A aprovação, pela Câmara dos Deputados, da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que prevê a redução da jornada semanal de trabalho e coloca fim ao modelo conhecido como escala 6×1 reacendeu o debate sobre os impactos da rotina exaustiva na saúde mental dos trabalhadores brasileiros.
A assistente de monitoramento logístico Lisandra Nogueira, de 27 anos, não conhece outra realidade. Em entrevista ao portal A TARDE, ela conta que a escala 6×1 sempre fez parte da rotina desde as primeiras experiências no mercado de trabalho e relata que a jornada afeta diretamente o equilíbrio emocional e a qualidade de vida.
“Em relação aos impactos psicológicos, é uma constante tensão. Você se mantém o tempo todo em alerta, porque você precisa dar conta de cuidar de uma casa, de filhos, da saúde, estudar, ir ao mercado, pagar as contas, cuidar da casa. É uma constante falta de tempo. Uma tentativa de equilíbrio em fazer tudo que é necessário caber dentro de 24 horas”, afirmou.
Sobrecarga e esgotamento emocional
Especialistas apontam que jornadas como as de Lisandra, com apenas um dia de descanso semanal, favorecem o surgimento de quadros de estresse crônico, ansiedade, depressão e Síndrome de Burnout.
A especialista em Psicologia Clínica Existencialista Sartreana, Paula Motta, explica que a escala reduz a vida do trabalhador quase exclusivamente ao trabalho, comprometendo relações pessoais, lazer e autocuidado.
“Os impactos da escala 6×1 na saúde mental são profundos, pois reduzem a vida do trabalhador quase que exclusivamente à dimensão laborativa. A jornada intensa e a folga única geram um cansaço crônico que culmina na alienação do indivíduo. Sob essa lógica, perde-se o tempo próprio: o espaço para o autocuidado, a autoconsciência e a escolha livre de projetos existenciais”, explicou.
Segundo a psicóloga, a ausência de tempo para convivência social também contribui para o agravamento do sofrimento psíquico.
“A impossibilidade de cultivar momentos com familiares e amigos fragiliza os laços afetivos e o suporte social, gerando um isolamento que potencializa quadros de ansiedade, depressão e Burnout”, completou.
Burnout e estado permanente de alerta
Paula Motta afirma ainda que a exaustão contínua cria um ambiente propício para o desenvolvimento da Síndrome de Burnout.
“A exaustão provocada por uma rotina com apenas um dia de descanso semanal constitui o cenário ideal para o desencadeamento de estresse crônico, Síndrome de Burnout, quadros ansiosos e depressivos. No cotidiano da clínica, é evidente o aumento exponencial do sofrimento psíquico atrelado à dinâmica e às relações laborais contemporâneas”, disse.
Afinal, o Burnout não se instala subitamente: ele é o ápice de um processo prolongado de esgotamento, no qual o corpo e a mente são privados do repouso necessário, mantendo o indivíduo em um estado permanente de alerta e hipervigilância
Falta de tempo para viver
Outro ponto levantado pela especialista é que o único dia de folga costuma ser ocupado por tarefas domésticas e obrigações acumuladas durante a semana, reduzindo ainda mais o tempo de descanso real.
“Na estrutura da escala 6×1, o único dia de descanso é frequentemente engolido pelas demandas domésticas e pela organização da rotina, configurando um ciclo ininterrupto de obrigações. Subtrai-se daí o tempo livre, o ócio e o lazer, dimensões vitais para que o sujeito exerça sua liberdade, cultive sua singularidade e processe suas próprias emoções”, afirmou.
Para Lisandra, o possível fim da escala representa mais do que uma mudança trabalhista: simboliza a chance de recuperar tempo e qualidade de vida.
“O fim da escala 6×1 representa uma vitória, um marco histórico e a esperança de ter tempo, da oportunidade de estar na festa escolar do filho ou de ter um dia livre para cuidar de si mesmo, a oportunidade de respirar e se sentir mais que uma máquina projetada para o trabalho”, declarou.
Proxímos passos
O Senado deu o primeiro passo para debater a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) sobre o fim da escala 6×1, aprovada na quarta-feira, 27, na Câmara dos Deputados.
A Casa Alta indicou que fará uma sessão temática para debater os possíveis impactos sociais e econômicos da PEC 221/2019. O requerimento foi aprovado em Plenário ontem. A data da sessão ainda será marcada pela Mesa Diretora do Senado.



