“Trata-se de uma fatalidade”, diz Secretária sobre acusação de negligência contra a maternidade de Juazeiro

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Na tarde de ontem (17) foi sepultado no cemitério central de Juazeiro, o corpo da recém-nascida Ana Liz, que morreu no Hospital da Mulher, em Juazeiro.

Segundo familiares de Luíza Evandra da Silva, mãe do bebê, Ana Liz morreu ainda na barriga da mãe, depois de ter esperado por mais de 24 horas para que o parto fosse realizado.

Ainda de acordo com familiares, Luíza Evandra teve uma gravidez tranquila e fez todo o pré-natal. Na última quinta-feira( 15), já sentindo as dores, ela foi internada na maternidade, mas o parto só foi realizado na sexta (16) à noite, após mais de 24 horas.

Ainda segundo a família, mesmo com os sinais de parto, a médica que atendeu a gestante informou que teria que esperar a evolução do trabalho de parto, para que o procedimento fosse realizado e somente após perceber que o coração da bebê já não batia mais, a gestante foi submetida a uma cesariana, como relataram familiares que acompanhavam Luíza Evandra.

Abalada, a família da jovem acusa a médica e o hospital de negligência.

Nós conversamos com Fabíola Ribeiro, Secretária de Saúde e Diretora Médica da Maternidade Municipal e ela nos informou que “o prontuário da paciente está todo muito bem documentado. A paciente já havia sido submetida a uma cesariana anteriormente e foi internada, na tarde de quinta, com 4 cm de dilatação. Somente por volta da 22 horas chegou a dilatação completa. Uma evolução dentro do habitual. No momento final foi percebida desaceleração de ausculta fetal e ela foi encaminhada direto para a cesariana. Na cirurgia a médica detectou que o útero estava rompido e automaticamente quando isso ocorre, o bebê vai a óbito por falta de fluxo para o feto”, afirmou a secretária.

Fabíola Ribeiro também ressaltou que desde ” o último episódio que tivemos em agosto já foram realizados na maternidade mais de 800 partos e não houve nenhum óbito”.

Por meio de nota enviada a nossa redação, a secretária detalhou o atendimento prestado a paciente.

Veja a nota na íntegra:

Venho por meio desta, prestar esclarecimentos com relação ao caso da paciente Luiza Evandra Silva de Brito. A Sra Luiza deu entrada na triagem obstétrica do Maternidade Municipal de Juazeiro-BA às 10h do dia 15/02/2018, foi atendida e mantida em observação, pois ainda estava em pródromos de trabalho de parto ( tinha colo uterino
com 4 cm de dilatação, ainda sem contrações ativas).

Tal fase (pródromos) antecede o trabalho de parto propriamente dito e se caracteriza por incômodos em baixo ventre, devido a contrações fracas e não ritmadas, com dilatação do colo menor que 5 cm. Esta fase pode durar algumas horas ou até dias, e não é indicação de internamento. Mesmo não estando internada, a Sra Luiza foi avaliada pela equipe de plantão. Em todas as avaliações todos os parâmetros estavam dentro da normalidade. No dia 16/02/18, as contrações aumentaram de intensidade, e a Sra Luiza foi internada às 11h, já iniciando
trabalho de parto.

Conforme registro de prontuário, o trabalho de parto evoluiu satisfatoriamente, dentro da normalidade: aumento progressivo da intensidade e frequência das contrações, aumento da dilatação do colo, frequência cardíaca fetal
sempre normal e sinais vitais maternos também dentro da normalidade.

As 22h, a dilatação estava completa e o trabalho de parto em sua fase final (período expulsivo). Neste momento, não se conseguiu auscultar os batimentos cardíacos fetais, sendo indicada cesariana de urgência e prontamente encaminhada ao centro cirúrgico.

Durante a cirurgia, observou-se que o feto não estava mais com vida. Observou-se que havia descolamento placentário e área de ruptura uterina no local onde a placenta estava inserida. Havia ainda ruptura do cordão umbilical. A explicação mais plausível para tal fatalidade, é que o cordão umbilical curto tenha tracionado a placenta no momento da expulsão fetal.

Consequentemente à esta tração, houve o descolamento placentário. A área da parede uterina onde estava a placenta ficou fragilizada e rompeu. Todos estes eventos aconteceram de maneira abrupta e rápida, por isso não apresentou sinais clínicos prévios que pudessem sugerir a iminência de tais acontecimentos. O restante da cirurgia aconteceu sem intercorrências, sendo realizada a sutura da área uterina rompida. Foram realizadas manobras de reanimação neonatal, sem sucesso.

Após a cirurgia, a Sra Luzia Evandra permanece estável, e segue aos cuidados da equipe do hospital sem sinais de gravidade. A rotura uterina é uma complicação grave, que pode ocorrer durante o trabalho de parto,
apesar de pouco frequente.

A Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (2011) relata que “sua prevalência é 0,03 a 0,08% de todos os partos, porém de 0,3 a 1,7% entre pacientes com cicatriz uterina”. O local em que o útero rompe com maior frequência é onde há uma cicatriz anterior (ex: no local de uma cesariana prévia).

No caso da Sra Luiza, a ruptura ocorreu no local da inserção da placenta (achado mais raro).O local da cicatriz da
cesariana anterior estava íntegro. O descolamento prematuro de placenta também é outro evento raro e de alta morbimortalidade fetal. Acontece em cerca de 0,4 a 7 % das gestações e é mais comum em mulheres com doenças hipertensivas, como pré eclampsia.

Na maioria dos casos, tanto o descolamento placentário quanto a ruptura uterina apresenta manifestações clínicas, como sangramento genital intenso, alterações no padrão de contração uterina e alterações na frequência cardíaca fetal.

No caso da Sra Luzia, não houve nenhum dos sinais que pudessem predizer tais acontecimentos.

Diante de tais achados, pode-se concluir que o caso em questão evoluiu de forma atípica e que trata-se de uma fatalidade: concomitância de 02 complicações graves numa mesma paciente, que aconteceram subitamente e sem sinais clínicos evidentes, culminando com o rápido óbito fetal.

A direção da Maternidade Municipal de Juazeiro-Ba deixa claro que ao tomar conhecimento do óbito fetal, procurou imediatamente apurar os fatos com os profissionais envolvidos no atendimento e avaliando os registros no prontuário, chegando a tais conclusões já relatadas.

A Maternidade realiza por mês, em média,  450 partos. Destes, cerca de 25-30% são cesarianas. No mês de janeiro, realizamos mais de 1800 atendimentos na emergência obstétrica. Nossa taxa de mortalidade é baixíssima,
chegando a números próximos de zero.

Esperamos ter esclarecido as dúvidas referentes ao caso, do ponto de vista obstétrico.
Desde já, nos colocamos à disposição para prestar os esclarecimentos que ainda acharem necessário.

Dra Fabíola Nunes Leite
Diretora Médica Maternidade Municipal de Juazeiro-BA

Da Redação

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