Carta aberta a Flávio Bolsonaro: “Meu filho é cego e cadeirante. Ele não é a sua piada. Capacitismo é crime”, por Sibelle Fonseca

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Senhor Flávio Bolsonaro,

A Bíblia diz, em Lucas 6:45, que “a boca fala do que está cheio o coração”. Em Mateus 12:34, a passagem é ainda mais contundente: “Raça de víboras, como podem vocês, que são maus, dizer coisas boas? Pois a boca fala do que está cheio o coração”.

Trago essas palavras porque considero impossível ouvir o senhor atacar o Presidente Lula, referindo-se aos seus “nove dedos”, no debate presidencial da TV Globo, e simplesmente seguir em frente como se nada tivesse acontecido.

O senhor debochou da ausência de um dedo de Lula, perdido em um acidente de trabalho, quando ele tinha apenas 17 anos e trabalhava como metalúrgico.

Isso não é apenas uma provocação política ou brincadeira inocente. É uma fala que transforma uma característica física em instrumento de humilhação. E, quando isso acontece, a ofensa ultrapassa a pessoa atacada e alcança milhões de brasileiros que convivem com deficiências, amputações e diferenças físicas.

Sou mãe de um filho cadeirante e cego. Sou neta de um idoso que teve a perna amputada em consequência do diabetes. Sou filha de uma mulher que perdeu um olho após um acidente de trânsito.

Portanto, quando o senhor usa uma parte do corpo de alguém para ridicularizá-lo, não está falando de uma abstração. Está tocando em uma realidade que atravessa a minha família, a minha maternidade e a minha vida.

E é por isso que lhe pergunto: Se o senhor considera aceitável usar a ausência de um dedo para ridicularizar um adversário, como enxerga o meu filho?

Que palavras usaria para se referir a uma pessoa cega? Chamaria de “ceguinho”, “aleijado”, “inválido”? Que tipo de piada faria sobre uma pessoa que depende de uma cadeira de rodas para se locomover? E sobre uma pessoa com autismo? E sobre alguém que perdeu um braço ou uma perna?

O senhor teria a mesma coragem de fazer essas piadas diante de uma criança com deficiência, olhando nos olhos de sua mãe? Teria a mesma disposição para debochar se estivesse diante de uma família que passa os dias enfrentando barreiras, preconceitos e dificuldades para garantir aos seus filhos direitos que deveriam ser respeitados sem qualquer contestação?

Palavras têm consequências, candidato. Ainda mais partindo de quem disputa a Presidência da República. Suas declarações repercutem, influenciam comportamentos e podem alimentar preconceitos que já ferem milhares de brasileiros diariamente.

É bem verdade que a retórica de setores do bolsonarismo tem sido marcada, em diferentes ocasiões, por ataques e declarações que provocam indignação. Do bolsonarismo a pior ofensa, é a próxima.

Tem sido assim. Quando mulheres são alvo de ataques misóginos, quando pessoas negras são humilhadas pelo racismo, quando pessoas LGBTQIA+ são tratadas com desprezo, quando nordestinos e pobres são ridicularizados por sua origem ou condição social.

Enquanto o senhor transforma uma característica física em munição política, há pessoas que passam a vida inteira tentando se proteger desse tipo de violência. São crianças ridicularizadas na escola, adultos constrangidos em espaços públicos, pessoas cegas tratadas como incapazes, cadeirantes reduzidos à cadeira de rodas e indivíduos com diferenças físicas transformados em personagens de piadas de mau gosto.

Quantas pessoas crescem carregando marcas emocionais de humilhações que os outros chamam de brincadeira? Quantas deixam de frequentar espaços, de expressar suas opiniões e de ocupar lugares por medo de se tornarem alvo da crueldade alheia?

O capacitismo, crime no Brasil, é também essa violência cotidiana de alimentar a ideia absurda de que existem corpos mais dignos de respeito do que outros.

A ausência de um dedo não torna ninguém menos gente. A cegueira não apaga a capacidade de compreender o mundo. Uma cadeira de rodas não define o valor de uma vida. O autismo não transforma ninguém em objeto de chacota. Uma amputação não retira de ninguém o direito de ser tratado com dignidade.

Deficiência não é defeito de caráter. O preconceito, sim, revela muito sobre quem o pratica.

Senhor Flávio Bolsonaro, nós, mães atípicas, enfrentamos olhares de desprezo, comentários inconvenientes e maldosos todas as vezes que saímos de casa com nossos filhos.

Como se sentiram as mães ouvindo sua chacota? E uma criança com deficiência que assistiu ao debate? Os adolescentes que sofrem bullying, as pessoas amputadas que carregam cicatrizes físicas e emocionais, os cegos e cadeirantes que lutam contra o preconceito?

O senhor consegue entender a dimensão disso?

Quando uma pessoa pública faz uma piada capacitista, reforça a ideia de que rir da deficiência é aceitável. Estimula crianças e adolescentes a reproduzirem ofensas contra colegas. E autoriza a quem já discrimina a ser perverso.

Discordar de Lula, criticar seu governo, contestar suas decisões e confrontar suas propostas é legítimo. Usar uma deficiência ou uma diferença física para humilhar alguém é desumano, cruel e imoral. Além de criminoso.

Um candidato à Presidência da República deveria compreender que suas palavras não ficam restritas ao palco de um debate. Elas chegam às escolas, às famílias, às redes sociais e aos espaços onde milhões de brasileiros tentam construir uma vida com dignidade.

Recentemente, acompanhamos a repercussão de declarações depreciativas e ofensivas contra apoiadores do presidente Lula, proferidas por duas comerciantes de Juazeiro, na Bahia, e Petrolina, em Pernambuco, suas apoiadoras.

É isso que o senhor tem inspirado e espalhado. “Em nome de “Deus”, o bolsonarismo alimenta o ódio, a violência, o desrespeito e a crueldade.

Eu não quero que meu filho seja visto primeiro pela cegueira ou pela cadeira de rodas. Quero que seja visto por inteiro, como ser humano, com sentimentos e dignidade. Não quero que ele precise se preparar para a próxima piada.

Quero que ele possa viver em uma sociedade como parte legítima da diversidade humana.

E quero o mesmo para todas as mães e todos os pais que lutam diariamente para garantir aos filhos com deficiência não apenas acessibilidade, atendimento, educação e inclusão, mas também algo que deveria ser elementar: respeito.

Não precisamos de compaixão disfarçada de superioridade. Precisamos que reconheçam seus direitos, de políticas públicas que garantam inclusão de verdade.

Como o senhor pretende governar o Brasil debochando de brasileiros PCDs?

Que mensagem o senhor transmite às famílias de pessoas com deficiência? Que lugar reserva aos brasileiros que não se enquadram nos padrões físicos considerados normais por uma sociedade ainda profundamente preconceituosa?

O Brasil não pertence apenas aos fortes, aos ricos, aos considerados perfeitos ou aos que pensam como o senhor. O Brasil também pertence aos cegos, aos cadeirantes, às pessoas amputadas, às pessoas autistas e a todas aquelas que enfrentam barreiras físicas, sociais e atitudinais para exercer direitos que já lhes pertencem.

Escrevo aqui como mãe. Como mulher que conhece, dentro da própria família, o peso de viver em uma sociedade que ainda não aprendeu a respeitar as diferenças.

Sua boca e a dos seus, falam daquilo que encharcam seus corações.

A mim, o senhor não representa. E também não representa os meus.

Em tempo, o senhor deveria saber que no Brasil, a discriminação contra a pessoa com deficiência é crime. A LEI Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência(LBI- 13. 146/2015) assegura o direito à igualdade de oportunidades e proíbe qualquer tipo de discriminação ou tratamento degradante.

Sibelle Fonseca, jornalista, radialista, pedagoga, mãe de quatro filhos, mãe atípica de um filho cadeirante e cego

 

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