento.

“Um dos meus maiores desafios foi conciliar a maternidade com a vida de empreendedora. No início, precisei dividir meu tempo entre cuidar da minha filha e fazer o negócio crescer. Houve momentos de cansaço, insegurança e muitas responsabilidades, mas nunca desisti dos meus objetivos. Com organização, dedicação, apoio da minha família e muita fé em Deus, consegui superar cada obstáculo”, relata.

Hoje, mãe de uma menina de seis anos, Juliana considera que empreender permitiu algo que considera essencial: administrar o próprio tempo para estar presente na rotina da filha. “Tenho orgulho de ver que todo esforço valeu a pena, pois consigo cuidar da minha família, sustentar meu lar e continuar crescendo como empresária”, afirma.

A busca por flexibilidade apontada por Juliana aparece também entre os resultados da pesquisa do Sebrae. O estudo mostra que muitas mulheres enxergam no empreendedorismo uma alternativa para conciliar geração de renda e maternidade, especialmente diante das limitações impostas pelo mercado de trabalho tradicional.

Outra história que traduz os números do levantamento é a da jornalista Yonara Santos. Aos 35 anos, ela divide a rotina entre a produção de notícias para o Portal Preto no Branco, onde atua há uma década gerindo o próprio trabalho como Microempreendedora Individual (MEI) e os cuidados com as filhas Luna, de 8 anos, e Lara, de apenas dois meses.

Trabalhando em home office, Yonara enfrenta diariamente o desafio de equilibrar demandas profissionais, maternidade e tarefas domésticas. “O meu maior desafio de empreender sendo mãe foi conciliar os diferentes papéis que desempenho diariamente. Como jornalista, preciso de concentração para apurar informações, escrever matérias e acompanhar os acontecimentos em tempo real. Ao mesmo tempo, sou mãe, tenho as demandas das minhas filhas para atender e também as responsabilidades do lar”, conta.

Ela afirma que a organização foi fundamental para encontrar equilíbrio. “No início foi difícil separar esses momentos e evitar que uma atividade interferisse na outra. O que me ajudou foi criar uma rotina organizada, estabelecer horários e prioridades e contar com uma rede de apoio”, explica.

O levantamento mostra ainda que 74% das mães empreendedoras baianas são mulheres negras, como Yonara. A maioria atua nos setores de serviços (52%) e comércio (34%). Apesar do protagonismo econômico, 41% possuem renda de até dois salários mínimos e enfrentam dificuldades relacionadas ao acesso a assessorias especializadas, gestão financeira e carga tributária.

Outro dado que chama atenção é que 46% das entrevistadas afirmaram já ter sofrido preconceito por serem mulheres empreendedoras.

Para a gestora estadual do Sebrae Delas, Valquíria de Pádua, os números revelam a importância de ampliar o apoio às mães que empreendem. “Além de mostrar que, para muitas mães baianas, o próprio negócio é o que garante o sustento da família, o estudo indica que elas empreendem com pouca renda, pouco apoio e acumulando muitas responsabilidades. É nesse contexto que iniciativas como o Sebrae Delas se tornam ainda mais relevantes, ao oferecer capacitação, orientação e rede de apoio para fortalecer esses negócios e ampliar as oportunidades de crescimento”, destaca.

Apesar das dificuldades, Juliana e Yonara compartilham a mesma convicção: empreender vale a pena. “Nosso filho pode ser nossa maior motivação para crescer e vencer. Com trabalho, dedicação e fé, é possível construir um negócio de sucesso e, ao mesmo tempo, estar presente na vida da família”, afirma Juliana. Yonara segue a mesma linha. “Para as mães que estão pensando em empreender, digo acreditem que é possível, mesmo que nem sempre seja fácil. Com planejamento, dedicação e paciência, é possível crescer profissionalmente sem abrir mão de acompanhar de perto o desenvolvimento dos filhos.”

Em diferentes cenários, uma trazendo o sabor do mar para o sertão e outra levando informação à comunidade todos os dias, as duas mostram que o empreendedorismo feminino vai muito além da geração de renda. É também uma ferramenta de autonomia, realização e transformação social. E, na Bahia, essa força tem cada vez mais o rosto de mães que encontraram no próprio negócio um caminho para construir o futuro.

Por Sibelle Fonseca

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