Ataques, ilações, devaneios e pobreza de propostas para o Brasil: Depois das sabatinas, onde estão os projetos? Por Sibelle Fonseca

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Terminou no último sábado (29) a série de entrevistas da Rede Globo, no Jornal Nacional,  com os principais candidatos à Presidência da República. Se havia uma expectativa de que aquelas sabatinas servissem para apresentar ao eleitor os projetos de país de cada candidato, o saldo, para mim, foi decepcionante.

E não sou apenas eu que estou dizendo isso. Análises de cientistas políticos que acompanhei, depois da série, apontaram justamente o que ficou evidente para quem assistiu: candidatos nervosos, generalidades, respostas evasivas, contradições e pouca ou nenhuma clareza sobre propostas concretas. Pela repercussão nas redes sociais não houve um vencedor absoluto e a grande maioria dos eleitores indecisos continuou indecisa depois das entrevistas.

E esse é um dado que leva a reflexão, pois uma eleição presidencial não deveria ser uma disputa de quem produz a melhor frase de efeito, mas daquele que apresenta projetos para o país e mostra como viabilizá-los.

Comecemos por Romeu Zema.

O candidato do Novo tentou vender a experiência administrativa de Minas Gerais como cartão de visitas. Mas, quando confrontado com números e resultados, tropeçou feio. A checagem identificou erros e exageros em declarações sobre segurança pública, feminicídio e dívida do Estado. Ou seja, administrar um Estado e apresentar números favoráveis não basta. Para quem quer governar um país continental, é preciso explicar como fará, quanto custará, quem será beneficiado e quem pagará a conta.

Ronaldo Caiado veio depois e conseguiu ser pior.

Falou muito de segurança, facções, anistia e combate ao crime, mas quando chegou a hora de detalhar política econômica, ajuste fiscal e aposentadorias, faltou argumento. A checagem apontou erros, uso de dados fora de contexto e exagero na comparação entre a anulação das condenações de Lula e uma eventual anistia aos condenados pelos ataques de 8 de janeiro.

É muito fácil dizer “vamos acabar com o crime”. Difícil é explicar como. Quanto vai custar?Qual será a política para as polícias? E para o sistema prisional? E para a prevenção? E para a juventude? E para as mulheres vítimas de violência?

Governar não é fazer discurso de palanque. Governar é transformar discurso em política pública.

Depois veio Renan Santos. Agressivo, agitado, falando para o senso comum, defendeu que o Brasil desenvolva armas nucleares e afirmou que poderia desobedecer decisões do Supremo Tribunal Federal que considerasse ilegais.

Ressalto que uma coisa é ser inexperiente. Outra é apresentar ideias que colocam em xeque princípios básicos do Estado democrático de Direito.

Renan também errou ao falar sobre instrumentos legais para manter integrantes de facções presos e sobre políticas públicas de combate ao feminicídio e às mudanças climáticas.

É preciso perguntar ao eleitor: que democracia estamos escolhendo quando alguém promete para si mesmo o direito de decidir quais decisões da Justiça vai cumprir?

E então chegou Lula e aqui eu faço uma distinção. Lula tem uma história política, tem experiência de governo e tinha muito mais condições de apresentar realizações e propostas concretas do que vários dos adversários. Mas também não saiu ileso.

Foi pressionado sobre investigações envolvendo pessoas próximas a ele e teve um momento especialmente ruim ao negar ter estado com a lobista Roberta Luchsinger, afirmação posteriormente contrariada por registros fotográficos. Também cometeu erros ao falar sobre o crescimento do PIB e exagerou ao dizer que acabou com a fome no país, embora tenha tirado o Brasil do Mapa da Fome, quando assumiu o governo.

E aqui é preciso ter honestidade, inclusive sendo do campo da esquerda. Não existe eleitorado progressista que precise transformar Lula em alguém infalível. Lula pode e deve ser cobrado. Pode e deve ser confrontado.

Mas há uma diferença importante entre cobrar explicações sobre fatos e transformar quase metade do tempo de uma entrevista presidencial em uma sucessão de perguntas sobre investigações, suspeitas e pessoas ligadas ao candidato, deixando menos espaço para discutir o Brasil que será governado.

O eleitor precisava ouvir mais sobre educação, saúde, emprego, salário, desigualdade, habitação, meio ambiente, segurança pública, ciência, tecnologia, infraestrutura.

E aí chegamos a Flávio Bolsonaro.

Talvez tenha sido o momento em que a distância entre retórica e realidade ficou mais evidente.

Flávio falou em ajuste fiscal, redução de despesas e responsabilidade econômica. Mas, diante de perguntas sobre o Banco Master e outros assuntos espinhosos, demonstrou insegurança, repetiu clichês no lugar de dar respostas mais concretas sobre políticas públicas. E a checagem registrou erros, desinformação e exageros sobre Pix, aquecimento global, Banco Master e outros temas.

E isso nos leva a uma pergunta que precisa ser feita sem medo: onde estão os projetos?Porque dizer que vai cortar gastos é fácil. Quais gastos? Quanto? De onde? qual política será reduzida e qual será preservada? E, principalmente: quem vai pagar essa conta?

Quando um candidato promete cortar despesas, o eleitor precisa perguntar: despesas de quem? Da elite? Dos bancos? Das grandes empresas e fortunas? Ou da saúde, da educação, das universidades, da assistência social, dos trabalhadores?

Por fim, chega o Augusto Cury. E aqui tivemos talvez o exemplo mais curioso dessa eleição: muita inspiração, muita mensagem motivacional, muita tentativa de transformar a política em uma espécie de consultório de autoajuda e algumas propostas bastante inusitadas, como a ideia de drones para combater o feminicídio.

Lembremos que uma sabatina com candidatos à presidência da república não é palestra motivacional. O Brasil não precisa apenas de alguém que diga para o cidadão acreditar, pensar otimista, ter inteligência emocional e financeira, repetir mantras, que tudo acontecerá como um passe de mágica.

Precisa de alguém que explique muito bem, sem mentiras e divagações, como vai governar.

E esse foi, para mim, o grande problema dessas entrevistas. Não foi apenas a performance dos candidatos. Foi a pobreza do debate.

Em vez de discutirmos profundamente qual modelo de Estado cada um defende, ficamos presos a escândalos, ataques, frases de efeito, acusações, passado, redes sociais e disputas de narrativa.

Investigar e questionar candidatos é papel fundamental do jornalismo. Pergunta difícil não é problema. O problema é quando a pergunta difícil ocupa o espaço que deveria ser usado para obrigar o candidato a explicar o futuro. Porque o eleitor não vai escolher um candidato para administrar o passado. Vai escolher alguém para administrar o futuro.

E é aí que entra a responsabilidade de cada um de nós, eleitoras e eleitores.

Não vote porque alguém fala bonito, ou grita mais alto. Não vote porque alguém diz que é “contra tudo isso que está aí” e se apresenta como “novo”. Não vote porque alguém usa Deus, a pátria, a família ou o medo como argumento eleitoral.

Fica a dica: Pergunte, pesquise, compare, cheque os números. Procure saber o que esse candidato já fez e faz na vida, o que fez quando teve poder. Veja quem está financiando sua campanha, quem são seus aliados. Leia o programa de governo.

E, principalmente, analise como ele pretende fazer aquilo que está prometendo?

Porque prometer segurança sem explicar política de segurança é fácil. Prometer emprego sem explicar política econômica é fácil. Prometer saúde sem dizer de onde virá o dinheiro também é fácil. Prometer educação sem falar em investimento, valorização dos professores, infraestrutura e permanência dos estudantes é fácil. Prometer combater a pobreza sem discutir a desigualdade social é fácil.

Governar não é fácil. E é justamente por isso que o eleitor precisa ser muito mais exigente.

Estamos diante de uma eleição que promete ser uma das mais polarizadas e disputadas dos últimos anos. As pesquisas mais recentes mostram Lula e Flávio Bolsonaro na dianteira, enquanto outros nomes tentam ocupar espaço no segundo pelotão.

Mas pesquisa não escolhe presidente. Quem escolhe é o eleitor. E eleição não é torcida organizada, não é campeonato de futebol. Não é escolher o candidato que nos representa emocionalmente. Afinal, vamos entregar a alguém a chave de um país. Um cheque em branco.

Um país com milhões de pessoas dependendo do SUS, dependendo da escola pública, precisando de emprego, renda, moradia e comida na mesa. Um país que precisa enfrentar a violência sem abrir mão dos direitos humanos e precisa crescer sem destruir o meio ambiente. Que precisa reduzir desigualdades sem abandonar a responsabilidade fiscal. Que precisa defender a democracia justamente quando aparecem candidatos flertando com a ideia de desobedecer instituições.

Por isso, depois dessas entrevistas, a minha conclusão não é que um candidato ganhou e outro perdeu. Concluo com a sensação de que o eleitor precisa ganhar autonomia e votar com responsabilidade e critérios. Precisa parar de terceirizar sua consciência política para o algoritmo, para o influenciador, para o pastor, para o padre, para o grupo de WhatsApp, para o cabo eleitoral.

Os eleitores e eleitoras precisam fazer a pergunta mais simples e mais poderosa de uma eleição: O que esse candidato vai fazer com o poder que eu estou prestes a entregar a ele, pois o voto é pequeno na hora de apertar a urna. Em alguns segundos se faz isso. A questão é o poder que entregamos aos nossos representantes e que terá impacto direto nas nossas vidas.

Mais do que escolher um nome, precisamos escolher um projeto de país com seriedade. Por isso, menos idolatria, menos mentira, menos ilação.

E muito mais informação de verdade, proposta, responsabilidade e consciência.

Democracia não é apenas o direito de votar e ser votado. É também o direito e o dever de escolher bem aqueles e aquelas que irão nos representar nas esferas do poder.

Por Sibelle Fonseca

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