Após lançamento do edital do Festival de Teatro Wellington Monteclaro, diretor teatral faz sugestões e pede sensibilidade à gestão municipal

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O anúncio da retomada do Festival de Teatro Wellington Monteclaro, em Juazeiro, deveria ser motivo de comemoração para quem vive e acredita no teatro. Depois de anos sem acontecer, a retomada do festival representa uma oportunidade importante para recolocar as artes cênicas no centro da agenda cultural do município e promover o intercâmbio entre artistas de diferentes regiões do país.

É justamente por acreditar na importância dessa retomada que faço algumas sugestões à gestão municipal. O objetivo não é desqualificar a iniciativa, mas contribuir para que ela cumpra aquilo que deveria ser sua principal missão: fortalecer o teatro e os grupos teatrais.

O edital prevê a seleção de dez espetáculos — quatro de Juazeiro, três de outras cidades da Bahia e três de outros estados brasileiros. Entretanto, dos R$ 45 mil destinados à premiação, somente os três primeiros colocados receberão recursos financeiros: R$ 20 mil para o primeiro lugar, R$ 15 mil para o segundo e R$ 10 mil para o terceiro. Os demais receberão apenas a oportunidade de participar da programação e concorrer aos troféus.

É nesse ponto que acredito que precisamos parar e refletir.

Fazer teatro é caro. Um espetáculo não nasce apenas da vontade de um diretor ou da disposição dos atores. Existe ensaio, figurino, cenário, iluminação, sonoplastia, transporte, produção, divulgação, alimentação e uma série de outros custos. Quando falamos de grupos que precisam viajar, a conta fica ainda maior.

O próprio edital estabelece que a Prefeitura não será responsável por transporte, alimentação ou hospedagem dos grupos participantes. Também determina que cada grupo arque com o transporte de seus cenários, equipamentos e integrantes.

Portanto, para um grupo de outro estado, participar do Festival Nacional de Teatro Wellington Monteclaro significa fazer um investimento considerável sem qualquer garantia de retorno financeiro. O grupo pode deslocar atores, técnicos e produção, pagar transporte, hospedagem e alimentação e, ao final, voltar para casa sem receber qualquer recurso.

E isso também vale para os grupos de Juazeiro.

Uma competição nacional precisa considerar realidades diferentes

Quando o festival retoma suas atividades com uma proposta de abrangência nacional, a concorrência naturalmente se torna muito mais forte. E precisamos ter sensibilidade para compreender as diferenças estruturais existentes entre os grupos.

Como um espetáculo produzido em Juazeiro, muitas vezes com recursos extremamente limitados, irá competir nas mesmas condições com uma produção de Salvador ou de grandes centros brasileiros?

Não estou dizendo que um grupo de Juazeiro não tenha qualidade. Muito pelo contrário. Temos artistas talentosos, diretores, atores e técnicos capazes de produzir trabalhos de excelência. O que precisamos reconhecer é que talento e estrutura são coisas diferentes.

Um grupo pode ter um excelente espetáculo e, ainda assim, não possuir recursos para investir na produção, no cenário, no figurino, na iluminação ou na circulação na mesma proporção que companhias de centros onde existe uma cadeia profissional de teatro muito mais consolidada.

Por isso, um festival realizado com recursos públicos deveria funcionar também como instrumento de equilíbrio e incentivo, e não apenas como uma competição.

Por que não dividir os recursos entre os dez grupos?

Minha sugestão à gestão municipal é simples: que os recursos destinados ao festival possam contemplar os dez espetáculos selecionados, garantindo a cada grupo um subsídio pela participação.

Os R$ 45 mil previstos no edital poderiam, por exemplo, ser distribuídos entre os dez grupos selecionados, garantindo um valor mínimo para que cada companhia pudesse custear parte de sua participação.

Os prêmios principais poderiam permanecer como reconhecimento artístico, por meio dos troféus de Melhor Espetáculo, Melhor Direção, Melhor Ator e Melhor Atriz.

Assim, o festival continuaria premiando os destaques, mas também apoiaria todos aqueles que aceitaram o desafio de colocar seus espetáculos no palco.

Não se trata de acabar com a competição. Trata-se de compreender que, antes de competir, esses grupos estão contribuindo para a realização do próprio festival.

Os dez espetáculos selecionados são justamente aqueles que irão compor a programação, movimentar o Centro de Cultura João Gilberto, trazer público, artistas e produção para a cidade e ajudar a construir a retomada do evento.

A retomada deveria deixar um legado

O teatro de Juazeiro precisa de incentivo. Depois de anos sem a realização do Festival Wellington Monteclaro, sua retomada poderia representar muito mais do que simplesmente uma semana de apresentações.

Precisamos aproveitar esse momento para reanimar o setor teatral da cidade.

O edital estabelece entre seus próprios objetivos “fortalecer a criação, produção artística e a integração entre os grupos teatrais”, além de “reconhecer e premiar trajetórias e espetáculos” e apoiar grupos artísticos e coletivos na manutenção de seus espetáculos.

É justamente por isso que acredito que a distribuição dos recursos entre os participantes estaria mais alinhada com a finalidade anunciada pelo próprio festival.

Se queremos fortalecer o teatro, precisamos fazer com que o recurso público chegue aos grupos.

Se queremos um festival nacional, precisamos criar condições para que grupos de diferentes lugares possam participar sem assumir um risco financeiro tão grande.

E, se queremos que Juazeiro volte a ter um teatro forte, precisamos fazer com que os artistas daqui tenham condições de continuar produzindo.

O festival não pode ser apenas uma vitrine para quem vencer. Precisa ser uma ponte para que todos os grupos possam continuar existindo.

Minha sugestão, portanto, é um pedido de sensibilidade à gestão municipal: olhem para os dez grupos selecionados não apenas como concorrentes, mas como parceiros na retomada do Festival Wellington Monteclaro.

Que essa retomada seja lembrada não apenas pelos vencedores, mas por ter sido o momento em que Juazeiro decidiu novamente olhar para o teatro, fortalecer seus artistas e reconstruir um espaço importante para as artes cênicas.

Porque, neste momento, mais do que troféus, o teatro precisa de incentivo para continuar de pé.

Por Elder Ferrari – diretor teatral

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