Campanha contra eleitores de Lula incentiva demissões e boicotes; advogado alerta para possíveis consequências jurídicas

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Após o resultado das eleições presidenciais de 2026, mensagens que incentivam um movimento de boicote a eleitores do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) passaram a circular nas redes sociais e em grupos de mensagens em diferentes regiões do país. As publicações defendem a demissão de trabalhadores identificados como petistas, a recusa em contratar apoiadores do presidente e o boicote a estabelecimentos comerciais e empresas ligados a eleitores do PT.

No Vale do São Francisco, segundo informações recebidas pelo Portal Preto no Branco, mensagens com esse teor estão sendo compartilhadas em grupos de WhatsApp ligados ao agronegócio da região. Uma das imagens encaminhadas traz o título “Campanha não ajude petista” e orienta os participantes a não indicar apoiadores do PT para vagas de trabalho, não fazer negócios com eles, não comprar em estabelecimentos de comerciantes petistas e não oferecer solidariedade.

A publicação também afirma que “seu dinheiro, seu trabalho e sua solidariedade” são formas de posicionamento político.

Em uma mensagem encaminhada junto à imagem, um participante de um dos grupos defende a iniciativa como uma forma de “moralizar o agro”. Ele afirma que a proposta não seria crime nem perseguição, mas uma “questão de valores”.

Outro caso foi registrado em Serra Talhada, no Sertão de Pernambuco. A médica Ivanice Mello, apoiadora de Flávio Bolsonaro, usou as redes sociais para publicar mensagens contra eleitores de Lula e defender que pessoas identificadas com o PT sejam excluídas de relações comerciais e profissionais.

Em uma das publicações, ela escreveu: “Não ajude petista, não empregue petista e não compre de petista. Merecem o presidente que tem!”

Em outro post, a médica afirmou: “É fácil apoiar o socialismo e viver no capitalismo”. Na sequência, declarou que não gastaria mais dinheiro com comerciantes ou prestadores de serviços petistas e sugeriu que essas pessoas recorressem aos auxílios do governo.

As publicações também incluem mensagens que incentivam demissões e a substituição de prestadores de serviços por causa de seu posicionamento político.

“Se tem empregada doméstica que é petista, mande embora. Tem funcionário que é petista, demita. Seu barbeiro é petista, troque de barbeiro. A porcaria do voto dele prejudica o seu negócio, a sua família e toda a sua vida”.

A circulação desse tipo de conteúdo também envolve parlamentares eleitas pelo Partido Liberal (PL). A deputada estadual eleita pelo Paraná Jessica Ramos Moreno, conhecida como “Jessicão”, e a deputada estadual Índia Armelau, eleita para a Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro, compartilharam publicações que incentivam retaliações contra trabalhadores que votaram em Lula.

Em uma das mensagens, Jessicão pede que seguidores “demitam o mal” caso tenham funcionários que votem no PT. Ela também sugere deixar de frequentar estabelecimentos que empreguem eleitores do presidente e romper relações de amizade com apoiadores do petista. A parlamentar justifica o posicionamento afirmando que o voto dessas pessoas prejudicaria os negócios, a família e a vida de quem pensa diferente.

Já as publicações compartilhadas por Índia Armelau incentivam empresários a verificar o posicionamento político de seus funcionários. Uma das mensagens recomenda consultar as redes sociais dos empregados para identificar quem fez o gesto de “L”, associado à campanha de Lula. Os conteúdos também levantam suspeitas sobre o resultado da eleição presidencial.

Ao PNB, o advogado João Macário esclareceu que as medidas tomadas contra trabalhadores em razão de suas convicções políticas podem gerar questionamentos jurídicos, conforme as circunstâncias e as condutas adotadas.

“É importante esclarecer que o assédio eleitoral não termina necessariamente com o encerramento das eleições. Nenhum trabalhador pode ser ameaçado, perseguido, constrangido ou sofrer retaliações em razão de suas convicções políticas. Da mesma forma, essas campanhas que incentivam o boicote a trabalhadores, comerciantes e prestadores de serviços simplesmente por apoiarem determinado partido político merecem atenção. A Constituição Federal assegura a liberdade de pensamento, o pluralismo político e a dignidade da pessoa humana. É preciso compreender que determinadas falas, ameaças e incitações à perseguição ou à discriminação, inclusive nas redes sociais, podem configurar crimes, além de gerar responsabilização civil e pagamento de indenizações. Dependendo da conduta praticada e de suas consequências, pode haver inclusive pena de prisão. A divergência política faz parte da democracia. O que não podemos admitir é que ela seja utilizada como instrumento de intimidação, perseguição e violação de direitos.”

Macário destaca ainda que “os comerciantes e profissionais ofendidos, devem procurar formalmente um advogado ou advogada que levará o caso ao conhecimento da autoridade policial competente”.

Denúncia

O Ministério Público do Trabalho (MPT) divulgou que continua recebendo denúncias de assédio eleitoral mesmo com o fim das eleições.

“Podem ser denunciadas tanto as condutas praticadas durante a campanha quanto as que surgiram depois do resultado, como ameaças de demissão, recusa de contratação e outras represálias por causa do voto. O voto é livre e secreto. Ninguém é obrigado a revelar em quem votou, e ninguém pode ser punido pela escolha que fez. Quem sofreu ou presenciou esse tipo de pressão pode denunciar pelo site do MPT, de forma remota e sigilosa. Guardar provas como prints, áudios, mensagens e nomes de testemunhas ajuda na apuração.
​E não se esqueça: quem manda no seu voto é você”.

Redação PNB

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