Um leitor do PNB, que atua no setor cultural do Vale do São Francisco, compartilhou uma reflexão sobre a política cultural adotada nos municípios de Juazeiro e Petrolina. No texto, ele faz uma comparação nas ações desenvolvidas pelo setor e chama atenção para a ausência de integração entre as duas cidades, quando o tema é cultura: “nem sempre ocorre em mão dupla”.
Confira
É inegável que Juazeiro vem se consolidando como o grande polo cultural do Vale do São Francisco. Nos últimos anos, a cidade tem demonstrado uma notável capacidade de produzir, acolher e fomentar manifestações artísticas das mais diversas linguagens. Eventos como a Juá Literária, as celebrações em torno da Bossa Nova, e iniciativas esportivas evidenciam um ambiente cultural cada vez mais dinâmico, plural e democrático.
Nesse contexto, um aspecto chama a atenção de forma bastante positiva: a presença crescente de artistas petrolinenses nas programações culturais realizadas em Juazeiro.
Músicos, escritores, atores, produtores e diversos agentes culturais da cidade vizinha encontram espaço, visibilidade e acolhimento do lado baiano do rio. Isso demonstra uma importante maturidade cultural. Juazeiro parece ter superado antigas fronteiras do bairrismo e compreendido que a cultura se fortalece justamente quando estabelece pontes, e não muros.
Essa abertura merece ser reconhecida e celebrada.
Entretanto, ao mesmo tempo em que Juazeiro amplia seus horizontes, uma questão passa a surgir com frequência nas conversas entre artistas e produtores culturais da região. Embora exista uma relação histórica, econômica e afetiva profundamente simbiótica entre as duas cidades, percebe-se que essa integração nem sempre ocorre em mão dupla.
Petrolina cresceu e cresce o tempo todo. Tornou-se uma cidade cada vez maior, mais rica, mais estruturada e economicamente mais pujante. Contudo, esse crescimento nem sempre se refletiu na construção de uma política cultural igualmente robusta.
Os investimentos públicos destinados à cultura parecem concentrar-se, sobretudo, em grandes eventos, especialmente no ciclo junino, marcado por espetáculos de enorme porte, artistas nacionais e produções milionárias.
Não há qualquer demérito em promover grandes festas. Elas movimentam a economia, impulsionam o turismo e fortalecem diversos setores produtivos. O problema surge quando praticamente toda a política cultural passa a ser identificada com esse modelo. A diversidade artística acaba perdendo espaço e muitos fazedores de cultura deixam de encontrar oportunidades em sua própria cidade.
É um contraste curioso. A chamada “Califórnia do Sertão”, reconhecida por seu desenvolvimento econômico e por sua importância regional, por vezes parece oferecer poucas vitrines para a produção artística que nasce em seu próprio território.
Muitos artistas petrolinenses acabam encontrando em Juazeiro o reconhecimento, o palco e as oportunidades que não conseguem conquistar em casa.
Por outro lado, observa-se que os artistas juazeirenses raramente aparecem nas grades dos poucos eventos culturais promovidos em Petrolina.
Não se trata de contabilizar convites ou estabelecer uma disputa entre cidades. Trata-se apenas de reconhecer uma percepção que vem se tornando recorrente: a reciprocidade ainda parece insuficiente.
É importante deixar claro que essa reflexão não pretende ressuscitar antigas rivalidades entre Juazeiro e Petrolina. Ao contrário. O Vale do São Francisco é uma região cuja identidade foi construída justamente pelo diálogo entre as duas margens do rio. O intercâmbio cultural sempre foi um dos maiores patrimônios desse território.
Talvez seja exatamente por reconhecer essa história compartilhada que seja legítimo defender relações mais equilibradas.
Se Juazeiro abre suas portas com naturalidade para artistas petrolinenses, seria igualmente saudável que Petrolina ampliasse seus espaços para receber artistas juazeirenses. Essa troca beneficiaria não apenas os profissionais da cultura, mas sobretudo o público, que teria acesso a uma produção artística regional extremamente rica e diversa.
A cultura não perde quando compartilha espaços. Pelo contrário, ela cresce.
O fortalecimento de uma cidade não depende do enfraquecimento da outra. As duas podem prosperar juntas, valorizando seus talentos, estabelecendo parcerias e construindo uma programação verdadeiramente integrada.
Se Petrolina é, com justiça, lembrada por sua grandeza econômica, talvez esteja na hora de transformar essa grandeza também em generosidade cultural. E, quem sabe, fazer com que a relação entre as duas margens do São Francisco seja marcada não apenas pela proximidade geográfica, mas também pela reciprocidade, pelo respeito e pela valorização mútua de seus artistas.
Redação PNB



