Basta o calendário eleitoral se aproximar para um fenômeno curioso, e repetido, tomar conta das ruas, das feiras, das festas populares, celebrações religiosas (não importa a denominação) e até das salas mais simples das casas: os políticos aparecem. Como por encanto, eles saem de suas tocas, abandonam o conforto de seus gabinetes e de suas rotinas distantes do coletivo e passam a ocupar todos os espaços possíveis. Estão em todos os lugares. Sorridentes, acessíveis, próximos. Ou, ao menos, assim parecem.
Uma época mágica do calendário político em que tudo floresce, principalmente as promessas e soluções fáceis para problemas que somente neste período eles passam a enxergar. Eles são mestres em alimentar a velha ilusão coletiva e passam a frequentar lugares onde, curiosamente, passaram anos sem dar as caras ou sequer conheciam.
Neste final de semana, a tradicional Festa dos Colonos, em Maniçoba, distrito de Juazeiro, foi mais um palco dessa encenação já conhecida. O que se viu foi uma disputa não apenas por votos, mas por visibilidade. Holofotes, apertos de mão, promessas fáceis e críticas afiadas aos adversários. Cada candidato tentando parecer mais presente, mais popular, mais comprometido. E o povo, sem perceber que está sendo feito de besta, aplaude, briga por uma foto ao lado e esquece a ausência deles no dia a dia das comunidades.
É nesse período que muitos políticos se tornam especialistas em gestos que ganham o eleitor. O tapinha nas costas, o prato de buchada na casa de Dona Maria, o cafezinho na casa de seu João, a presença na roda de São Gonçalo, nos desfiles de vaqueiros, onde, encourados, e na maior cara de pau, forçam a barra para parecer ser um deles. Tudo cuidadosamente calculado para criar uma sensação de proximidade, de humildade, que, na prática, raramente se sustenta após o fim das eleições.
A Festa dos Colonos foi o retrato perfeito desse teatro já conhecido. Um desfile de figuras disputando espaço não pela qualidade das ideias, mas pela intensidade do aperto de mão, pelo sorriso mais ensaiado, pela promessa mais fácil de engolir. Uma competição silenciosa de quem performa melhor.
O pré-candidato da direita ao governo da Bahia, moço da capital, deixou o litoral para comer poeira no sertão. Ao lado dele, seus apoiadores, candidatos, lideranças que querem demonstrar poder e força.
Depois de vir à Juazeiro por 19 vezes em um ano e 6 meses, o governador e pré-candidato à reeleição, levou falta. Sabe-se lá porque não aproveitou o evento para também disputar atenção do eleitor.
Os postulantes a cargos públicos circularam pela festa e garantiram seus espetos. De repente, todos valorizam a cultura local, todos se dizem amigos do povo, todos têm soluções. Todos também têm culpados, de preferência, os adversários. É um espetáculo completo: crítica aqui, promessa ali, e nenhuma responsabilidade em lugar algum.
E o mais impressionante não é nem o comportamento dos candidatos. Afinal, eles fazem exatamente o que sempre fizeram. O mais desconcertante é a plateia. Gente que puxa saco, que aplaude, que se deixa envolver por esse roteiro repetido como se fosse novidade. Gente que ri, que posa pra foto, que acredita ou finge acreditar.
E é aqui que começa a reflexão mais incômoda: a corrupção na política não nasce apenas nos gabinetes ou nos escândalos que ganham manchetes. Ela começa, muitas vezes, nesse próprio período eleitoral. Começa quando o voto vira moeda de troca. Quando apoio político é negociado como mercadoria. Quando lideranças comunitárias se vendem por cargos, favores ou migalhas de poder. Começa quando o eleitor troca consciência por conveniência. Começa quando ataques substituem propostas. Mas, sobretudo, começa quando o eleitor aceita esse jogo.
Quando votos são trocados por favores, cargos ou benefícios imediatos, o processo já nasce comprometido e corrompido. Quando lideranças comunitárias negociam apoio em troca de vantagens, a política deixa de ser coletiva para se tornar um mercado. E quando o eleitor não pesquisa, não questiona, não analisa a trajetória e os feitos de quem se apresenta como candidato, abre-se espaço para a repetição de um ciclo antigo: o da ilusão seguida de frustração.
É duro dizer, mas necessário: o eleitor também é responsável pela corrupção na política. A ideia de que “todo político é igual” muitas vezes serve de desculpa para a falta de critério na escolha. E assim, eleição após eleição, os mesmos comportamentos se repetem, como se a memória coletiva fosse sempre curta.
A política brasileira não é suja por acaso. Ela reflete, em grande medida, as escolhas que fazemos ou deixamos de fazer. Reclamar depois do resultado é fácil. Difícil é assumir o compromisso antes: investigar, comparar, questionar, cobrar coerência.
Mais do que nunca, é preciso transformar o voto em um ato consciente, e não em um reflexo emocional ou interesseiro. Porque, no fim das contas, não são apenas os políticos que moldam a política, são também os eleitores que decidem quem merece ocupá-la.
E talvez a pergunta mais importante não seja “onde estavam esses políticos antes?”, mas sim: “onde estava o nosso senso crítico?”
E depois? Depois vem o silêncio. Os mesmos que estavam em todos os lugares desaparecem. As promessas evaporam. Os abraços esfriam. E o eleitor, mais uma vez, reclama, como se não tivesse participado ativamente da construção desse resultado.
É confortável culpar “os políticos”. Difícil é admitir que esse ciclo só se sustenta porque encontra terreno fértil. Porque há quem aceite, quem normalize, quem repita. Porque, no fundo, muitos ainda preferem o tapinha nas costas à verdade, a promessa vazia ao compromisso real.
A política brasileira não é um acidente. Ela é um reflexo. E enquanto a memória do eleitor continuar sendo tratada como descartável e, pior, enquanto ele permitir isso, a cena não muda. Só trocam os personagens, mas o roteiro é o mesmo.
A Festa dos Colonos terminou. Os palcos foram desmontados. Mas o espetáculo político continuará até outubro e, pelo visto, com plateia garantida.
A pergunta que fica não é se eles vão mudar. É se nós vamos.
Por Sibelle Fonseca/ Imagem IA



