Para quem, assim como eu, nasceu e se criou em Juazeiro, sabe perfeitamente que o 7 de setembro não é um evento trivial: é tradição viva que vem perpassando gerações, com suas bandas, seus colégios, suas famílias nas calçadas e, sim, a presença dos candidatos que, neste ano eleitoral, se misturam à celebração da Pátria. Respeito essa tradição profundamente. E foi justamente ali, na avenida, há tempos, que para mim, a política deixou de ser conceito para se tornar carne.
É uma tradição belíssima, que nos lembra que somos uma comunidade. Mas, enquanto alguns aplaudiam, eu sentia um incômodo silencioso. Não contra os candidatos — respeito a todos que se dispõem a esse ofício espinhoso. O incômodo era contra algo mais antigo, mais subterrâneo: um processo histórico que, no Brasil, vem transformando a figura do político em alvo sistemático de desconfiança, cinismo e, no limite, ódio.
Não é acaso. É projeto. E as consequências são nefastas.
Há décadas, construiu-se entre nós uma narrativa: “político é tudo igual”, “ninguém presta”, “a política não muda nada”. Essa fala, repetida até virar senso comum, não nasceu da espontânea sabedoria popular. Ela foi fabricada — por maus políticos, justamente aqueles que lucram com a apatia dos bons. Porque um povo que desacredita da política é um povo que não fiscaliza, não cobra, não participa. E um povo que não participa torna-se rebanho fácil de conduzir. O niilismo político não é um fenômeno natural; é uma arma de destruição da cidadania, empunhada por quem teme o olhar atento da sociedade.
Platão já nos advertia: as sombras na caverna podem ser manipuladas. Quem controla a projeção das imagens (narrativa) controla o que os prisioneiros acreditam ser a realidade. No Brasil, a “fritura” sistemática da classe política — os escândalos midiáticos, a generalização da corrupção, o tratamento jocoso dado a qualquer mandato — tem um efeito claro: fazer com que o cidadão comum, cansado e desiludido, desista de olhar para fora da caverna. “Pra quê votar? Pra quê se interessar?” — essa pergunta, repetida aos ouvidos, é a corrente mais forte que há. E quem a forjou não quer que você a questione.
A política, que é a ciência arquitetônica da sociedade, ou seja, tem o potencial de regular todas as ações humanas, está sendo desmontada pelos seus próprios operários. Porque, quando a sociedade perde a confiança na possibilidade de ordenar o bem comum, ela se fragmenta em individualismos predatórios. Cada um cuida de si, a cidade se desagrega, e os que já detêm o poder — econômico, midiático, político — ampliam seu domínio sobre um território sem resistência. A fritura do político é, portanto, um golpe contra a própria arquitetura social; é o arquiteto que incendeia a planta para que ninguém mais possa construir.
A linguagem constrói realidades. Quando dizemos “todo político é corrupto” como um mantra, sem distinguir, sem examinar, criamos uma forma de vida onde a desconfiança é a única moeda. E essa forma de vida beneficia aqueles que, de fato, são corruptos, porque eles se escondem no meio da multidão genérica. É o velho truque: nivelar todos por baixo para que o verdadeiro desvio pareça normal. A linguagem do niilismo político é, em si, um jogo de poder — e os maus políticos conhecem suas regras melhor do que ninguém.
Eric Voegelin, eminente filósofo político, identificaria aí a “revolta egofânica” em sua forma mais perversa: a tentativa de destruir a consciência da ordem para que a desordem se estabeleça como único horizonte. Quando o bom cidadão desiste de crer que a política pode ser nobre, ele entrega a cidade àqueles que nunca quiseram que ela fosse nobre. O niilismo político é a vitória antecipada dos que governam sem legitimidade — porque, sem expectativa, não há cobrança; sem esperança, não há revolta.
No 7 de setembro em Juazeiro, enquanto os candidatos desfilavam, pensei: quantos ali, olhando para eles, já estão contaminados por esse veneno histórico? Quantos já internalizaram a ideia de que “não adianta” e, por isso, nem sequer prestam atenção no que aqueles homens e mulheres estão dizendo? A tradição do desfile — bela, cívica, emocionante — corre o risco de se tornar apenas folclore se não for acompanhada pela vigília crítica que a política exige.
Por isso, insisto: interessar-se por política é o ato de recusar o niilismo. É dizer que a figura do político pode ser maculada, sim, mas não pode ser liquidada; que o processo histórico de fritura não vencerá enquanto houver quem olhe com seriedade para as propostas, quem distinga o joio do trigo, quem exija transparência e puna o desvio. Os maus políticos querem que você desista. Eles lucram com o seu cansaço. Mas a política não é deles — é nossa. A arquitetura da sociedade não pertence aos que a degradam, mas aos que a habitam.
Interessar-se por política, portanto, é um ato de resistência histórica e um dever. É devolver à figura do político sua dignidade possível, sem ingenuidade, e retirar dos maus políticos a arma da apatia. Porque, quando você se interessa, o círculo se abre. E um círculo aberto é a maior ameaça que eles conhecem.
Pablo Bandeira, juazeirense, Advogado, formado em Direito pela FACAPE, com atuação em Direito Penal e Cível, produtor de textos sobre filosofia e ciência política



