Dirigente da Aldeia Pena Branca denuncia perseguição religiosa contra irmã de 14 anos em escola particular de Petrolina; caso foi denunciado ao MPPE

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O sacerdote Pai João Bosco, da Aldeia Pena Branca, terreiro que cultua a Jurema Sagrada em Petrolina, no Sertão de Pernambuco, denunciou ao Portal Preto no Branco que a irmã dele, uma adolescente de 14 anos, sofreu perseguição religiosa por anos em uma escola particular da cidade.

“Faz quatro anos que a minha irmã sofre racismo religioso, intolerância religiosa. Mesmo sendo uma menina branca, ela é perseguida pela religião que tem. Quando estudava em um colégio particular de Petrolina, bastante conceituado, e que se divulga como um dos que mais aprova no Enem, ela foi agredida na escola. Uma outra aluna chegou a puxar os cabelos dela. Além disso, ela foi excluída pelas colegas”, relata.

A família relata que chegou a mudar a estudante de turma, mas, conforme o relato, a colega e seu grupo seguiram com a perseguição e passaram a incentivar outros alunos a não se aproximarem dela.

“Ela trocou de sala, e esse mesmo grupo e essa mesma pessoa foram persegui-la na outra sala e falar para as pessoas da outra sala não serem amigas dela. Ela chegou a lanchar dentro do banheiro por conta dessa situação. Ficava no recreio na sala de enfermaria, com a moça da enfermaria, para não ficar à vista desses grupos. Quando ela ia lanchar no banheiro, chegou a acontecer dessas meninas ficarem batendo na porta do banheiro, chutando”, disse o irmão.

Ele diz ainda que a adolescente, que antes usava guias (colares sagrados) na escola, passou a ter medo de usá-las.

“Antes, usava guia para ir para a escola, gostava de fazer as guias e tudo. Hoje em dia, eu vejo ela com medo de fazer isso às vezes, com medo de ser identificada como juremeira, coisa que ela é e com a qual se identifica por conta própria”, conta.

Pai João Bosco afirma ainda que uma professora também chegou a expor a adolescente diante da turma.

“Ela foi exposta mais uma vez, para ser ridicularizada. Essa mesma professora é uma das que ficavam dando sermão sobre Deus na sala de aula, e isso já aconteceu com minha irmã várias vezes. A gente não pode generalizar todos os profissionais, porque houve um professor […] que nos ajudou muito, mas não conseguiu fazer muita coisa”, ressaltou à redação.

A família diz ter procurado a coordenação e o psicólogo da escola diversas vezes.

“Disseram que estavam fazendo intervenções, mas nenhuma surtiu efeito. Nem vimos isso aparentemente acontecendo. Não resolveu nada. Temos todos os prints das tentativas de diálogo com a escola.”

O sacerdote diz que a aluna apontada como agressora é filha de um empresário da cidade: “A pessoa que puxou os cabelos dela e que perseguia ela, e que até hoje persegue, é filha de um empresário aqui da cidade”, afirma, acusando a escola de ter “negligenciado várias dessas situações, inclusive […] protegendo filhinho de papai”.

O irmão conta que, após as tentativas de resolver o caso, a direção aconselhou a retirada da adolescente.

“No final das contas, a diretora-geral, que é dona da escola, nos aconselhou a tirar a adolescente da escola. Ou seja, a vítima acabou tendo que sair da escola, e a agressora ficou”, resumiu à redação.

O sacerdote conta ainda que, mesmo mudando de escola, a perseguição à irmã continuou.

“Na nova escola, de viés cristão, ela recebeu um acolhimento maravilhoso. Mas a colega da instituição anterior ficou sabendo que ela estava estudando lá e foi espalhar para as meninas da nova escola que ela era macumbeira, que não se aproximassem dela, que ela não era de confiança. E as pessoas começaram a mandar mensagens umas para as outras, dizendo que não era para acolher ela”, relata.

A situação, segundo o irmão, afetou a saúde da adolescente, que hoje recebe acompanhamento profissional.

“Ela desenvolveu úlcera e gastrite nervosa depois dessas situações. Além disso, minha irmã faz terapia duas vezes por semana, tem crise de ansiedade e está tendo que fazer intervenção psiquiátrica para poder conseguir suportar tudo isso”, afirma.

A família afirma ter acionado o Ministério Público em junho e aguarda retorno.

“Nós já entramos, na verdade, desde junho. A gente está esperando uma devolução do Ministério Público e também está cobrando o Ministério Público com relação a essa situação, para que dê andamento a isso. A gente vai até a Justiça para mostrar que esse caso não pode nem vai ficar impune”, diz.

O sacerdote alertou outras famílias que passarem por situações discriminatórias a denunciar ao Ministério Público ou a compartilhar os casos nas redes sociais.

“Eu incentivo vocês a fazerem uma denúncia no Ministério Público e exporem situações de intolerância religiosa e outras formas de discriminação. A gente precisa se apoiar e se juntar contra todos esses absurdos.”

Encaminhamos a reportagem ao MPPE.

Terreiros, alvo histórico da intolerância religiosa no país

A Aldeia Pena Branca reúne centenas de frequentadores semanalmente e também foi alvo de apedrejamentos em 2025.

A perseguição às religiões de matriz africana acompanha os terreiros desde o período da escravidão. Um dos casos mais emblemáticos é o da ialorixá baiana Mãe Gilda, que morreu em 21 de janeiro de 2000, após sofrer ataques e agressões. A data se tornou o Dia Nacional de Combate à Intolerância Religiosa, instituído por lei em 2007.

Os dados revelam a dimensão do problema. Em 2024, o Disque 100 registrou 2.472 denúncias de intolerância religiosa, aumento de 66,8% em relação ao ano anterior. Na pesquisa Respeite o Meu Terreiro, do Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania, 76% dos 511 terreiros ouvidos relataram ter sofrido racismo religioso, e 80% afirmaram ter sido vítimas diretas de agressões.

A violência inclui xingamentos, ataques virtuais, abordagens policiais discriminatórias e invasões de espaços sagrados. Apesar da gravidade, apenas 26% dos terreiros que sofreram ameaças ou destruição registraram boletim de ocorrência, o que evidencia a subnotificação. O tema também atravessa as disputas eleitorais, quando símbolos e práticas afro-religiosas são usados para disseminar desinformação. No primeiro semestre de 2026, o Disque 100 registrou 270 denúncias envolvendo praticantes de candomblé e umbanda, alta de mais de 40% em relação ao mesmo período de 2025.

O que diz a lei

A Lei nº 14.532/2023 alterou a Lei do Crime Racial (Lei nº 7.716/1989) e prevê reclusão de um a três anos e multa para discriminação ou preconceito, inclusive por religião, e para quem impedir ou usar violência contra práticas religiosas. Cabe ao Ministério Público e à Justiça avaliar se os fatos configuram crime. Em geral, quando o autor é menor de idade, a conduta é tratada como ato infracional, e a responsabilidade da escola é apurada à parte. Denúncias de intolerância religiosa também podem ser feitas pelo Disque 100.

Redação PNB 

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