A fotógrafa juazeirense Laís Lino enviou para nossa redação um artigo da historiadora Bebela Figueiredo, que morreu neste sábado (9), em Juazeiro. Bebela completaria no próximo dia 12 de Setembro, 95 anos.
Em 2021, a fotógrafa resgatou o artigo do Jornal Diário da Região, por ocasião do aniversário da cidade.
“Contando nossa trajetória, enaltecendo nossa gente e vislumbrando um “diuturno futuro repleto de êxito”, legendou.
“Após a celebração do dia da padroeira, Nossa Senhora das Grotas, a querida Maria Isabel Muniz Figueiredo se despede dessa existência envolvida numa atmosfera de alegria e fé.
Bebela contou histórias e estórias, com afeto especial às lendas de sua terra natal. Foi professora, escritora, atriz (atuou em cinema e teatro), fundou o Grupo Teatro Juá, folclorista. Defendeu a arte, a música e a cultura em suas diversas formas. Nós, juazeirenses, agradecemos sua imensa contribuição e seu legado na construção da memória coletiva de seus conterrâneos e sua cidade. Segue em paz!”, declarou Laís Lino.
Juazeiro de ontem e hoje
Juazeiro, nossa cidade, a antiga Passagem do Juazeiro, hoje está em festa. Contabilizando 123 anos de sua elevação à categoria de cidade. É hora de festejar, louvar, agradecer a Deus e à nossa excelsa padroeira, Nossa Senhora das Grotas. Juazeiro, em 1997, foi considerada pela Pesquisa Simoncen Associados – Fonte: Revista Exame de 03/12 de 1997 – a 25ª cidade emergente do Brasil, 3ª do Nordeste e 1ª da Bahia. O mesmo a Gazeta Mercantil considerou. Acredito, e os fatos comprovam, Juazeiro não é emergente. Agora, está consolidado o seu ‘status’ de cidade grande, bela e promissora. É a capital da irrigação. O Mercado do Produtor é um entreposto comercial de alto porte, inigualando-se aos das grandes capitais brasileiras. Milhões de reais são comercializados aqui no Mercado do Produtor. A irrigação transformou a paisagem sertaneja. A vocação econômica de Juazeiro está na agricultura irrigada e na agroindustrialização. Mais de 70.000 hectares de solos de primeira qualidade. É o município do vale do São Francisco que apresenta maior produtividade e viabilidade econômica.
O sonho da irrigação da agricultura nasceu aqui na Passagem do Juazeiro, nos idos de 1899, quando o governador Luís Viana adquiriu comprando ao Coronel João Evangelista Pereira e Melo duas roças. Lá na Passagem do Juazeiro, instalou uma repartição estadual para se dedicar à cultura da videira.
Em 1903, o campo de viticultura de Juazeiro já estava em funcionamento, as videiras produzindo, chegando-se a fabricar vinhos especiais. Em 1907, o Campo de Viticultura passou a chamar-se Horto Florestal. Foram construídos canais de irrigação e bombas possantes para irrigar o terreno, onde foram plantados eucaliptos, pitangueiras e centenas de mangueiras e cajueiros.
Logo foi criado o Aprendizado Agrícola – Escola para jovens juazeirenses e da região, onde, em regime de internato, estudavam e cultivavam as artes (principalmente a música), chegando a formar a Filarmônica do Aprendizado Agrícola. A tônica dos currículos do aprendizado agrícola era o estudo do solo e das técnicas agrícolas direcionadas a diversas culturas, pricipalmente ao cultivo da videira. E as uvas de Juazeiro eram as mais apreciadas, tanto aqui como em Salvador, lá todos ouviam o pregão: “Uvas de Juazeiro… Uvas de Juazeiro”.
E, se quiserem constatar o que escrevo, cheguem até o Horto – UNEB – Faculdade de Agronomia, e peçam para ver o Aqueduto: obra belíssima e de grande utilidade. Agora com 80 anos, ele está firme e ainda em atividade, em pleno trabalho de Irrigação. Prova evidente de que a Irrigação do Vale do São Francisco aconteceu, teve início em Juazeiro da Bahia, desde 1899 – século dezenove.
O projeto Mandacaru chegou atrasado. A história da troca de terra para exame, análise de solo, todos conhecemos.
Além do Mandacaru, temos o Maniçoba, Tourão e Curaçá, e breve, o Salitre – O Salitrão que por ingerências várias chegará com mais de 33 anos de atraso. Todos conhecemos as razões. As razões…
Lamentamos a situação do nosso Rio São Francisco. Exorcisamos a transposição, queremos a revitalização. Deus e São Francisco nos ajudarão. Que todos façam a sua parte. Vamos tratar de fazer o reflorestamento das matas ciliares. Evitar a poluição do rio. Vamos salvar nosso rio. Esperamos das autoridades e do povo ações de salvamento. Salvemos o Rio São Francisco, o grande amor de Juazeiro, sempre.
Juazeiro é a capital da Irrigação. O ex-prefeito Jorge Khoury, demonstrando competência e criatividade, criou a Festa do Melão, que se transformou em FENAGRI – Feira da Agricultura Irrigada, e projetou Juazeiro no Brasil e no exterior.
Juazeiro, nosso município, é abençoado por Deus e sua Padroeira, Nossa Senhora das Grotas. É rica. Seu solo possui grande área calcária, se destacando na extração de mármore, pedras portuguesas, pedras preciosas e semi-preciosas. No abençoado solo do município de Juazeiro encontramos: ametista, amianto, calcário branco, calcário Dolomítico (Dolomita), calcedônia, citrino, cristal da Rocha, cristal verde com rutílio, feldspato, granitóide rosa, manganês, mármore, quartzo esfumaçado, quartzo verde, quartzo rosa, talcoxisto, serpentinita e silex. E como exemplo cito a Mina Boa-Sorte em Itamotinga (ametista) e o pólo calcário de Carnaíba do Sertão. Se nos faltar a irrigação (que Deus nos livre), apelaremos para o setor extrativo de rochas calcárias, pedras preciosas e semi-preciosas, e pode ser um investimento promissor. Podemos afirmar que nossa Juazeiro possui condições especiais para iniciar o desenvolvimento desse seguimento da nossa economia. Espero que dêem continuidade à AGAMESF – Associação Intermunicipal dos Garimpeiros do Médio São Francisco.
Juazeiro da navegação, da estrada de ferro, da Serra do Mulato “azulada e de perfil entrecortado azulando no horizonte”, uma clareira no Olho d’Água das Fronteiras, no pé da serra, onde há mangueiras centenárias, pés de fruta-pão, jaca, pinha e umbu. Um local perfeito para acampar. Uma reserva natural… Uma reserva ecológica, digna de ser vista e preservada.
Museu Regional – Com um acervo de 2.916 peças, destacando-se o acervo da navegação baiana do São Francisco, cuja sede sempre foi aqui.
Artesanato: diversificado. A carranca, símbolo da nossa cidade, artisticamente esculpida na madeira, a maior e a primeira expressão de arte popular do juazeirense. Carrancas? Invenção dos barqueiros juazeirenses para enfeitar e proteger suas embarcações, suas barcas.
Lendas – O juazeirense sempre amou e cultivou suas lendas e seus mitos. Lendas de Juazeiro e do seu amor, o Velho Chico. Lendas da Ilha de Nossa Senhora da Rapadura, lenda das Irmãs Caririzeiras, do Riacho das Balas de Juremau, da Mula-sem-cabeça, do antigo Beco das Panelinhas. Ah!, meus amigos, se fosse citar todas, não acabaria hoje.
Nossas praias, a beleza bucólica do Rodeador, os benditos dos penitentes, nossas cantigas de rodas e os gingados do “samba-de-véio” e as cores e canções dos Reis-de-Boi, e as histórias e estórias dos pés-de-juá, dos juazeiros que de tão abundantes deram nome à nossa terra Passagem do Juazeiro, atual Juazeiro. Das rodas de São Gonçalo e do canto e da fé dos congos de Nossa Senhora do Rosário.
Agrovale – Orgulho do juazeirense. Transformou o triste cinza da seca em verdejantes canaviais. Está transformando Juazeiro no açucareiro da Bahia, além de outros produtos e outras culturas, e recentemente no auge do temível apagão e crise de energia, ela, para orgulho de todos os juazeirenses, vende watts – energia elétrica para quem necessita. Ela tem de sobra. Uma lição de competência. Deus e Nossa Senhora das Grotas abençoem a Agrovale e sua gente laboriosa e competente.
Juazeiro das escolas, creches, hospitais e clínicas.
Juazeiro campus III da UNEB – com a Faculdade de Agronomia, Filosofia Ciências e Letras e curso de Direito.
Juazeiro da comunicação – Rádio Juazeiro, Rádio Cidade, Vale FM, Indy e Transamérica e a poderosa, competente e empreendedora, líder de audiência, telespectadores a mil, TV Norte.
Juazeiro dos artistas, compositores, cantores, poetas, músicos, dançarinos, escritores e pintores. Rica em artistas de todas as linguagens.
Juazeiro das filarmônicas, das serenatas e serestas.
Juazeiro da Catedral de Nossa Senhora das Grotas e de capelas belas.
Juazeiro do Mons. José Gilberto Luna, padre José, um dos maiores oradores sacros do Brasil, além de grande escritor e poeta.
Juazeiro dos jornais, e para homenagear todos, cito o Jornal de Juazeiro, O Diário da Região.
Juazeiro dos carnavais, das batucadas, dos blocos de sujo, dos desfiles, carros alegóricos, e agora dos blocos de Trio e Cordas, levadas e puxadas.
Juazeiro de Adauto Morais e D. Jerusa Rosa, que com José Custódio e Waldomiro Cunha, Henrique Pilé (Randão), fundaram o Zero.
Juazeiro, aos 123 anos, é cidade que se orgulha do seu passado, e hoje é uma cidade progressista a caminho de um diuturno futuro repleto de êxito.
Juazeiro do 3º BPM e do Tiro de Guerra, Corpo de Bombeiros, briosos e sempre a receber nossos votos de confiança e aplausos.
Juazeiro das Maçonarias, clubes de serviços e entidades. E, citando todos eles, citarei: OAB – Ordem dos Advogados do Brasil – secção Juazeiro, ABI – Associação Bahiana de Imprensa, Rotary Club, Lions Club – Lojas Maçônicas Segredo Força e União, Harmonia e Amor e Academia Juazeirense de Letras.
Juazeiro com a sua egrégia Câmara de Vereadores, Magistratura, Diocese de Juazeiro, sob a bênção e comando de D. José Rodrigues de Souza. O IRPAA – com a competência e o labor de ensinar o catingueiro e o beradeiro a conviver com a seca.
A importância de nossa rede hoteleira e a dedicação de seus serviços.
Nossos atores, atrizes e o requinte, a beleza do Centro de Cultura João Gilberto e a eficácia da sua gentil e eficiente diretora e equipe.
Juazeiro de Joãozinho de D. Patu, João Gilberto, o mago da bossa nova, cidadão do mundo. Luís Galvão, Doralice Vargas, Valter Souza, Edésio Santos, Chico Pintor, Serrinha, Ferreira, Pedrinho, Piloto, Jean Jacques, Edilberto Trigueiros, Mauriçola, Neto e Mundinho, Bambam, Deviles, Geraldo Pontes, Cláudio Damasceno, Joãozinho Sereno, Fred Pontes, Manuka, Targino Gondim, José Araújo, Nilton Freitas, Waltinho, Paulo César Andrade, Zé Brocoió, Franciolli, Layse de Luna Brito, Hertz Félix, Celso Abud, Bau, Netinho da Bahia, Jurandir Oliveira Costa, Ary, o show-man, maestro José Pereira Bispo, Hamilton Stefranland, Pereira, o poeta, orador e músico Joseph Bandeira e tantos outros.
Salve Juazeiro Futebol Clube! Campeão!
“Juazeiro, remador fagueiro cantou a canção
Você, Juazeiro do meu coração.”
Bebela
Fonte: Dirário da Região 15/16 de julho de 2001
Foto: Acervo Maria Franca Pires
Redação PNB



