Neste 1º de junho completo 35 anos de jornalismo. Trinta e cinco anos desde o dia em que minha carteira de trabalho foi assinada pela então Televisão Norte Baiano, minha verdadeira universidade.
Eu tinha apenas 24 anos e já era mãe de três filhos. Entre os desafios da maternidade, as obrigações domésticas e a necessidade de construir uma profissão, fui aprendendo o ofício que acabaria definindo minha vida. Desde então, não houve um único dia em que a notícia me desse descanso.
Passei por emissoras de rádio e televisão em Juazeiro e em Sergipe. Ganhei prêmios importantes, construí amizades que levarei para sempre e tive o privilégio de ouvir milhares de histórias. Conversei com autoridades e com anônimos, acompanhei vitórias e tragédias, denunciei injustiças, investiguei irregularidades, divulguei a cultura, a arte e o conhecimento. Assim fui construindo não apenas uma carreira, mas um patrimônio que não se mede em bens materiais: a credibilidade.
Mas o maior desafio do jornalismo nunca foi a rotina pesada, os plantões intermináveis ou a cobertura dos fatos mais difíceis. O verdadeiro desafio é permanecer fiel ao compromisso assumido quando escolhemos esta profissão: servir à verdade, garantir o direito à informação e exercer a crítica necessária para uma sociedade mais justa e democrática.
Foi por acreditar nisso que, há dez anos, criamos o Portal Preto no Branco. Somente aqui pude exercer plenamente o jornalismo que sempre sonhei fazer: livre, independente, comunitário e transformador.
Uma missão que muitas vezes parece impossível.
Ao longo dessas décadas, testemunhei inúmeras tentativas de interferência. Em alguns momentos, o poder político tenta impor silêncio às vozes divergentes. Em outros, é o poder econômico que busca estabelecer suas próprias verdades. Quem faz jornalismo independente conhece bem essa realidade. Também conheço o preço que ela cobra.
As marcas mais profundas nem sempre são visíveis. São noites sem dormir, preocupações que ficam restritas aos mais próximos, ataques pessoais, ameaças veladas ou explícitas e tentativas permanentes de intimidação.
Ao longo da minha trajetória, já fui alvo de pressões, intimidada em meu local de trabalho, respondi a processos, fui condenada, fui absolvida e enfrentei tentativas de silenciamento. Também já errei, como todo ser humano. Mas nunca deixei de acreditar que o jornalismo existe para servir à sociedade, e não aos interesses dos poderosos.
Escolhi ser essa operária da comunicação. Escolhi fazer esse jornalismo que, talvez, não se aprenda na academia. Aprendi fazendo, nas ruas, quando o jornalismo me escolheu.
Confesso: em muitos momentos tive razões suficientes para desistir. Mas sempre me recordo de uma frase que atravessa gerações: “Paz sem voz não é paz, é medo”.
Nestes 35 anos aprendi que a coragem não é ausência de medo. É a decisão de seguir em frente apesar dele.
Por isso, neste aniversário profissional, quero celebrar uma vitória que considero simples, mas extremamente significativa.
Em junho de 2025, após divulgar documentos públicos que foram juntados aos autos de uma Ação de Investigação Judicial Eleitoral e que também integravam inquérito instaurado pela Polícia Federal para apurar a prática de supostos crimes eleitorais atribuídos à vereadora de Juazeiro Anna Laura Souza Campelo de Oliveira Santos, casada com ex-vereador e policial federal, o médico empresário Dalmir Pedra, fui surpreendida por uma ação judicial que exigia a retirada das publicações.
Não bastasse o pedido de remoção do conteúdo, a ação ainda me acusava da prática de crimes contra a honra e contra a administração da Justiça, além de pleitear uma indenização em valor muito superior às minhas condições financeiras.
Esse tipo de processo tira o sono de qualquer pessoa. Tira o sono de uma mãe, de uma profissional para quem cada centavo importa.
Mas, desta vez, a liberdade de imprensa e o livre exercício do jornalismo prevaleceram. Em minha defesa atuou o advogado Gabriel Vianna.
Na sentença proferida pelo juiz da 1ª Vara Cível de Juazeiro, foi reconhecido aquilo que sempre defendi: que o trabalho jornalístico foi realizado dentro dos limites constitucionais e com base em documentos oficiais.
Nas palavras do magistrado: “A ré não abusou do direito de informar. Pautou-se pelo dever constitucional de imprensa ao expor à população, com base em documentos oficiais (Laudo da Polícia Federal), a existência de investigação sobre fatos de interesse público, indicando a origem das informações e o resultado da demanda judicial.”
Mais adiante, a decisão registra que agentes públicos estão sujeitos ao escrutínio da sociedade quando os fatos envolvem questões de interesse coletivo: “A autora é vereadora eleita do Município de Juazeiro/BA, ocupante de cargo eletivo na administração pública. Como agente política, submete-se a um nível mais intenso de escrutínio público e de exposição social, o que exige maior tolerância a críticas e a veiculação de informações de interesse coletivo.”
E conclui: “No caso, as publicações da ré versavam sobre fatos diretamente relacionados ao exercício do mandato eletivo e à regularidade do processo eleitoral, matérias de evidente interesse público. A divulgação de que o motorista de campanha da candidata foi preso em flagrante portando vales-combustível e dinheiro na véspera da eleição, e de que o laudo da Polícia Federal apontou indícios de crimes eleitorais, insere-se no legítimo direito da sociedade de ser informada sobre a lisura do pleito. O direito de informar, em situações como a presente, prevalece sobre a proteção da imagem do agente político, desde que a informação seja verdadeira ou verossímil e veiculada sem abuso ou intenção de difamar, como ocorreu no caso concreto”.
Mais do que uma vitória jurídica, recebi a confirmação de algo que sempre procurei preservar: a lisura e a independência do meu trabalho.
E assim seguimos. Continuarei sendo questionada, contrariando interesses e incomodando aqueles que preferem o silêncio à transparência. Faz parte do ofício.
Por isso, ao completar 35 anos de profissão, renovo a escolha de continuar sendo uma voz a serviço da informação, da fiscalização do poder e do direito que cada cidadão tem de conhecer os fatos.
Fazer jornalismo é um ato permanente de coragem e resistência. Quero sossego, é verdade. Mas sei que ele nem sempre estará disponível para quem escolhe fazer jornalismo independente. Contudo, a consciência tranquila de cumprir o próprio dever continua sendo a maior recompensa.
Escolhi a liberdade. Escolhi tomar para mim as dores do mundo e ter essa capacidade contumaz de indignação.
E, a despeito do que digam de mim, para o bem ou para o mal, escolhi ser Sibelle Fonseca.
E desse ofício, eu não abro mão.
Por Sibelle Fonseca



