“Cadê o Carrancão?”: escultor e dono da obra responde sobre destino da escultura que ficava na orla II de Juazeiro

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Após o questionamento do morador de Juazeiro, Emerson Rocha, sobre o paradeiro da carranca gigante que ficava na orla II da cidade, obtivemos uma resposta do escultor da obra, o artesão Flávio Mota.

Em um áudio obtido por nossa redação, o artesão afirma que a obra, com cerca de 5,2 metros, considerada a maior do mundo, é de sua propriedade e ele retirou do local para restauração.

“A carranca é minha. Ela tem história. Foi um símbolo da primeira conferência do Meio Ambiente, que teve no Brasil, em 2003. É dedicada ao velho Chico. Eu sou o escultor que fiz aquela carranca e carrego ela comigo há 23 anos. Foi feito em 2001, 2002. Estava na Casa do Artesão para fortalecer a casa, mas com o trabalho da casa foi desfeito, eu tirei para restaurar. Estou restaurando ela, que está guardada em um depósito de Petrolina. Daqui mais alguns dias vou ver com as prefeituras para saber onde irei colocar ela, se em Juazeiro ou Petrolina. Vamos primeiro restaurar, fazer a peça original, bonita para representar a cultura do Velho Chico, da carranca, que defendia os barcos e que tem toda a mitologia em cima dela”.

De acordo com informações, o poder público, em Juazeiro, nunca comprou a carranca, apesar da obra ser vista por muitos moradores como um patrimônio cultural da cidade.

De acordo com um relato de uma pessoa próxima ao artesão, na ocasião da montagem da Feira Literária, que aconteceu no mês de julho, a obra foi retirada do espaço onde esteve instalada durante anos.

“Ele achou desrespeitoso com a carranca que ficou escondida em um canto quando foram montar a Jua Literária. Como é dele, pois a prefeitura nunca adquiriu para o município, ele pegou a carranca e levou para uma fazenda em Petrolina para reformar e tentar vender para a prefeitura de lá, para Juazeiro ou para quem queira adquirir a carranca. Essa carranca já esteve em Salvador, onde inclusive foi incendiada por um grupo de evangélicos. Um pessoal de um terreiro viu a carranca pegando fogo, apagou o fogo, e procurou ele para devolver a obra. Ele reformou e trouxe para Juazeiro”.

“Cadê o carrancão”, perguntou um menino de 3 anos”

Do alto dos seus cinco metros, o Carrancão via o movimento acontecer na Orla de Juazeiro. Vizinho da Casa do Artesão, e foi testemunha de feiras e eventos. Foi o único juazeirense a ver os últimos instantes da banca e o nascimento do suntuoso viaduto. O Carrancão estava ali.

Esculpido pelo mestre carranqueiro Flávio Mota, entre 2001 e 2002, o Carrancão virou um dos símbolos de Juazeiro. A maior carranca do mundo estava ali, chamando a atenção dos conterrâneos juazeirenses, dos vizinhos de Petrolina e do mundo de gente que costuma passar por nossa cidade.

Quando completou 20 anos, o Carrancão foi emprestado para o Salão de Turismo, realizado na orla de Petrolina. O que era para ser uma visita de cortesia, terminou virando uma operação de resgate digna de filmes hollywoodianos, já que os vizinhos do outro lado do rio esqueceram que a obra é de Juazeiro e que os juazeirenses não gostam de deixar os seus para trás.

Com direito a guincho, desfile pela ponte Presidente Dutra e um “herói” com mandato estadual, o Carrancão voltou a ficar ali, vendo a vida acontecer no centro de Juazeiro, ao lado da Casa do Artesão.

Embora seja feita com traços capazes de assustar, a maior carranca do mundo tem o poder de atrair. E foi uma criança de 3 anos que motivou a escrita deste texto.

Visitante assíduo da Orla, sempre pedia para ver o amigo Carrancão. Quando passava de carro, se estirava na cadeirinha para ver a escultura gigante, sempre com um cumprimento digno da inocência das crianças: “ Bom dia, seu Carrancão”, “Oi, seu Carrancão”. O sorriso do amigo de madeira era a resposta que ele sempre tinha.

O Carrancão sempre esteve ali. Ele viu o paredão azul da orla cair, ligando a área do vaporzinho e a Casa do Artesão. A intervenção municipal, diga-se de passagem, muito bem apropriada, abriu caminho para estrutura da Juá Literária, um dos maiores acertos da prefeitura.

A Juá Literária reuniu crianças,livros e cultura, dando um astral novo para Juazeiro e enchendo de orgulho seus moradores. Só que o Carrancão não estava mais lá. Em uma área tão grande, os organizadores não encontraram espaço para um dos maiores símbolos culturais da cidade.

A Feira acabou, as crianças voltaram para casa com seus livros novos, Adriana Calcanhotto, Oswaldo Montenegro, os escritores e todos que vieram de fora para dividir o mesmo ar que a gente souberam por alguns instantes o poder cultural que só Juazeiro tem. O que eles não puderam sentir foi a presença da carranca gigante.

Com toda a estrutura da Juá Literária desmontada, o menino de 3 anos passou a questionar os pais onde o amigo Carrancão estava. “Mamãe, o Carrancão foi para a Univasf?”. “Ele está onde”?” “Que dia o Carrancão volta para a Casa do Artesão?”.

As dúvidas do menino de 3 anos também são dos adultos que aprenderam a valorizar os símbolos que ajudaram a construir a identidade cultural de Juazeiro. É importante a prefeitura responder a essa pergunta simples, mas cheia de significados: Cadê o Carrancão?

Por Emerson Rocha, cidadão de Juazeiro  

Redação PNB

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