
Entre irmãos: como entender a construção dessa relação
As famílias que experimentam a chegada dos filhos normalmente não percebem que no mesmo cenário se inaugura tanto a formação efetiva da família quanto os conflitos gerados na construção da fratria (um subgrupo constituído pelos irmãos) que vai representar uma aliança hora amigável, hora conflituosa, mas que permite uma transformação na vida dos membros desse grupo. Mas na prática, o que isso representa?
Desde a época de Freud os relatos nos mostram, mesmo de forma tímida, a importância do irmão ou irmã para a constituição psíquica e a subjetividade do sujeito. Temática que somente a partir do século XXI pôde ser estudada com mais interesse pela área da psicologia; a Fratria ou a forma como ela se estabelece, nos faz entender muitas questões pertinentes às relações entre irmãos.
A chegada de um irmão é sempre representada pela invasão de um “estrangeiro”, aquele que com sua presença vai perturbar o equilíbrio já constituído. Seria um outro, diferente e complementar ao mesmo tempo, permitindo ao filho mais velho a identificação, a estruturação psíquica e o reconhecimento como ser social. Além de deslocar o primogênito do lugar exclusivo e privilegiado, a função fraterna vai promover sua introdução na teia das relações sociais. Melanie Klein traz uma contribuição muito interessante nesse sentido: a noção de justiça e da lei simbólica. É nessa relação que se estabelece a partilha, a negociação, o julgamento e a divisão, elementos importantes para a formação do sujeito e de sua personalidade.
Por outro lado, os filhos trazem de volta boas e más lembranças dos pais. Cada um retoma suas próprias experiências enquanto membros de uma fratria, e assim, de forma inconsciente, criam expectativas em relação aos filhos. Projetam os fantasmas de suas relações com seus próprios irmãos ou retomam as fantasias que faziam a respeito de um irmão imaginado e idealizado.
É justamente na primeira infância que a função fraterna vai promover a disputa pelo amor e a atenção dos pais. Também é nessa fase onde compartilham interesses e ambições, estruturando um companheirismo através da solidariedade mútua, protegendo uns aos outros, defendendo e atuando em causas próprias ou da coletividade. É a dinâmica familiar que vai promover a satisfação das necessidades emocionais dos irmãos.
Importante lembrar que essa função não se limita apenas a uma relação entre irmãos biológicos. Ela se dá também nas relações estabelecidas por laços afetivos na horizontalidade, onde cumprimos o papel de “adotar” algumas pessoas como irmãos, um fenômeno que pode ocorrer, por exemplo, com filhos únicos, através do vínculo estabelecido com amigos ou primos que podem durar a vida toda.
Já na idade adulta pode ocorrer um distanciamento entre os irmãos, cada um segue seu caminho trilhando sonhos e desejos individuais, se concentrando mais na estruturação da vida particular, o que não impede a amizade entre eles. A transformação de um irmão em amigo vai depender de inúmeros fatores: afinidades, diferenças e até escolhas pessoais, que vão se consolidar dentro do espaço familiar, ou seja, os pais têm papel fundamental na relação interpessoal dos filhos e principalmente na construção da função fraterna entre eles.
Luciandra Pinheiro Cabral é Psicanalista com especialização em psicoterapia infantil pelo Centro de Pesquisa em Psicanálise e Linguagem (CPPL) em Recife.




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