Opará pode ter nascido de “o Pará”? Uma curiosa história por trás de um antigo nome do Rio São Francisco, por por João Gilberto Guimarães Sobrinho

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Quem já pesquisou um pouco sobre o Rio São Francisco provavelmente encontrou uma curiosidade: antes da chegada dos portugueses, os indígenas teriam chamado o Velho Chico de Opará, nome frequentemente traduzido como “rio-mar”.

É uma história bonita e bastante conhecida. Mas existe outra explicação, bem mais curiosa: e se “Opará” tiver surgido simplesmente da junção de “o” com “Pará”?

Parece apenas uma brincadeira com palavras, mas documentos antigos dão motivos para levar essa possibilidade a sério.

Uma das pistas está em um documento de 1555. O jesuíta João de Azpilcueta Navarro, ao relatar uma viagem pelo interior do Brasil, menciona a chegada a “um rio mui caudal por nome Pará”. O rio mencionado é associado ao São Francisco.

Repare no detalhe: o documento registra Pará, e não Opará.

Outros registros históricos também apresentam nomes indígenas diferentes para o São Francisco, incluindo formas como Parapitinga e Pirapitinga. Então de onde teria vindo o famoso Opará?

Imagine alguém escrevendo “o Pará”. Agora retire o espaço: “Opará”.

Essa possibilidade já foi levantada há mais de um século. O baiano Theodoro Sampaio, importante estudioso dos nomes indígenas presentes na geografia brasileira, escreveu em sua obra O Tupi na Geografia Nacional que os portugueses diziam “o Pará” e que autores acabaram registrando a expressão como Opara.

Outro estudioso, Armindo Guaraná, apresentou explicação semelhante em 1916: Opará seria uma formação resultante do artigo português “o” junto ao termo indígena “Pará”.

Ou seja, a história poderia ter seguido este caminho:

Pará → o Pará → Opara → Opará.

E há mais uma pista interessante. Em 1883, a forma Opara já aparecia impressa. Naquele ano, o famoso Almanak Laemmert dizia, ao descrever o São Francisco, que ele era “denominado pelos indígenas Opara”.

Isso mostra que, no final do século XIX, já circulava a ideia de que Opara era propriamente um nome indígena. O curioso é que registros vários séculos mais antigos apontam para Pará.

É possível, portanto, que uma pequena junção de palavras tenha atravessado gerações e, com o tempo, passado a ser interpretada como uma palavra indígena completa.

Isso significa que a conhecida afirmação de que “Opará significa rio-mar” está errada? A questão não é tão simples.

Pará é realmente um elemento de origem indígena encontrado em diversos nomes geográficos brasileiros e historicamente associado a grandes águas, rios ou ao mar. A dúvida está justamente no “O”.

O que os documentos colocam em questão é se existia originalmente uma palavra indígena completa chamada “Opará” ou se esse “O” era simplesmente o artigo da língua portuguesa.

É uma diferença de apenas uma letra e um espaço, mas que pode mudar bastante a história da palavra.

Ainda falta uma peça importante desse quebra-cabeça: descobrir qual foi o primeiro documento a escrever Opara ou Opará como uma única palavra.

Sabemos que Pará aparece associado ao São Francisco no século XVI. Sabemos que Opara já circulava no século XIX. E sabemos que estudiosos como Theodoro Sampaio consideravam Opara resultado de uma confusão com a expressão “o Pará”.

Talvez documentos ainda mais antigos possam revelar quando ocorreu essa transformação.

Enquanto isso, fica uma curiosidade fascinante sobre o Velho Chico: uma palavra hoje conhecida como antigo nome indígena do Rio São Francisco pode ter uma história diferente daquela que costumamos ouvir.

Talvez Opará tenha começado, simplesmente, como “o Pará”.

João Gilberto Guimarães Sobrinho é Cientista Social Formado pela Universidade Federal do Vale do São Francisco, produtor cultural, escritor e editor, colaborador do portal Preto No Branco

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