Por muito tempo, existir foi tratado como algo simples: nascer, crescer, ocupar espaços e construir uma vida em sociedade. Entretanto, para uma parte da população, o ato de existir nunca foi tão simples assim. Para pessoas transgênero, transexuais e travestis, o cotidiano é atravessado por censuras, violências e exclusão. Atualmente, a sociedade persiste em transformar identidade de gênero em motivo de rejeição e o direito de viver se torna um desafio diário para essas pessoas.
Ao longo da história, pessoas que fogem dos padrões de gênero impostos socialmente, foram silenciadas, marginalizadas e apagadas da sociedade. A construção dos conceitos de masculinidade e feminilidade na coletividade criou o pensamento de que tudo que foge do “normal” passa a ser visto como ameaça. Por isso, a transexualidade foi transformada em alvo de ataques constantes.
A partir da década de 90 ocorreram avanços significativos a âmbito nacional. O direito ao uso do nome social, a lei regulamentada pelo Decreto nº 8.727/2016, se estendeu aambientes públicos, como escolas, universidades, hospitais e demais serviços. Em teoria, facilita o cotidiano de pessoas trans ao garantir que seu nome social seja respeitado e a possibilidade de retificação de documentos sem a necessidade de transição.
Além disso, na Lei 14.382/ 2022 foi alterado o artigo 56 da Lei de Registros Públicos para permitir que qualquer pessoa maior de idade, a qualquer tempo, requeira a mudança do prenome, independentemente de justificativa e de autorização judicial direito que antes, em regra, só podia ser exercido no prazo de um ano após a maioridade. O cotidiano mostra diariamente que o preconceito enraizado define quem pode ou não ocupar determinados espaços. As leis garantem os direitos, mas à sociedade os nega.
Nos espaços públicos, a exclusão se revela ainda mais diante dos nossos olhos. Lugares como salas de aulas, hospitais, mercados, transportes públicos ou banheiros se tornam ambientes de constrangimento e violência. O que para muitos é rotina, para a comunidade trans é uma exposição frequente ao julgamento, violência, e humilhação.
Os desafios impostos à comunidade trans são numerosos e refletem em diferentes esferas na sociedade. Um exemplo são os altos índices de evasão escolar, que segundo pesquisa realizada pela Rede Nacional de Pessoas Trans do Brasil, 82% das pessoas trans abandonam o Ensino Médio entre os 14 e os 18 anos. Os dados da Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra), de 2022, são ainda mais reveladores. A pesquisa mostra que cerca de 70% das pessoas trans e travestis não concluíram o Ensino Médio e apenas 0,02% dessa população teve acesso ao ensino superior. Além disso, os quadros de retração social devido aos meios hostis, compromete possibilidades de acesso ao mercado formal ou que não tenham preparo para processos seletivos com provas, entrevistas e dinâmicas.
Essa exclusão reflete visivelmente na ascensão profissional de pessoas trans que raramente ocupam cargos altos ou posições de liderança no mercado de trabalho. Os dados apontam que só 0,3% das pessoas trans empregadas formalmente estão em cargos executivos no Brasil, evidenciando o preconceito estrutural que limita oportunidades de crescimento profissional, já 25% possuem emprego formal. Enquanto isso, grande parte possui funções operacionais, com salários inferiores e pouca possibilidade de alcançar cargos de liderança.
No nosso país, essa realidade se agrava por um dado doloroso. Pelo 18° ano consecutivo, o Brasil liderou o ranking de homicídios concentrados entre mulheres jovens, negras e em situação de vulnerabilidade social. Isso revela que a transfobia não é um problema isolado ou individual. Ele é estrutural, que atravessa gerações e insiste em limitar quem merece ser reconhecido como cidadão.
Erika Hilton e Duda Salabert são pessoas que resistem a uma sociedade opressora e ocupam espaços historicamente negados. As trajetórias delas mostram que a presença em lugares de destaque devem ser inegociáveis e a não ocupação, não é exceção por incapacidade coletiva, mas pela violência de um sistema historicamente elitizado que tentou severamente impedir a ascensão da comunidade trans.
No cinema e através das telas essa realidade pode também ser evidenciada. Na trama “Uma Mulher Fantástica”, lançado em 2017, dirigido por Sebastián Lelio, uma obra que conquistou um Oscar de Melhor Filme Estrangeiro é retratada a trajetória de uma mulher transgênero que luta pela aceitação de sua identidade durante momentos de dor e vulnerabilidade. Essa realidade também é mostrada no filme “Alice Júnior”, lançado em 2019 e dirigido por Gil Baroni, mostra a vivência de uma adolescente trans no Brasil expõe diversas vertentes na luta contra a transfobia, atravessando escolas, famílias e demais espaços públicos. E na arte brasileira existem referências excepcionais, como Liniker, a primeira artista trans a vencer um Grammy Latino em 2022, e que em 2025 conquistou mais três prêmios na mesma categoria. Há também Linn da Quebrada destaque nas dramaturgias brasileiras e Urias que está em grande ascensão na cultura pop do Brasil. Essas dentre tantas, são algumas personalidades que atuam com força proporcionada pela cultura, lutando na ruptura dos preconceitos e provando que a potência trans também reivindica e transforma os palcos em um lugar de resistência. A arte, nesse caso, não inventa o problema, ela apenas reflete tudo aquilo que a sociedade insiste em ignorar.
Em síntese, a discussão trata-se de justiça, mas esse assunto permanece desconfortável para a população. Pessoas trans não pedem privilégios, mas pedem por direitos básicos, como estudar sem receio, saúde, trabalhar sem humilhações, rejeições e andar na rua sem serem violentadas para que possam existir sem que sua identidade seja descartada.
Quando a identidade vira barreira, o direito de existir se torna obstáculo para essa comunidade. O problema nunca esteve neles, mas sim na sociedade discrepante que decide quem deve ser “normal” ou jogado de um penhasco.
No fim o questionamento que fica é: A transexualidade será eternamente refém de julgamentos sociais? Até onde e quando eles deverão se encaixar em um padrão para que possam ser pessoas humanas, vivas e vistas perante a violência do sistema elitizado contemporâneo?
Por: Paula Cristina Silva de Jesus – Estudante do 1º período em Jornalismo em Multimeios (UNEB)



