“O ovo da serpente”: as sombras do nazismo e os sinais de intolerância no pós eleições do Brasil”, por Sibelle Fonseca

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A eleição terminou. As urnas deram o seu veredito. Isso deveria bastar para que o Brasil voltasse a respirar, após uma campanha acirrada, polarizada, e reencontrasse a convivência democrática.

No entanto, uma onda assustadora de intolerância se instalou no pós eleição.

Os derrotados, inconformados, estão lançando campanhas de perseguição, ameaças de boicote a estabelecimentos comerciais, promessas de demissão de trabalhadores por suas escolhas políticas e discursos contra nordestinos, pobres, petistas e eleitores do presidente Lula.

Pelas redes sociais bolsonaristas defendem que comerciantes deixem de atender determinados clientes, que empresários não contratem quem votou em Lula e que funcionários sejam mandados embora por causa do voto. Transformaram a legítima  divergência política em motivo para negar emprego, trabalho, solidariedade e até um copo de água a outro ser humano.

Isso não é apenas falta de educação ou de humanidade. É uma perigosa tentativa de transformar a diferença em motivo de exclusão social e econômica.

E a História nos ensina que esse tipo de comportamento precisa ser combatido desde os primeiros sinais.

É preciso voltar aos livros de história. Para quem faltou as aulas sobre o holocausto, proponho esta reflexão. Está tudo documentado pela Enciclopédia do Holocausto, do Museu Memorial do Holocausto dos Estados Unidos.

Em 1933, na Alemanha, os nazistas começaram a organizar o boicote aos estabelecimentos comerciais de judeus. Em 1º de abril daquele ano, poucos meses depois de Adolf Hitler chegar ao poder, o regime promoveu uma campanha nacional para impedir que a população comprasse em lojas de proprietários judeus ou procurasse os serviços de médicos, advogados e outros profissionais judeus.

Integrantes das tropas nazistas se posicionaram diante dos estabelecimentos, intimidaram clientes, exibiram cartazes de perseguição e ajudaram a espalhar a ideia de que aquelas pessoas deveriam ser isoladas da sociedade. A propaganda procurava apresentar os judeus como inimigos, culpados pelos problemas do país e merecedores de retaliação.

A campanha daquele dia foi apenas o começo. Vieram outras formas de discriminação, restrições legais, exclusão profissional, confisco de negócios e violência crescente. Em novembro de 1938, a perseguição chegou a uma nova dimensão com a chamada “Noite dos Cristais”, quando estabelecimentos e propriedades judaicas foram destruídos em ataques coordenados. O processo de desumanização e perseguição culminaria no Holocausto, no assassinato sistemático de seis milhões de judeus.

Certamente, o Brasil de hoje não é a Alemanha nazista. Mas não podemos ignorar as semelhanças entre determinados mecanismos de perseguição, como identificar um grupo, transformá-lo em inimigo, estimular o boicote, ameaçar seu sustento e normalizar a exclusão.

Na Alemanha dos anos 1930, a perseguição começou também pela vida cotidiana. Na loja, no consultório, no escritório, no emprego. Começou quando a identidade de alguém passou a ser usada como justificativa para lhe negar direitos e dignidade.

É justamente por isso que não podemos tratar com naturalidade a ideia de que um brasileiro deva perder o emprego porque votou em determinado candidato, de que um comerciante deva ser perseguido por sua posição política ou de que nordestinos mereçam desprezo por causa do resultado das urnas.

O voto é um direito constitucional. O voto livre, sem brechas para perseguições.

É perversa a lógica que pretende transformar o direito de escolha em instrumento de punição. É assim que o ódio ganha terreno.

No Brasil, esse comportamento precisa ser enfrentado também porque o bolsonarismo, em suas expressões mais extremadas, alimentou uma cultura política de hostilidade, de intolerância à divergência e de deslegitimação dos adversários. Em determinados grupos, a fidelidade política assume características de seita. Não se admite a crítica, não se aceita a derrota e qualquer pessoa que pense diferente passa a ser tratada como traidora ou inimiga.

É urgente que se denuncie uma corrente radicalizada que transforma a política em guerra permanente e tenta impor à sociedade uma escolha cruel. Ou você pensa como nós ou merece ser punido.

Uma democracia não pode se submeter a essa chantagem.

Também não podemos esquecer o 8 de janeiro de 2023, quando extremistas invadiram e depredaram as sedes dos Três Poderes, em Brasília, inconformados com o resultado eleitoral e empenhados em atacar as instituições democráticas. Aqueles atos mostraram até onde pode chegar a radicalização quando a derrota nas urnas, quando a vontade popular não é aceita.

Agora, quando reaparecem ameaças, campanhas de boicote e manifestações de ódio contra quem votou no presidente Lula, o país precisa reconhecer a gravidade desse ambiente. A perseguição econômica e social não é a mesma coisa que a depredação das instituições, mas ambas podem expressar uma recusa perigosa à convivência democrática quando motivadas pela intolerância ao resultado das urnas.

Quando Jair Bolsonaro venceu a eleição de 2018, os eleitores de Lula tiveram de conviver com um resultado que não era o desejado. Amargaram a derrota, aceitaram a derrota, por que a democracia exige isso. Reconhecer a decisão eleitoral, continuar defendendo suas ideias e aguardar a próxima oportunidade de escolha.

A democracia não funciona por vingança. Funciona por regras, direitos e respeito.

Quem venceu não ganha o direito de humilhar. Quem perdeu não ganha o direito de perseguir. E ninguém, absolutamente ninguém, deveria temer perder o emprego, o cliente, o fornecedor ou a oportunidade de trabalhar por causa de seu voto.

É por isso que essa onda precisa ser contida logo no início. Não amanhã, quando a ameaça já tiver se transformado em demissão. Não depois, quando um pequeno negócio tiver sido destruído por uma campanha de difamação. Não quando uma família estiver passando necessidade porque alguém decidiu punir politicamente seu sustento.

É agora, com firmeza, responsabilidade e compromisso com a lei.

Empresários precisam compreender que o poder de contratar não deve ser convertido em instrumento de perseguição política. Comerciantes precisam entender que a cor do dinheiro de seus clientes é a mesma, independente de suas escolhas eleitorais. E a sociedade precisa repudiar, sem hesitação, a normalização de discursos que incentivam a exclusão e a humilhação.

O Brasil precisa de pacificação. E pacificar não significa silenciar críticas, abandonar convicções, mas compreender que a divergência faz parte da democracia, enquanto a perseguição é método do autoritarismo.

A História está aí para nos lembrar que grandes tragédias não começam necessariamente com a violência extrema. Muitas vezes, começam quando a sociedade se acostuma com pequenas crueldades, quando o preconceito vira piada, quando a perseguição vira campanha e quando a exclusão passa a ser defendida como se fosse normal e justa.

Foi assim que mecanismos de perseguição ganharam espaço em regimes autoritários. Não podemos permitir que essa lógica encontre terreno fértil entre nós.

A democracia não exige que todos pensem igual. Exige que todos possam viver com direitos, dignidade e liberdade, mesmo quando pensam diferente.

Que os derrotados aceitem o resultado das urnas. Que os vencedores compreendam a responsabilidade que acompanha a vitória. Que o país volte a discutir ideias sem transformar parte dos brasileiros em inimigos.

E que ninguém precise esconder seu voto para preservar o emprego, entrar em um estabelecimento comercial ou ser tratado com respeito.

Porque combater o ódio no seu início não é defender um partido. É defender a sociedade brasileira, a liberdade, a dignidade humana e a própria democracia.

E diante da perseguição, do preconceito e da intolerância, o silêncio não pacifica. O silêncio pode apenas abrir espaço para que o absurdo avance.

A democracia precisa de coragem para dizer não ao ódio, antes que o ódio tente se impor como regra.

Por Sibelle Fonseca

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