
(foto: arquivo)
Porque hoje é sexta-feira, fui dar uma volta em Juazeiro para comprovar o que já venho observando. Acabaram com a noite da cidade. E eu não sei quem foi. A decadência me fez lembrar dos tempos em que na orla, só pra ficar neste espaço, havia um músico a cada metro quadrado, fazendo um som bom e reunindo gente bacana. Tinha luz! Hoje, a orla opaca, cinzenta, cheirando a morfo, nem de longe lembra uma terra que já foi chamada de alegria.
No Angary, onde, pelo menos, quatro espaços de entretenimento funcionavam, hoje só a escuridão de um cemitério. Fechou o Cais do Porto (ex João Mamão, ex-Alpendre ex-Recanto Mineiro). Os que já funcionaram ao lado, também fecharam. A Chácara de Dr Dewilson, também fechou.
Fontes seguras me informaram que alguém que mora em um daqueles prédios (que chegaram ali bem depois), incomodado com o barulho e gozando de boa influência junto aos órgãos que tratam da “Lei do Silêncio”, não deixou nenhum aberto. O insone é meio atormentado e queixou-se até do ruído dos pratos sendo lavados. Eu soube também que o mesmo morador está de bronca até com um campo de futebol society, por causa dos silvos do apito do juiz. Podia ser folclore isso. Tá bom pra você? Concorda que isso é abuso, amargura, ou falta de sono bom pra dormir?
Descendo mais um pouco, uma pizzaria e um Japonês sobrevivem não sei como. Mal amanhados, fachadas feias, descuidados, recorrem a calçada da orla, onde os frequentadores se batem com as muriçocas e se submetem a um ambiente tão sem clima e tão sem nada. Não tem música italiana, nem um palco pra “Dança dos Sete Véus”(não seria lindo?).
Seguindo adiante, passando da esquina de João Freitas, mais sobreviventes eu encontro. Outra pizzaria, uma casa de lanches, outra de açaí, um ponto de espetinhos maravilhosos, um barzinho com uma caixa de som, muito ruim, na beira da calçada, e uma rapaziada cantando de boca no mundo, competindo com os ônibus que passam topados. Tudo sem clima, sem som, sem nadinha de mais atrativo.
Mais em frente, a coisa piora. Eu chamo de “intestino da orla”, me perdoe o pessoal do Acarajé que fecha cedo mesmo e não conta. Por legítima defesa, me perdoe também o lugar do caldo que me salva quando enfrento as madrugadas (o que é raríssimo).
Um fogareiro grande e enferrujado assa espetinhos. As mesas se espalham, o som é ruim, a energia chega a dar arrepios de tão pesada (eu sinto isso). Dizem que rola de tudo. De prostituição infantil, comércio de mulheres, negócios escusos, à venda de drogas, mas isso aí é com a polícia. Eu só sei é que sinto um cheiro muito ruim e me disseram que os banheiros são podres. Eu, que não sou nem um pouco sofisticada, me recuso a parar ali.
Mais atenta, não vejo um investimento por parte dos permissionários que usam o espaço público da orla e poderiam muito bem dar um “up” em seus pontos. Talvez não tenham estímulo, como eu não tenho mais para a noite de Juazeiro. Talvez, tenham se acomodado. Deixa como está e façamos de conta que está tudo bom. Tudo muito bem!
Chego ali no “Eme”, me pergunto quanto pagam os permissionários daquele espaço público (há anos ali, os vitalícios, também são sobreviventes). Mas isso é outra discussão. Um lugar monótono, o mesmo repertório de sempre, muriçoca, os garçons meio contrariados, a direção absoluta e cobrando uns precinhos bem salgados para o pouco oferecer, mas mesmo assim salvam a noite de alguém. Mas, convenhamos, é a extensão do sentimento de “sem clima”.
Passando a banca, dois novos e bem diferentes espaços, todos bonitinhos e para diferentes públicos, buscando inovar, têm sido a salvação, mas já candidatos a sobreviventes também. O bar vermelho e mais na frente o “hétero-normativo”, resistem, e eu adoro os dois. Mas estou sabendo que já começou a implicação. A tal lei já tá querendo acabar com os dois.
A noite de Juazeiro acabou e não tem amor certo. Sou convidada a cruzar a ponte, porque do outro lado, na orla e nos bairros, uma noite muito divertida, bacana pra todos os gostos, musical e animada, só está começando. E lá também há lei (do silêncio e do espaço urbano), diga-se de passagem. Lá o menor boteco é feito com cuidado (isso eu aceito porque me dói menos). Lá vejo gente amiga de Juazeiro, tão contrariada quanto eu, por não ter onde se divertir na nossa cidade. Vejo o moderno, tomo um banho de civilização e posso escolher entre as várias opções.
Mas muito dificilmente eu atravesso a ponte. Não quero problemas com a Lei Seca. Na maioria das vezes, o jeito é ficar refém da “minha Juazeirinho bem cachorra”, como disseram os antigos. Refém da Lei do Silêncio, que poderia ser disciplinada com o uso do decibelímetro.
O certo é que acabaram com a noite da minha cidade bossa nova, e o jeito é improvisar algo em casa mesmo e, indignada, buscar uma explicação. Fico pensando que a prefeitura, gananciosa demais, é a responsável por este falecimento. Cobra taxas demais, exige demais, e oferece muriçocas, escuridão, e nenhum incentivo. Ou será que o MP pesa a mão na lei, sem nenhuma razoabilidade, e está silenciando a cultura da cidade? Os promotores se divertem em Petrolina, eu sei.
Ou será que os empreendedores dão o seu pior à cidade e não investem nos seus estabelecimentos? Ou os juazeirenses perderam sua identidade, de povo de alegria, e ligam o 190 por qualquer sonzinho, pondo uma pá de cal na noite? Ou tudo isso junto? Não bastava uma regulamentação? Como acontecem em outras cidades, que têm uma noite efervescente?
Aí, eu, que pensava nos sobreviventes, passo a pensar nos corajosos, que querem salvar a pátria. Penso no rapaz dos Caiaques que tentou uma alternativa, fazendo umas festas bacanas na beira do rio, e foi impedido. Penso num grupo de juazeirenses que por ternura à cidade, tem feito uns eventos bacanas, mas já começa a ser impedido.
Chego a nenhuma conclusão, mas que tem uma coisa a ser pensar nisso aí, tem!
Pense, prefeito! Pensem, empreendedores do entretenimento! Pensem, músicos e artistas todos! Pensem, garçons, cozinheiras e auxiliares, seguranças e flanelinhas. Pensemos, juazeirenses!
Rebelemos-nos todos e todas nós, que queremos ter a nossa cidade bossa nova de volta!
Ps: Vou dormir, na solidão e angústia de uma mulher que queria passar na noite com o seu amor: a minha cidade!
Da Redação por Sibelle Fonseca








