A nova moda que tomou conta das redes sociais, principalmente entre crianças e adolescentes, resume bem o momento que a gente vive. Aparecer a todo custo, ainda que se expondo ao ridículo, “pagando mico” em eventos sem propósito, só para postar, entrar na onda e engajar.
Em Juazeiro, já está agendada uma competição do tipo, segundo uma mãe de adolescente que nos procurou para relatar sua preocupação com a tendência: “Meu filho pediu para ir a um evento desses que já estão divulgando na internet para acontecer na orla da cidade. Perguntei o que teria lá e ele disse: ‘não sei, mãe, mas todo mundo vai’. Eu fiquei preocupada”, contou uma mãe à nossa reportagem.
E talvez a preocupação faça mesmo sentido, pois o que se vê é uma geração sendo empurrada para uma vitrine permanente, onde vale mais a imagem do que a experiência.
Não importa mais aprender, estudar, trocar, crescer. Importa postar. Importa mostrar que estava lá, mesmo que este “lá” não signifique absolutamente nada além de um grande vazio de propósito. E é justamente esse vazio que preocupa. Esse vazio tem adoecido a juventude.
Mas essa conta não é só dos jovens. Tem muito pai, muita mãe e até educador fazendo vista grossa, ou até incentivando esse tipo de comportamento, como se fosse inofensivo. Não é.
As redes sociais trouxeram avanços, conectaram pessoas, abriram portas. Mas também escancararam uma perda de senso crítico. Parece que o ridículo deixou de ser limite. Tudo vale por alguns segundos de atenção.
No fim, “farmar aura” não é só uma moda bizarra. É um retrato de uma geração que está sendo ensinada a viver de aparência e de uma sociedade que, muitas vezes, está aplaudindo a imbecilidade de camarote.
E é justamente aí que mora o problema.
A chamada “aura”, nesse contexto, não passa de uma forma inflada por curtidas, visualizações e validação efêmera. Jovens estão sendo conduzidos a acreditar que pertencimento se compra com exposição, que identidade se constrói com filtros, que relevância se mede em engajamento.
“Todo mundo vai”, “Vou para ganhar engajamento”, “Meus amigos vão”, argumentam os interessados em aparecer nesses lugares.
Mas aparecer para quê? Mostrar o quê?
Lembro da minha adolescência quando eu dizia a minha mãe: “Todo mundo faz, todo mundo vai”. De pronto e sabiamente ela respondia: “Você não é todo mundo”, uma lição que trouxe para a vida. Assim eu também aprendi a lidar com as frustrações, coisa que a nova geração não tem conseguido.
“Cresça e apareça” era também uma valiosa orientação dos meus pais. Crescer com os livros, com o conhecimento, com vivências produtivas, ainda que negativas.
Mas isso está fora de moda. O que vale hoje em dia é aparecer não importa como.
Vamos combinar que eventos para “farmar aura” não estimulam cultura ou conhecimento, não formam consciência crítica, somente atraem jovens em busca de pertencimento instantâneo. Uma geração que, em vez de viver experiências significativas, é incentivada a encenar qualquer coisa para ganhar likes.
A manipulação dos jovens não é uma responsabilidade exclusiva deles.
Há uma permissividade preocupante por parte de muitos pais e responsáveis, que não apenas aceitam, sem qualquer orientação, e muitas vezes até incentivam esse comportamento, seja por desconhecimento, seja por conivência com a lógica das redes. Educadores também enfrentam o desafio de competir com um universo digital que valoriza o imediato, o raso, o descartável.
O que estamos assistindo é mais do que uma moda. É a normalização do vazio como estilo de vida. Da imbecilidade.
“Farmar aura”, no fim das contas, é isso: tentar preencher com imagem um espaço que deveria ser ocupado por essência.
E talvez a pergunta mais urgente não seja “o que é farmar aura?”, mas sim: que legado estamos deixando para as futuras gerações? Não venham me dizer que isso é coisa de adolescente mesmo. Não é não. Outrora, a juventude era protagonista de movimentos revolucionários. Era vanguardista, criativa, engajada (noutro sentido).
Ando assombrada com o rumo que o mundo tem tomado. Aliás, assombrada com a falta de rumo.
“Os idiotas vão tomar conta do mundo; não pela capacidade, mas pela quantidade. Eles são muitos”, já antevia Nelson Rodrigues. Parece que ele estava certo!
Por Sibelle Fonseca/ Imagem IA



