Sempre Aos Domingos: “O travesseiro da NASA e as fake news”, por Sibelle Fonseca

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Uma das primeiras fake news de que me lembro, muito antes da expressão entrar no vocabulário cotidiano, foi a história do famoso travesseiro da NASA. Ele chegou às casas, especialmente às da classe média, cercado por uma ilusão de tecnologia, tendencia e sofisticação. Eu quase comprei um. O nome da agência espacial americana era o selo de credibilidade. E muita gente comprou. Não apenas o travesseiro, mas a história.

Poucos pareciam interessados em perguntar: a NASA realmente tinha alguma coisa a ver com aquilo? Quem inventou essa história? Onde estavam as provas? A promessa era atraente, o nome impressionava e acreditar parecia mais confortável do que duvidar.

Refletindo sobre essa história, vejo uma pequena aula sobre o comportamento humano diante da informação. E, em tempos de fake news e pós-verdade, a lição continua atual.

Agora, as notícias falsas entram nas nossas casas pelo celular, instalam-se nos grupos de WhatsApp, circulam pelas redes sociais e, pouco a pouco, ocupam espaço na cabeça das pessoas. Influenciam opiniões, alimentam preconceitos e ira, orientam escolhas políticas e interferem até no que pensamos sobre a vida dos outros.

Tenho percebido que muita gente não compartilha uma mentira simplesmente porque foi enganada. Compartilha porque aquela mentira confirma o que ela já pensa, alimenta seus ressentimentos ou favorece o lado com o qual se identifica. A informação deixa de ser examinada pelo que tem de verdadeiro, de fato, e passa a ser julgada pelo quanto agrada a quem a recebe.

Os fatos perdem espaço para as convicções e as emoções. A pessoa não pergunta se a informação é verdadeira. Pergunta, ainda que inconscientemente, se ela lhe agrada ou convém. E aí, sentencia atabalhoadamente: “É Fake News!”

Quando uma notícia contraria suas preferências, é logo condenada como fake news, mesmo que esteja amparada em documentos, dados e fontes confiáveis. Quando favorece suas crenças, porém, até uma mentira grosseira ganha status de verdade. Não se exige prova, não se consulta a fonte, não se confronta a informação. Basta que confirme aquilo em que se deseja acreditar.

Existem aqueles que denunciam notícias falsas enquanto compartilham falsidades; quem exija provas dos adversários, mas dispense qualquer evidência quando a mentira beneficia o próprio grupo.

E a mentira encontra terreno fértil não só na falta de informação, mas também na falta de caráter ou de honestidade para reconhecer aquilo que contraria nossas certezas.

Lembrar do travesseiro da NASA me deixou até um certo saudosismo. Aquela fake news era quase que sem malícia, uma estratégia de mercado, sem grandes estragos. Sobreviveram os que compraram.

A questão é que avançamos de lá pra cá, penso eu. E em uma sociedade inundada de informações, duvidar com responsabilidade é um exercício de cidadania. Verificar a fonte, confrontar versões, procurar evidências e admitir que podemos estar errados são atitudes que exigem esforço, mas garantem nossa capacidade de pensar por conta própria.

Afinal, não basta desconfiar das mentiras dos outros. É preciso reconhecer as nossas próprias mentiras e ter coragem de reconhecer quando elas são convenientes para nós.

Até porque a verdade não muda para caber nas nossas preferências. E uma mentira não se transforma em notícia verdadeira só porque nos agrada.

Aquela coisa… Nem toda verdade agrada. Nem toda mentira desagrada.

Quanto ao travesseiro da NASA, ele deve ter desagradado ou feito mal a muita gente.

Em tempo, a NASA não fabrica e nem utiliza esses travesseiros em missões espaciais. No Brasil, o termo também virou uma estratégia comercial.

Sibelle Fonseca é juazeirense, radialista, militante do jornalismo, pedagoga, feminista, humanista, mãe de Carla, Pingo, Mariana, Ananda e de pets, cantora nas horas mais prazerosas, defensora dos direitos humanos e dos animais, uma amante da vida e das gentes.

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