Moradores denunciam supostas torturas e agressões em ações da PM na região de Irecê; Corregedoria apura os casos

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Moradores da região de Irecê, no centro-norte da Bahia, procuraram o Portal Preto no Branco para denunciar supostos abusos cometidos por policiais militares durante ações realizadas na localidade. Os relatos incluem invasões de residências, agressões físicas e psicológicas, ameaças, tortura e retirada de moradores de suas casas.

Entre os denunciantes estão quatro moradores que afirmam ter sido abordados durante uma operação realizada em 12 de junho de 2026, na zona rural do município de Canarana. Os relatos foram encaminhados ao PNB em vídeos e também integram representações apresentadas à Corregedoria-Geral da Polícia Militar da Bahia.

Os denunciantes atribuem as ações, principalmente, a policiais da RONDESP Meio Norte e da CIPE-Semiárido.

Um dos moradores que afirma ter sido abordado contou que estava em sua residência, no povoado de Capivara, quando policiais chegaram ao local. Segundo ele, após negar que tivesse conhecimento sobre uma arma, teria sido agredido pelos policiais.

“A polícia chegou e entrou na minha casa. Perguntou ao meu filho onde é que eu estava e como era meu nome. Meu menino de 10 anos estava sentado no sofá, e eles chegaram armados. Uns entraram em minha casa e os outros foram para a lojinha, onde chegaram lá e me abordaram, me pedindo arma, uma pistola 9 mm, onde eu não tenho nem conhecimento. (…) Um dos policiais chegou para perto de mim, me deu uns murros no meu rosto e começou a tortura na parte de baixo, dando murros no meu estômago, na minha costela, nas minhas costas”.

O homem afirma que também teria sido colocado dentro de uma viatura e levado para outras localidades.

“Fecharam a porta da lojinha para poder fazer isso comigo. Dois ficaram comigo e o outro foi pegar o carro. Me jogaram dentro desse carro, e me levaram para o povoado de Novo Horizonte. Daí pra lá foi me torturando psicologicamente e fisicamente, me chamando de pistoleiro, falando que eu tinha patrão forte, falando que eu lavava dinheiro”.

Ele afirma que permaneceu sob poder dos PMs por várias horas e que, após retornar para casa, passou a apresentar medo e dificuldades para dormir e se alimentar.

“Estou com medo por mim, estou com medo por minha família. Não como direito, não durmo direito. Todo carro que passa na rua me assombra. Quem era para poder dar segurança ao povo está amedrontando o povo. Estão amedrontando a gente.”

Outra moradora, do povoado de Novo Horizonte, afirma que os policiais teriam entrado em imóveis de familiares e, posteriormente, em sua residência, procurando pelo pai dela. Ela afirma que os agentes mexeram em objetos da casa e pegaram seu celular, exigindo a senha para verificar o conteúdo do aparelho.

“Eles entraram em minha casa, mexeram nas coisas, pegaram meu celular, pediram para eu colocar a senha e vasculharam meu celular todo. Perguntaram qual quarto ele dormia e eu falei. Eles entraram lá, não acharam nada. (…) Falaram que eu tinha que ir com eles para mostrar a casa onde meu pai ficava. Meu filho, de 1 ano e 5 meses, estava dormindo, e eu tive que levar ele comigo. (…) Os policiais da RONDESP me falaram que me chamaram para eu poder ir com eles porque, se eu fosse com os outros policiais, eles iam me bater, iam me torturar, podiam até bater no meu filho. (…) Na estrada foram me perguntando o que meu pai fazia, com o que meu pai mexia. Eu falei que meu pai trabalhava na roça, diário, igual todo mundo trabalha lá. Mandaram eu mostrar a casa onde ele ficava. Eu mostrei. Eles desceram todos, me deixaram dentro do carro trancada, arrodearam a casa e já foram logo entrando. Deram uma pesada no portão e entraram, enquanto eu fiquei lá dentro do carro.”

A madrasta da mulher, moradora do povoado de Lagoa Clara, também afirma ter sido vítima da ação. Ela conta que os policiais chegaram à residência e perguntaram pelo marido dela.

“Perguntaram onde era o quarto do meu marido e reviraram tudo. Queriam que eu e o filho dele déssemos conta dele. Nós falamos que ele estava na roça trabalhando.
Eles já foram me batendo, batendo na minha cara e me chamando de vagabunda, de puta, de pomba suja, puxando o meu cabelo.”

Segundo ela, um policial teria feito ameaças caso fosse encontrada alguma arma no imóvel.

“E se eu procurar lá e achar alguma coisa, posso te matar?, disseram (…) O sentimento que fica é de dor, revolta e mágoa (…) Eu acho assim, que eles têm que trabalhar para defender a população. Não é para fazer uma coisa dessa não.”

Segundo o depoimento, o enteado dela, de 18 anos, também teria sido agredido durante a abordagem.

“Começaram a torturar meu enteado, que só tem 18 anos, dizendo que o menino sabia, que era ele quem tinha guardado a arma que eles estavam procurando. Começaram a bater, dando murro na cara, botaram saco na cabeça dele, pegaram um pilãozinho que eu tenho de ferro e bateram na cabeça dele. A gente escutava a zoada do ferro na cabeça do menino”.

O relato inclui ainda uma acusação de injúria racial durante a ação.

“Um policial falou assim: ‘mas pode bater que preto não fica marca não. Se fosse branco ficava todo roxo, mas preto não fica marca não, pode bater’.”

O enteado da mulher contou que precisou procurar atendimento médico posteriormente.

“Fui parar no hospital. (…) Estava com dor na parte do rosto, na cabeça. Não estava conseguindo comer direito também por causa disso aí.”

Além dos episódios registrados em Canarana, os denunciantes também apresentaram ao PNB relatos dos pais de um jovem que morreu durante uma ação policial ocorrida em 21 de dezembro de 2025, na zona rural da região de Irecê.

Segundo os familiares, o jovem estaria em um evento religioso quando foi levado pelos policiais. Segundo o pai, ele foi colocado em um veículo policial e, posteriormente, morreu durante a ocorrência.

“A polícia foi na casa dele e não encontrou ele. Arrebentaram a porta da casa, vasculharam tudo, não acharam nada. Depois foram na minha residência e de lá foram para a propriedade do sogro dele, onde pegaram a mulher dele e fizeram ela levar eles até meu filho. Ele esteva em um evento evangélico. A polícia pegou ele, botou dentro do carro, e quando chegou na frente, foi e matou meu filho. Deram quatro tiros nele.”

A família afirma ainda que o jovem teve pertences levados durante a ocorrência, entre eles relógio, dinheiro, aliança, corrente e celulares.

“Levaram os pertences dele tudo: um relógio no valor de R$ 2.500, levaram R$ 1.000 que ele tinha no bolso, aliança, corrente de prata, dois celulares. E não entregaram nada. Tudo que ele tinha, eles levaram.

Os familiares também relatam que, enquanto preparavam o velório, policiais teriam retornado à propriedade rural para realizar novas buscas.

“Três horas da tarde, nós cuidando do velório do nosso filho, eles arrombando de novo a nossa roça e procurando não sei o quê, caçando o que incriminar, que não tinha. Eles estavam tão errados que estavam caçando o que botar para cima e não tinha. Nós no velório, procurando um jeito de trazer nosso filho para enterrar aqui em Irecê, e eles lá cutucando nossa roça, arrebentando tudo. Meu filho nem arma não usava, e nem andava com droga”.

Denúncias foram levadas à Corregedoria

Os relatos apresentados ao Portal Preto no Branco também integram representações protocoladas na Corregedoria-Geral da Polícia Militar da Bahia.

Segundo os denunciantes, documentos, vídeos, imagens de câmeras de segurança e outras informações foram entregues para auxiliar na apuração.

O PNB teve acesso a uma das representações, na qual são identificadas três viaturas que, segundo os denunciantes, teriam participado da operação de 12 de junho de 2026, em Canarana.

A documentação solicita a identificação dos policiais envolvidos e a preservação de registros que possam ajudar a esclarecer as circunstâncias das abordagens.

Entre os elementos solicitados estão imagens de câmeras de segurança e câmeras corporais, registros de GPS das viaturas, ordens de missão, escalas de serviço e comunicações operacionais.

Os denunciantes também pedem proteção para as vítimas e familiares diante do temor de possíveis represálias.

Apesar de terem apresentado as representações, os responsáveis pelas denúncias afirmam que ainda não receberam informações detalhadas sobre o andamento das investigações.

Os denunciantes afirmam que a falta de informações aumentou o sentimento de insegurança entre moradores da região. Eles também questionam se medidas administrativas foram adotadas em relação aos policiais e comandantes das unidades citadas nas representações.

O Portal Preto no Branco encaminhou pedido de esclarecimentos à Polícia Militar da Bahia.

Em nota, a PMBA informou que “as denúncias mencionadas foram encaminhadas para apuração no âmbito da Corregedoria da instituição, mediante procedimento próprio, que se encontra em andamento. As circunstâncias e a eventual existência de irregularidades serão devidamente analisadas durante a apuração, com a adoção das medidas administrativas cabíveis, caso sejam constatadas condutas incompatíveis com a legislação. Em razão do caráter sigiloso do inquérito, não é possível, neste momento, fornecer informações detalhadas sobre diligências, depoimentos ou demais elementos da investigação. A PMBA reafirma seu compromisso com a apuração técnica e imparcial dos fatos, observando o devido processo legal, o contraditório e a ampla defesa”.

Redação PNB

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