A convocação mais aguardada não é a da Seleção — é a de Neymar

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Por Danilo Duarte – A convocação da Seleção Brasileira para uma Copa do Mundo nunca foi apenas uma lista. É quase um retrato emocional do país. Uma fotografia torta, apaixonada, discutível — como o próprio Brasil. E nesta segunda-feira (18), enquanto Carlo Ancelotti sobe ao palco para anunciar os escolhidos para o Mundial de 2026, existe uma pergunta que paira acima de qualquer esquema tático, acima de qualquer debate estatístico, acima até da prancheta fria do futebol moderno: Neymar vai ou não vai?

O resto é detalhe.

Pode-se discutir laterais, volantes, zagueiros de construção, extremos de recomposição. Pode-se mergulhar em mapas de calor e porcentagem de posse de bola. Mas a alma do futebol nunca coube inteira na matemática. E o torcedor brasileiro, mesmo depois de tantos desencantos, ainda procura no craque aquilo que sempre procurou: esperança.

Ancelotti já confirmou a presença de Danilo, jogador experiente, líder silencioso, daqueles que parecem carregar o vestiário nos ombros. Justo. Compreensível. Mas a pré-lista dos 55 nomes enviada pela CBF à FIFA também trouxe algumas surpresas que acendem inevitavelmente a discussão. Nela aparecem nomes como Alecsandro, Thiago Silva e Paquetá. E é exatamente aí que a pergunta sobre Neymar ganha ainda mais força.

Porque, sinceramente, não faz sentido levar qualquer um desses e deixar Neymar fora.

Não se trata apenas de idolatria. Nem de saudosismo. Muito menos de transformar o camisa 10 em figura intocável. O debate precisa ser honesto. Neymar lesionado, sem condições físicas, evidentemente não deve estar em uma Copa do Mundo. O próprio Ancelotti foi claro ao dizer que, estando bem fisicamente, o atacante não precisa provar mais nada tecnicamente. E ele tem razão.

Neymar já foi vaiado, superprotegido, criticado, bajulado e cobrado como poucos atletas na história deste país. Em certos momentos, virou até caricatura nacional. Mas ainda assim, quando a bola chega em seus pés, existe algo diferente. O jogo desacelera por um segundo. O torcedor presta atenção. O adversário recua meio passo. E esse tipo de jogador não nasce toda temporada.

O futebol brasileiro, aliás, sempre teve dificuldade em lidar com seus gênios. Foi assim com Romário, com Ronaldinho, com Ronaldo, com tantos outros. O Brasil adora o craque, mas também sente prazer em julgá-lo. Talvez porque espere dele não apenas futebol, mas redenção nacional. Como se um drible pudesse consertar as frustrações de um país inteiro.

Neymar jamais foi perfeito. Nem precisava ser.

O que seria incoerente é imaginar uma Seleção que aceita nomes discutíveis, jogadores em reta final ou atletas sem peso decisivo internacional, enquanto hesita justamente diante do único brasileiro da geração atual capaz de mudar emocionalmente uma Copa do Mundo em um lance.

Pode dar errado? Claro que pode. Copa do Mundo é território da tragédia também. Nelson Rodrigues dizia que o brasileiro é um narciso às avessas, que cospe na própria imagem. E talvez o caso Neymar seja exatamente isso: um país incapaz de reconhecer o tamanho do seu último grande protagonista antes que ele desapareça de vez.

Até o encerramento da convocação, a dúvida seguirá queimando no imaginário popular. E talvez isso explique mais sobre Neymar do que qualquer número. Porque nenhum outro nome da lista provoca tamanho suspense. Nenhum outro jogador faz o país parar para esperar uma frase.

“Convocado.”

Talvez seja apenas isso que o torcedor queira ouvir nesta tarde. Não por nostalgia. Mas porque toda Copa ainda precisa de um personagem. E o Brasil sabe que, goste-se ou não dele, Neymar continua sendo o último jogador brasileiro capaz de transformar expectativa em vertigem.

Por Danilo Duarte, jornalista.

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