“Chá de Revelação: Quando o muro caiu, apareceu o lado”, por Sibelle Fonseca

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Durante boa parte da campanha eleitoral na Bahia, ACM Neto escolheu cuidadosamente o lugar onde queria estar: em cima do muro. Não era exatamente neutralidade, mas  estratégia.

Enquanto disputava o governo do Estado, Neto evitou confrontar Lula diretamente, manteve distância pública do bolsonarismo e tentou preservar a possibilidade de conversar com um eleitorado que votaria no presidente, mas poderia escolher outro nome para governador. O chamado “Lu-Neto” expôs essa tentativa de separar as duas eleições.

Naquele momento, a conveniência política recomendava cautela. Depois da derrota, aparentemente, não mais.

Nesta quarta-feira (7), apenas três dias depois de ser derrotado nas urnas por Jerônimo Rodrigues, ACM Neto anunciou seu apoio ao filho de Jair Bolsonaro no segundo turno presidencial, prometendo mobilizar prefeitos, deputados e todo o seu grupo político na Bahia em favor do candidato do PL.

Há quem chame isso de pragmatismo, estratégia, mas é justo que o eleitor inteligente questione se aquela neutralidade apresentada durante a campanha era, de fato, convicção ou apenas conveniência eleitoral.

O governador Jerônimo Rodrigues foi direto ao classificar a antiga neutralidade de Neto como “oportunismo eleitoral” e “propaganda enganosa”. O homem que evitava uma associação explícita com o bolsonarismo no primeiro turno tornou-se, no segundo, um aliado declarado de Flávio Bolsonaro.

Enquanto havia votos em disputa para o governo da Bahia, era conveniente não escolher um lado na eleição presidencial. Quando a eleição estadual terminou e o resultado não foi o esperado, eis que, numa velocidade impressionante, o neto do carlismo desceu do muro.

Ele aposta no eleitor abobalhado que não observa, nem compara e sequer tem memória. O eleitor peça de Xadrez.

Não se trata de questionar o direito de ACM Neto escolher quem apoiar. Ele tem esse direito, assim como qualquer cidadão, partido ou liderança política.

A questão é que lhe falta coerência.

Se Flávio Bolsonaro era o projeto político que Neto realmente considerava melhor para o Brasil, por que não assumir isso claramente durante a campanha? Se não era, o que mudou em apenas três dias?

O chá de revelação do carlista, declarando apoio ao bolsonarista, o que para mim não foi nenhuma novidade, pode ser lida como o retrato de uma estratégia política que mudou depois que as urnas deram seu veredito.

Primeiro, a tentativa de não perder votos. Depois da derrota, a escolha explícita pelo projeto político que sempre esteve entranhado nas suas origens.

O certo é que a política é feita de alianças, mas também de memória.

O muro caiu e mostrou quem estava de cada lado.

Agora, cabe ao eleitor avaliar se vê nisso coerência política, pragmatismo ou simplesmente uma escolha que chegou depois da disputa que realmente interessava a ACM Neto já ter terminado.

A história já cobrou o preço a ACM Neto, derrotado duas vezes pelo PT na Bahia. Mas cobrará ainda mais, com juros e dividentos.

Isso é lá qualidade de político?

Por Sibelle Fonseca

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