Nunca pensei no envelhecer. Não como destino, não como medo. Fui vivendo, fase por fase, como quem atravessa um rio sem saber a profundidade exata, mas confiando no próprio corpo. Houve dias de correnteza forte, em que precisei nadar contra tudo. Em outros, me deixei levar, suave, aprendendo que a vida também sabe conduzir.
Nunca fiz pacto com o tempo. Nem tentei detê-lo ou corrigi-lo. Vivi. Às vezes com bravura, às vezes com delicadeza, mas sempre inteira no que era possível ser em cada instante. E talvez seja isso que agora me oferece essa sensação rara: a de não estar em dívida comigo.
Houve um momento em que o espelho me perguntou quem eu era. As linhas que surgiram no rosto, os fios brancos, a pele que mudou de textura … tudo isso parecia anunciar uma despedida. Mas não era. Era chegada. Era o tempo me devolvendo a mim mesma, sem disfarces, sem urgência de caber em expectativas alheias.
Hoje, quando me olho, não procuro vestígios do que fui. Eu reconheço o que permaneci.
Envelhecer, para mim, não foi queda, foi revelação.
Hoje, digo sem vergonha: envelheço bem. E não é vaidade, é consciência. O espelho já me assustou, sim, mas entendi o tempo desenhando seu mapa em mim. O espanto passou. E o que ficou foi um encontro.
Eu me gosto. Gosto de me ver no espelho, gosto de me escutar. Gosto da mulher que o tempo escreveu.
Não negocio minhas marcas. Não desejo apagá-las. Não me seduz a promessa de retorno a um rosto que já não me pertence. Há uma liberdade imensa em não querer voltar. Há uma paz profunda em permanecer. Em não precisar corrigir o passado. Em não desejar um corpo que já cumpriu seu ciclo. Meu corpo agora é memória viva, essa casa habitada, não uma vitrine.
Dentro dessa casa, mora uma mulher que já não negocia sua paz. Porque o que vejo hoje não é perda, é acúmulo. É história viva. É permanência.
Existe um brilho nesse meu olhar que não se fabrica. Nenhuma intervenção alcança o que a vida lapidou. Esse brilho vem das vezes em que fui chão e mesmo assim floresci. Das vezes em que fui abrigo, mesmo precisando de colo.
Sou mãe de quatro filhos, quatro universos, quatro maneiras de amar. E entre eles, a experiência de maternar um filho que me ensinou outras gramáticas do cuidado, outras formas de presença, outras medidas de mundo. A maternidade me expandiu e me desorganizou e depois me reconstruiu maior, como quem carrega um território inteiro dentro do peito: vasto, complexo, indomável.
Sou comunicadora. Fiz da palavra minha melhor ferramenta e da escuta meu ofício. Aprendi a narrar o mundo, mas sobretudo aprendi a me reescrever dentro dele.
Entre uma urgência e outra, nunca deixei de cantar. Não me intitulo cantora, mas quando a vida me transborda é a música a quem recorro. Porque há sentimentos que não cabem em prosa, que pedem melodia, que precisam voar.
Eu sou, acima de tudo, uma mulher que aprendeu a escolher.
Escolher onde ficar.
Escolher quando sair.
Escolher o que não carregar mais.
Aos 59, não sou ausência de dores. Mas também não sou dominada por elas. O cansaço existe, mas não me define. O que me define é essa chama acesa, mais serena, talvez. Infinitamente mais consciente do que merece queimar e do necessita ascender, acender.
O desânimo não me governa. A fadiga não me nomeia. Há em mim um tesão pela vida mais honesto, mais limpo, mais meu. Um desejo que não pede licença, que apenas pulsa.
Derrubei muros. E os que restam, já não me intimidam, cabem no bolso. Aprendi que vencer não é espetáculo. É cotidiano. É silencioso. É íntimo.
Não faço mais concessões ao que me diminui. Não sustento desconfortos desnecessários.
Já não me explico tanto. Já não me justifico tanto.
Fui muitas vezes chamada de ousada. E fui. Meti os peitos na vida quando era mais fácil recuar. Confrontei quando esperavam silêncio. Segui quando o roteiro pedia desistência. E hoje entendo: era isso ou não seria eu.
Se tivesse vivido para agradar, talvez agora estivesse assombrada pela velhice, tentando deter o tempo, temendo o peso que o mundo insiste em colocar sobre os anos. Mas não. Eu escolhi viver. E viver me trouxe até aqui inteira.
Amar, para mim, deixou de ser esforço. É natureza. Mas já não aceito o que me desarmoniza. Já não me submeto ao que me apaga. Esse tempo passou.
Existe uma dignidade silenciosa em chegar até aqui sem ter traído a própria essência. Jamais quis ser perfeita, ainda bem. Fui real. Fui intensa. Fui, muitas vezes, excesso. E foi nesse excesso que aprendi a me reconhecer.
Se há vitória, ela não está nos aplausos. Está no fato de eu conseguir, hoje, habitar a mim mesma com conforto.
Sem pressa.
Sem fuga.
Sem medo.
Amar deixou de ser um campo de batalha. Tornou-se território de escolha.
Não celebro apenas o tempo vivido. Celebro a mulher que restou de tudo isso, e que, curiosamente, não é resto: é síntese.
Sou muitas em uma só. Sou passado que respira no presente. Futuro que se permite sonhar.
E se me perguntarem o que espero dos anos que virão, eu direi com a tranquilidade de quem já aprendeu o essencial: Espero continuar sendo. Com coragem. Com verdade.
Hoje, celebro a inteireza. Sou feita de tudo o que vivi e também do que recusei viver. Sou soma e sou escolha. Sou permanência e reinvenção.
Não me sinto chegando ao fim de nada.
Me sinto no auge de mim.
E, isso me basta.
Sibelle Fonseca é juazeirense, radialista, militante do jornalismo, pedagoga, feminista, humanista, mãe de Carla, Pingo, Mariana, Ananda e humana de Diana e de mais 5, cantora nas horas mais prazerosas, defensora dos direitos humanos e dos animais, uma amante da vida e das gentes.