Sempre Aos Domingos, por Sibelle Fonseca: “Um prato de comida, pelo amor de Deus!”

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Ontem, já passava do meio dia do dia da prisão do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, quando alguém bateu na minha porta. Eu, muito ocupada, entre textos e panelas no fogo, perguntei pela janela o que deseja aquela voz que dizia “Ô de casa!”, já na intenção de dispensar a pessoa dali mesmo. Eu não podia parar o que estava fazendo e nem estava a fim de fazer sala pra ninguém. Foi quando ouvi: “Dona, me dê um prato de comida, pelo amor de Deus. Eu me sinto fraco”.

Tomei um soco no estomago! Como não acredito em acaso, não tive dúvida de que aquela voz chegou até mim para reafirmar o lado que escolhi e também a minha humanidade. Bem no dia da prisão de Lula, aquela voz me lembrou um tempo em que era comum os “esmolés”, como eram chamados, baterem nas portas, pedindo “uma esmolinha pelo amor de Deus”. Geralmente uma mulher, com uma penca de filhos, que muitas vezes ouvia como resposta: “Deus lhe favoreça, mas não tem agora não”. Essa cena era cotidiana na porta das famílias brasileiras que gostam muito de pobre. Gostam. Para servi-las ou para dar-lhes a oportunidade de serem religiosas e caridosas, aliviando suas culpas.

Uma cena que desapareceu desde que o projeto da classe trabalhadora ocupou o poder. Desde que um governo popular transformou meu país em um país muito mais justo e bem melhor para gente que pensa que nem eu. Um pais menos desigual. Onde cada brasileiro pode fazer três refeições todos os dias e sonhar com um futuro de dignidade e justiça social.

O meu sonho e o de milhões, de ter um trabalhador na Presidência do Brasil, deixou de ser utopia. E vimos em números, dados, estatísticas e provas concretas como a classe trabalhadora ascendeu. Como teve gente que saiu da miséria, do mundo dos invisíveis, como teve pobre que saiu da indignidade, como começou-se a pagar a dívida com os negros, como as mulheres passaram a ocupar os espaços, como os diferentes se impuseram e empoderaram.

Os interesses e necessidades da população mais pobre foi para o gabinete da presidência. Mulheres e negros ocuparam ministérios. Os programas sociais redistribuíram renda e garantiram qualidade de vida, poder de compra para quem nunca pôde ter nem um carnê na mão. As políticas afirmativas e de inclusão empoderaram muita gente.

Os dominantes não gostaram nada disso. Tiveram que engolir muita coisa e foi a seco. Represaram tanto ódio que hoje até entendo os batedores de panela. É desesperador mesmo pra madame ter que pagar salário mínimo a empregada que ela sempre explorou. Deve ser um horror mesmo para um branco racista ter que fazer o exame de toque retal com um médico negro. Vixe! Vou parar por aqui. A elite sempre pensou que trabalhador tem que comer em cocho e usar macacão ou uniforme de babá.

Vou voltar ao homem que me pediu um “prato de comida pelo amor de Deus”. Sentei para conversar com ele, enquanto ele almoçava. Era a primeira refeição de verdade que fazia, em dois dias, pelo que me disse. José Romálio, 36 anos, negro, magro e maltrapilho, me mostrou as mãos calejadas e disse “sou um trabalhador. Tenho três filhos, deixei minha família no Piauí em busca de emprego aqui em Juazeiro. Me disseram que aqui tinha trabalho. Mas não tá fácil, não!”

Comunicadora curiosa como sou, testei meu interlocutor sobre o tal Lula, que estava prestes a ser preso. Quer saber o que me disse Romálio? “Dona, pra nós, pobres, nunca foi fácil, mas tinha melhorado muito com o presidente Lula. Agora, já não sei o que será da pobreza. Soube que vão prender o Lula. Ele deu muita vez aos pobres e os grandes ficaram com muita raiva dele, dona”.

Conversamos um bocado e eu senti o desapontamento dele. Era o meu mesmo desapontamento. Romálio me representa.

Um homem politizado e que enxerga melhor que uma raça de gente que sentou num banco de faculdade. Lúcido, ele me descreveu a luta de classes. E ele sabia qual o seu lugar. Muita gente não sabe. Tive orgulho de mim e de Romálio. Agradeci a oportunidade de conhecê-lo. E perguntei: E agora, eleição sem Lula? Ele, sem titubear me respondeu: “E a senhora acha que ele não vai mandar dizer quem deve continuar o governo dele, é?”

Mais tarde, quando Lula disse, antes de ser preso, que: “Eu não sou um ser humano, sou uma ideia”, eu lembrei de Romálio.

É, companheiro, não adianta tentar acabar com as ideias!

“O sonho não acabou e a esperança não morreu”.

Mande as ordens, Luiz Inácio Lula da Silva! Dê a ideia! Somos muitos Romálios por aqui!

 

Sibelle Fonseca é radialista, militante do jornalismo, pedagoga, feminista, conselheira da mulher, mãe de quatro filhos, cantora nas horas mais prazerosas, defensora dos direitos humanos e uma amante da vida e de gente.

 

6 COMENTÁRIOS

  1. Emocionada com seu relato! Nada a acrescentar, a não ser “Muito obrigada!” E a todos os Lulas espalhados por esse Brasil, que sonham, acreditam e lutam por um futuro melhor nesse país!

  2. tudo o que vc postou é real,lindo,mas também triste de ver tantos brasileiros aplaudindo a prisão do maior presidente da história do Brasil;o qual só fez o bem:Lula você continua na ativa

  3. Emocionante falou tudo!! So podia ter gerado essa filha linda e inteligente minha cunhada. Beijos e nao se cale nunca precisamos desta senciblidade e inteligencia. Marcia Cunha

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