Em um desses domingos de sol intenso e calor quase sem trégua, fui buscar refúgio no conforto do ar-condicionado do Juá Shopping. A intenção era simples: escapar por algumas horas da quentura e aproveitar um bom almoço na elegante churrascaria Boi e Brasa.
Entre assados, cortes generosos e sabores que por si só já justificariam a visita, encontrei, porém, um prazer inesperado, e talvez ainda mais marcante: a música!
Ao fundo, sem se sobrepor à conversa nem disputar espaço com o ambiente, um piano irradiava suas notas com uma elegância cada vez mais rara.
Quem estava diante das teclas era o Maestro Soneca Martins, conduzindo com sensibilidade um repertório capaz de transformar um almoço de domingo em uma experiência para além da gastronomia.
Vivemos tempos curiosos. Há música por toda parte, mas nem sempre há espaço para realmente ouvi-la. Restaurantes, lojas e tantos outros ambientes parecem, muitas vezes, disputar quem produz mais ruído. Entretanto, em meio a essa profusão sonora, encontrar um piano tocado com delicadeza é quase descobrir silêncio dentro do barulho. E, talvez, esteja justamente aí o grande encanto.
Soneca Martins não simplesmente toca, ele cria uma atmosfera entre as harmonias. Passeia por clássicos de outros tempos e chega, com naturalidade, a sucessos da música popular brasileira e internacional. Canções que conhecemos ganham outra textura quando passam pelas teclas de um piano. Algumas despertam lembranças, outras parecem adquirir uma beleza que, na correria cotidiana, talvez escapem aos nossos sentidos.
Há algo de profundamente elegante no piano. Ele não precisa gritar para ser ouvido. Não invade, envolve. Não exige a nossa atenção: ele a conquista! E, nas mãos de um músico sensível, consegue fazer algo ainda mais difícil: modificar o ambiente sem quebrar sua harmonia.
Foi assim no domingo.
Enquanto os garçons circulavam entre as mesas e os cortes chegavam fumegantes, as notas do piano percorriam discretamente o salão. Por alguns momentos, tive a impressão de que comida e música haviam firmado uma inesperada parceria. O almoço alimentava o corpo,o piano cuidava de outra fome, menos evidente e talvez mais necessária ainda.
Em um tempo em que somos cercados por estímulos, telas, notificações, pressa e excesso de volume, poder sentar-se à mesa e ouvir boa música executada ao vivo tornou-se uma espécie de pequeno luxo. Não o luxo da ostentação, mas aquele, muito mais precioso, da delicadeza.
O piano de Soneca Martins parecia um verdadeiro oásis em meio ao deserto dos sons.
E o mais interessante é que ele não precisava de palco, cortinas ou grandes cerimônias. Bastavam suas teclas, talento e sensibilidade para transportar quem estivesse disposto a ouvir. Entre uma música e outra, reconhecíamos melodias, lembrávamos épocas, pessoas, lugares. É esse um dos mistérios da música: ela toca primeiro os ouvidos, mas raramente termina neles.
Saí daquele almoço dominical pensando que certos detalhes têm o poder de transformar completamente uma experiência. Um restaurante pode oferecer excelentes cortes de carnes, serviço cuidadoso e ambiente confortável. Mas, quando a tudo isso se acrescenta música de qualidade, tocada com talento e bom gosto, a refeição ganha outra dimensão.
Confesso que fui ao Boi e Brasa pensando principalmente nas carnes.
No fim das contas, porém, alimentei-me também de música.
E, para quem aprecia as duas coisas, dificilmente haveria espaço para sobremesa.
João Gilberto Guimarães Sobrinho é Cientista Social Formado pela Universidade Federal do Vale do São Francisco, produtor cultural, escritor e editor, colaborador do portal Preto No Branco



