A pandemia da covid-19 tem causado diversos impactos na vida das pessoas, inclusive no que diz respeito a saúde mental. Mas você já parou para pensar como tudo isso é processado na cabeça de uma criança? Elas, que também estão tendo que enfrentar desafios para lidar com esse momento, assim como qualquer outro adulto, ao contrário do que muitos costumam pensar, também estão sujeitas à estresses emocionais, que podem desencadear, inclusive, alguns transtornos futuramente.
Camila Duarte, psicóloga clínica infantil, ressalta que existe uma cultura que costuma diminuir o sofrimento infantil, fazendo com que as pessoas caiam no equívoco de acreditar que, por serem crianças, elas não vão sentir ou perceber o momento, muito menos sentir os efeitos das consequências. A profissional reforça, entretanto, que essa nova realidade é tão delicada para elas quanto para um adulto.
“Uma coisa que a gente deve ter em mente e não devemos esquecer é que a criança é um ser humano com toda a sua complexidade, como os adultos. A gente tem muito a ideia dessa infância inocente, e isso muitas vezes destitui o caráter da criança de ter a capacidade de sentir, perceber e sofrer. As crianças, talvez, não têm a noção da gravidade e do processo como um todo, mas ela percebe que a vida dela mudou. Percebe que está mais em casa, que não ver mais os amigos, que não tem mais a liberdade a qual estava acostumada e está privada de outras coisas, que agora é obrigada a sair com máscara e passar álcool em gel na mão. Tudo isso ela percebe e sente”, explica.

(foto: arquivo pessoal)
Segundo Camila, essa situação torna o ambiente “ansiogênico” (capaz de despertar ansiedade) por si só. A especialista explica que a ansiedade é causada por uma tríade onde a pessoa se vê como alguém vulnerável, enxerga o mundo como algo perigoso e hostil e vê o futuro como algo incerto. As crianças não estão isentas de sentir tudo isso, e as maiores consequências podem aparecer no futuro.
“A ansiedade é o que mais impacta na vida das crianças hoje. Estamos nesse momento em que as crianças precisam se movimentar, de interação social e estar menos tempo diante das telas, mas não estão fazendo isso. As consequências disso a gente só vai saber no futuro. Há muitas pesquisas se debruçando sobre isso, mas ainda é tudo novo. Mas uma coisa é certa: teremos uma segunda pandemia de saúde mental, porque muitas coisas que são prioridades para manter a saúde mental de uma criança, por exemplo, como a movimentação, a interação e as brincadeiras ao ar livre, nesse momento não estão sendo possíveis. Acredito que vai haver um aumento da ansiedade e também da depressão infantil”, diz a psicóloga.
“É preciso conhecer a criança”
Por essa razão, os adultos precisam estar atentos ao comportamento dos pequenos. Alterações de humor e emoções são comuns, principalmente em momentos como esse, em que tudo parecer ter virado de ponta cabeça. Conforme explica Camila Duarte, a atenção deve ser redobrada, pois o adoecimento infantil se manifesta de diversas formas, seja em constantes momentos de tristeza ou deprimimento, mas também de irritação, nervosismo e violência. Caso essa mudança de comportamento persista por uma ou duas semanas, o aconselhável é buscar ajuda.
“O adoecimento infantil pode vir como uma teimosia, irritação, birra ou choro. Então, não necessariamente uma criança que está em adoecimento, fica tristinha, sentadinha. Mas é preciso conhecer a criança antes. Como ela se comportava antes e como ela se comporta agora? É um passo importante para saber se algo está errado ou não”
Camila reforça que nunca é cedo para buscar um psicólogo, mas destaca que, às vezes, a demora, além de agravar a situação da criança, pode acarretar na adoção de um tratamento mais complexo.
“Não que o profissional não vá ajudar em momentos mais críticos, mas, às vezes, quando chega numa situação mais delicada, precisa ir para o psiquiatra para depois voltar para a terapia. Às vezes vai ter que entrar com intervenção medicamentosa para algo que poderia ter sido resolvido apenas com a terapia. Então é muito importante se, caso note essa alteração, busque um psicólogo. Temos profissionais oferecendo serviços de várias formas, presenciais e virtuais também”, reforça.
É preciso levar em conta que os transtornos que surgem na infância e adolescência também podem afetar os indivíduos normalmente saudáveis em plena fase produtiva e de desenvolvimento, com prejuízos cumulativos até a idade adulta.
As crianças precisam saber o que está acontecendo
Esse ponto é extremamente importante, afinal, é praticamente impossível tentar esconder o que está se passando. Claramente as crianças conseguem notar seja através de meios de comunicação, ou até mesmo pelo comportamento de seus pais e demais parentes do convívio diário, e também pelas mudanças da rotina e do ambiente, conforme foi explicado. Isso também deve ser motivo de atenção para os pais.
A profissional destaca, entretanto, que as crianças não precisam saber de tudo. Algumas informações são desnecessárias para ela e também podem acarretar no adoecimento mental.
“Os adultos precisam dessas informações de números de casos, de como está a situação pandêmica, para, inclusive, tomar suas decisões diárias. Mas as crianças não têm esses compromissos, então ela não precisa saber a quantidade de mortes no dia, como também não precisa estar na sala na hora do jornal, pois isso pode ser gerador de ansiedade. Mas, ao mesmo tempo, não dá para criar a criança numa bola. Os pais devem explicar o que é o coronavírus, os cuidados, precisam mostrar para ela que quanto mais ela estiver seguindo os protocolos de higiene, mais cedo ela vai ter a vida dela normal. A informação precisa ser dada, mas precisa ser controlada, sem detalhes pandêmicos para não gerar ansiedade na criança.”
Diversos conteúdos estão disponíveis na internet e podem orientar os pais a como falar sobre o assunto com a criança.
Pais estressados, crianças estressadas
A criança está em um momento de aprendizado. Naturalmente elas nascem com essa predisposição para observar e aprender como lidar com o mundo e as coisas. Dessa forma, a psicóloga explica que a forma como os adultos estão lidando em casa, vai influenciar o comportamento dela. Diante disso, o adulto também deve observar seu comportamento. A psicóloga explica que às vezes é mais vantajoso que o adulto busque ajuda primeiramente.
“Se você sente que está muito ansioso, que a casa está mais estressada e que a rotina não está legal, com todas as ressalvas, claro, pelo que estamos vivenciando, busque auxílio para lidar melhor com as suas próprias emoções, pois consequentemente você vai estar mais preparado para lidar com a criança. Como eu posso oferecer à minha criança um ambiente de calma, paz e tranquilidade, se eu não tenho ela em mim? É importante não exitar em buscar ajuda, pois no processo terapêutico você vai aprender a identificar essas demandas e lidar melhor com elas, e consequentemente a criança que você convive vai ser beneficiada”, reforça.

(foto: Eyecrave/Getty images/SAÚDE é Vital)
Fazer o possível
Essa, segundo Camila Duarte, é a melhor dica para amenizar as consequências da pandemia na saúde mental das crianças. Tentar fazer o que está acima das possibilidades pode ter um efeito reverso, e, ao invés de ajudar, pode trazer malefícios para a relação familiar.
“Eu sempre digo que o que é preciso fazer para amenizar a situação é fazer o possível. A gente tem uma pressão muito grande de fazer o impossível, de se sobrecarregar para dar conta de tudo, e é um momento que ninguém está dando conta de nada. É preciso se perdoar e dar tempo ao tempo.”
A psicóloga considera que, nesse momento, os pais não devem se preocupar tanto com o conteúdo da escola, mas investir em atividades que façam com que a criança saia da tela, estimulando sentidos e estímulos, e que ajudam a desenvolver a coordenação motora.
“Atividades como quebra-cabeça, de tabuleiro, de colorir, coisas que exijam dela uma coordenação e um raciocínio crítico, o que é muito importante para a infância, são boas apostas.”
Outra importante dica da profissional é revisitar e estabelecer as prioridades da família, tentando criar um equilíbrio entre a saúde mental de todos.
“Não adianta que meu filho seja super assistido, se no final do dia eu não tenho mais saúde mental e fico estressada, gritando, e não consigo dormir. Não vale a pena. A criança vai adoecer do mesmo jeito. É preciso buscar um equilíbrio saudável. Se for preciso que a criança fique um pouco mais de tempo na tela, não tem problema se você está atento para distraí-la também de outra maneira. Estamos em um momento atípico e que exige atitudes atípicas. Precisamos ser muito flexíveis nesse momento e não se exigir tanto. Não existe uma fórmula pronta. Reuniões semanais de família, para avaliar como foi a semana, dizer o que chateou ou o que foi bom, é uma boa maneira da gente ter uma vida em conjunto mais harmônica e tranquila”, sugere.
Aprendizado?
Momentos bons e ruins podem ser geradores de aprendizado se as pessoas que estão vivenciando-0s, estão dispostas a aprender. Esse momento, inclusive, deve ser visto pelas famílias como uma oportunidade de avaliar como estava sendo o dia-a-dia antes da pandemia e também para fazer as crianças se integrarem mais às atividades cotidianas.
“Quantos pais se depararam e falaram ‘quem é essa criança que mora comigo?’. É sim um momento de presença, apesar dos próprios adultos estarem também em sofrimento, mas não deve virar uma pressão. Também não devemos romantizar e dizer que é o momento de ficar a todo momento com seus filhos. Isso pode gerar adoecimento também. Mas é um momento inclusive da criança aproveitar mais a casa, os pais e de se enquadrarem na rotina. Quantas crianças nunca lavaram um prato e tiveram que se engajar nas atividades domésticas para desafogar a mãe e o pai? Tudo é aprendizado. É um momento importante para a criança saber que a roupa não surge limpa no guarda-roupa do nada, que a casa não fica limpa com o estalar dos dedos. Tudo isso é importante. Bom também para desenvolver a criatividade, buscar estratégias”, reforça a psicóloga.
Camila Duarte acrescenta ainda que cada família vai ter sua peculiaridade, suas dores, dificuldades, e que, portanto, é preciso que cada uma faça suas próprias avaliações.
“Não existe uma fórmula e um jeito pronto. A maior sugestão que eu dou é olhar para si e para sua família. Observar e anotar o que você percebe. Os motivos pelos quais vocês brigam, quando a criança fica mais estressada. Tudo isso é gerador de conhecimento. E é com essa informação que a gente vai buscar mudanças”, reforça a psicóloga clínica infantil.
Público privilegiado
“Essas informações falam de um público muito privilegiado. A gente sabe que a realidade do nosso país não é essa. Muitas crianças não estão em casa. Estão na rua, seja trabalhando ou brincando porque não têm com quem ficar pois os pais estão trabalhando. Muitas enfrentam dificuldades de acesso a coisas básicas como alimentação e água. Vivemos duas realidades muito distintas, e fica muito desafiante fazer orientações para realidades tão distintas. Temos uma realidade mais privilegiada e outra que diz mais sobre um descaso governamental do que de uma situação pandêmica exclusivamente. Não devemos esquecer que essa outra realidade existe”, pontua.
Camila Duarte é psicóloga clínica infantil (CRP 02/20425).
Da Redação por Thiago Santos