Dizem, com uma facilidade desconcertante, que toda mãe é igual. Uma frase pronta, dessas que cabem em qualquer conversa rasa, mas que não resistem a um minuto de verdade. Não, não somos todas iguais. Nunca fomos.
Durante muito tempo, tentaram nos caber em um molde único: a maternidade romantizada, quase sagrada, quase intocável. Aquela que exige silêncio diante do cansaço, que transforma renúncia em virtude absoluta e que, muitas vezes, cobra mais do que devolve. A mãe perfeita, paciente, incansável — e, sobretudo, padronizada. Mas a vida, essa que pulsa fora dos discursos prontos, não funciona assim.
Eu não fui, e nem sou, essa mãe típica, mãe de manual.
Fui mãe por prazer. Fui mãe brincando. Fui mãe de cantiga de roda, de sentar no chão, de montar quebra-cabeça, de gargalhar alto, sem pedir licença ao mundo. Fui mãe de presença leve e firme, de afeto sem protocolo, de risada solta no meio do caos cotidiano. E continuo sendo.
“Sibelle é uma figura. Ela é música. Muita comida e cerveja gelada. Feijoada
Gente reunida. Um voz forte, entregue, emoção. Acompanhada de um bom violão
Em Lá Maior ela é afinada, rasgada. Empolgada. Sibelle é da chiada. Não precisa de muita coisa pra ela fazer farra com a vida. É simples e arrojada. Sou filha de Sibelle e me reconhecer nela é me reencontrar com a vida mais alegre, leve e cheia de gaitada”, descreve Mariana sobre a mãe que é dela.
Ser mãe, para mim, nunca foi essa coisa de cumprir um roteiro. Foi, e é, viver sendo a mulher que sou. Com minhas limitações, inconsistências e desejos. Ainda bem que não abdiquei de mim e assim livrei meus filhos do peso da cobrança. Eu fiz tudo o que podia e até mais que isso, por eles. Eu fiz tudo que desejei e sonhei, por mim. Inteira como mãe e como mulher.
E talvez seja exatamente por isso que meus filhos são quem são. Carla, Pingo, Mariana e Ananda não são cópias de um ideal. São seres maravilhosos, autênticos, autorais. Têm voz, têm identidade, têm esse traço bonito de quem não foi moldado para caber, mas para existir.
E eu também sou assim: autoral.
Sou autoral no feijão que faço, no texto que escrevo, no microfone que ocupo. Sou autoral no trabalho jornalístico de cada dia, mas também nas tarefas mais simples, como lavar um banheiro. Porque autenticidade não é performance, é essência. É aquilo que a gente não negocia.
Por isso, não aceito rótulos. Não aceito a ideia de que existe uma forma correta de maternar. Não aceito que nos reduzam a um padrão confortável para quem observa de fora. Maternidade não é linha de produção. É território íntimo, diverso, imperfeito e, justamente por isso, profundamente humano.
Que bom que não somos todas iguais. Porque é nessa diferença que mora a beleza de sermos, cada uma.
Em tempo, compartilho os versos que ganhei de Ananda neste Dia das Mães. Ela fala sobre ela, ela fala sobre mim. Ela fala sobre essa inteireza de ser. Ela fala de singularidades. Ela arremata: As mães não são iguais.
“Quando eu cheguei no mundo ela já tinha 31. Nos 28 percorridos, nessa minha caminhada eu consegui perceber e tenho uma admiração danada. Essa mulher rasga o mundo nos dentes enquanto canta, cuida e dá risada. Achei babado esse jeito de ser mulher e venho mais ou menos tentando copiar … Não sei se tá saindo muito bom, mas tá valendo a pena tentar. Às vezes o juízo dela aperta, e é preciso regular. Enche a casa de gente, esvazia do peito o rancor, alfazema, vermelho, cerveja gelada, fala até com as paredes, pra não se apertar com as palavras. De sufoco não morre, não come corda de ninguém, não leva desaforo pra casa, nem fica sem querer bem. Já perdoou jacaré, mas no muro nunca ficou, desafiou coroné porque não seguia a lei, discutiu com doutor, polícia e advogado,
não gosta muito de pastor, mas tem alguns aliados. Foi amiga de bispo, padre, juiz, os que correm pelo certo e que faz o que se diz. Manoelito já dizia: se tiver que escolher entre dois lados da guia, escolha o que não levanta o nariz”.
Sibelle Fonseca é juazeirense, radialista, militante do jornalismo, pedagoga, feminista, humanista, mãe de Carla, Pingo, Mariana, Ananda e humana de Diana e de mais 5, cantora nas horas mais prazerosas, defensora dos direitos humanos e dos animais, uma amante da vida e das gentes.



