A Lei Aldir Blanc, sancionada em 2020, emergiu como uma resposta necessária para mitigar os impactos da pandemia de COVID-19 no setor cultural brasileiro. Com a destinação de R$ 3 bilhões para estados e municípios, a lei visava assegurar a sobrevivência de artistas, coletivos e espaços culturais em um momento de extrema vulnerabilidade. Contudo, a implementação dessa política revelou desafios significativos, especialmente no que tange à gestão e aplicação dos recursos por parte de algumas prefeituras.
Desde sua implementação, diversos municípios enfrentaram dificuldades na execução adequada dos recursos da Lei Aldir Blanc. Em 2021, por exemplo, 35% dos municípios do Paraná não utilizaram nenhum valor dos recursos recebidos, evidenciando uma ineficiência na gestão cultural local. Além disso, em outros estados, como a Paraíba, auditorias identificaram irregularidades graves na aplicação dos recursos, levando a processos junto ao Ministério Público Federal e ao Tribunal de Contas da União.
Um dos problemas mais alarmantes observados foi o uso político dos recursos destinados à cultura. Em algumas localidades, os fundos foram direcionados para beneficiar aliados políticos ou para eventos que não atendiam aos objetivos originais da lei. Esse aparelhamento comprometeu a eficácia da política pública e prejudicou artistas e coletivos que realmente necessitavam do auxílio.
Um exemplo emblemático dessa má gestão ocorreu em Juazeiro, Bahia. Em 2024, a então prefeita Suzana Ramos destinou 75% dos recursos da Lei Aldir Blanc para a realização do carnaval da cidade. Embora o Ministério da Cultura permitisse que até 75% dos recursos fossem utilizados em festas populares, a decisão gerou indignação entre os artistas locais, que se sentiram marginalizados e sem acesso ao suporte financeiro necessário para suas atividades.
A má alocação dos recursos da Lei Aldir Blanc teve impactos profundos na comunidade artística. Muitos profissionais da cultura, já fragilizados pela pandemia, enfrentaram dificuldades adicionais devido à falta de suporte adequado. Em diversas regiões, artistas relataram abandono e negligência por parte das autoridades municipais, agravando a crise no setor cultural.
As leis de incentivo e fomento à cultura são fundamentais para a sustentabilidade da cadeia produtiva cultural. A cultura não apenas movimenta expressões artísticas e identitárias, mas também gera empregos, fomenta a economia criativa e impulsiona o turismo. Eventos, festivais, produções teatrais, música, artes plásticas e audiovisuais dependem, muitas vezes, de políticas públicas para sua viabilidade econômica.
Quando os recursos da cultura são mal geridos ou aparelhados para fins políticos, a cadeia produtiva é diretamente impactada. Espaços culturais fecham as portas, artistas deixam de produzir e a população perde acesso a bens culturais essenciais. Dessa forma, uma gestão transparente e eficiente dos fundos públicos destinados à cultura é uma necessidade imperativa para garantir a pluralidade e a sustentabilidade do setor.
Diante do histórico recente de má administração dos recursos culturais em Juazeiro, a expectativa da classe artística local agora se volta para a nova gestão municipal, capitaneada pelo prefeito Andrei Gonçalves. A esperança é que sua administração adote uma abordagem mais inclusiva e transparente na gestão dos fundos culturais, assegurando que os artistas da cidade sejam efetivamente contemplados pelas políticas públicas.
Espera-se que a nova gestão implemente um diálogo aberto com os fazedores de cultura, estabelecendo editais justos, acessíveis e alinhados com as reais necessidades do setor. Além disso, há uma demanda crescente pela real implantação de um plano municipal de cultura que garanta um planejamento de longo prazo para as artes e a cultura local, evitando soluções emergenciais que favorecem apenas determinados eventos ou setores.
A Lei Aldir Blanc representou uma conquista significativa para o setor cultural brasileiro, oferecendo um alento em tempos de crise. No entanto, sua implementação evidenciou fragilidades na gestão pública e a necessidade de mecanismos mais eficazes de fiscalização e transparência. É imperativo que as futuras políticas culturais considerem essas lições, garantindo que os recursos cheguem efetivamente a quem deles necessita, fortalecendo a cultura nacional e respeitando a diversidade artística do país.
Por João Gilberto Guimarães



