A política não se reduz a programas, instituições ou cálculos racionais. Ela é, antes de tudo, uma questão de estética, no sentido que Jacques Rancière atribui ao termo: a “partilha do sensível”, o regime de visibilidade que define o que pode e o que não pode aparecer na esfera pública.
As ideologias políticas, nessa esteira, nunca foram apenas conjuntos de ideias; foram também formas sensíveis de habitar o mundo, modos de ver, vestir, falar e se relacionar com o corpo e com o espaço. É nesse terreno estético que se dá a identificação do eleitor com o líder, e é também nele que se produz seu avesso: a rejeição de si mesmo através do voto no oposto.
O liberalismo clássico construiu sua estética em torno da contenção, a performance de competência e a autossuficiência, que funciona como uma máscara da desigualdade. Ela transforma o sujeito em vitrine e o fracasso estrutural em culpa individual: quem não vence é responsabilizado por não ter se esforçado. Há uma estetização da superfície polida: a vitrine, o terno, o currículo, a performance de competência.
O conservadorismo, por sua vez, estetiza a “tradição”, disseminando uma nostalgia da hierarquia. Seu espelho oferece a imagem da pureza ameaçada e mobiliza o ressentimento contra o diferente, o estrangeiro e o dissidente, tentando impor uma ordem que não precisa ser justificada pela razão, apenas sentida como natural.
O socialismo, por fim, estetiza a coletividade em movimento. Sua percepção é a da horizontalidade fusional, do nós que se sobrepõe ao eu. O mundo socialista é um horizonte de emancipação, onde o sujeito se dissolve na luta comum.
As estéticas não são meros ornamentos: são padrões de conexão que preparam o terreno para a identificação política.
A TEORIA DO ESPELHO: IDENTIFICAÇÃO COM O SEMELHANTE
Por que as pessoas votam em alguém? Uma resposta poderosa vem da psicanálise. Freud já havia percebido que a identificação oferece ao indivíduo algo que ele não encontra em si mesmo: o líder funciona como espelho, e nele o sujeito enxerga a força que gostaria de possuir, a autoridade que lhe falta.
Lacan radicalizou essa intuição com o “estádio do espelho”: o eu se constitui mediante a identificação com uma imagem do outro que é também uma imagem de si. A criança se reconhece no espelho como uma totalidade que ela ainda não possui — e é essa imagem unificante que funda o eu. Transposta para a política, a estrutura é a mesma: o líder oferece ao eleitor uma imagem coesa de si mesmo, uma promessa de completude. O eleitor vota naquele que espelha o que ele gostaria de ser.
Nesse prisma, lulismo e o bolsonarismo são exemplos paradigmáticos desse espelhamento. Lula constrói uma estética do “ser e estar junto”, da coletividade que se reconhece no líder que veio de baixo, do “homem simples”. Bolsonaro, por sua vez, oferece uma estética do reacionarismo, do antiintelectualismo orgulhoso e “mitolatria”. Em ambos os casos, o eleitor encontra no líder uma imagem idealizada de si.
A predominância dessas duas estéticas não diz respeito apenas aos líderes, mas revela uma radiografia profunda do status atual da massa brasileira. Não estamos diante de um povo que escolheu dois projetos de país, mas de uma massa que foi historicamente abandonada e que busca, desesperadamente, um espelho que a reconheça.
Mas há um fenômeno que a teoria do espelho não explica completamente: e quando o eleitor vota contra a imagem que o espelho lhe oferece? Quando ele rejeita o semelhante e escolhe o diferente — não por admiração, mas por repulsa a si mesmo? Aqui entra a teoria do contraste (que proponho como complemento à teoria do espelho). Em contextos de polarização afetiva intensa, forma-se o que a ciência política chama de partidarismo negativo: uma identidade política definida não pela adesão a um grupo, mas pela rejeição estável a um exogrupo percebido como ameaçador. No Brasil, o antipetismo e o antibolsonarismo estruturaram o campo político de forma cada vez mais hostil e emocionalmente carregada, com eleitores unidos para barrar o avanço do outro lado considerado inaceitável.
O eleitor negativo escolhe um lado não por identificação, mas para evitar a vitória do candidato mais rejeitado. Ele não vota em alguém; vota contra alguém. E, ao fazê-lo, pode estar votando contra aquilo que ele próprio é — ou que teme ser.
A explicação psicanalítica é intrigante. Na melancolia, Freud descreveu um processo em que o objeto perdido é erigido dentro do próprio eu, e o eu se volta contra si mesmo com a mesma agressividade que dirigia ao objeto. Transposto para a política: o eleitor que rejeita profundamente uma identidade política — digamos, a identidade “petista” ou “bolsonarista” — pode estar rejeitando uma parte de si mesmo que não consegue integrar. Ele projeta no adversário tudo o que não suporta em si: a dependência, a passividade, a vergonha de classe, o medo da insignificância.
O voto no oposto é, nesse sentido, uma tentativa de cura pela negação. Ao votar contra o espelho que lhe devolve uma imagem insuportável, o eleitor busca uma imagem alternativa de si — uma imagem que ele não reconhece como sua, mas que lhe promete não ser aquilo que ele teme ser. É um voto de fuga de si, não de encontro consigo.
Compreender essa dinâmica é urgente. Porque se a política é uma questão de estética — de visibilidade e de reconhecimento —, então a luta política é também uma luta pelo direito de aparecer, de ser visto, de não precisar fugir de si mesmo para existir na esfera pública.
E talvez a tarefa mais difícil da democracia seja construir espelhos que não precisem ser quebrados.
Pablo Bandeira, juazeirense, Advogado, formado em Direito pela FACAPE, com atuação em Direito Penal e Cível, produtor de textos sobre filosofia e ciência política



