Diversas entidades, instituições e coletivos divulgaram uma nota de repúdio contra a companhia aérea LATAM Airlines, acusada de praticar racismo e discriminação contra os quilombolas Catarina de Fátima de Mesquita, conhecida como Tati do Quilombo Astrogilda, e Marcelo da Paz Rocha, do Quilombo do Brejal. Como já noticiado pelo Portal Preto no Branco, o caso ocorreu no último domingo (20), no aeroporto de Petrolina, no sertão de Pernambuco.
As vitimas relataram que foram impedidos de embarcar de volta ao Rio de Janeiro após participarem do 13º Congresso Brasileiro de Agroecologia, em Juazeiro, na região Norte da Bahia. Segundo a acusação, a empresa utilizou como justificativa um documento de identidade vencido, mas teria, na verdade, excluído os dois passageiros por motivos raciais.
Na nota, as entidades exigem Retratação pública da LATAM Airlines; reparação imediata pelos danos causados; Investigação rigorosa dos fatos por órgãos competentes, como ANAC, Ministério Público Federal e Defensoria Pública da União; Compromisso da empresa em adotar medidas concretas de combate ao racismo institucional, garantindo tratamento digno e igualitário a todos os passageiros.
Veja a nota na íntegra:
NOTA DE REPÚDIO
Nós, Entidades/Instituições/Coletivos/Organizações, abaixo assinados, manifestamos nosso mais profundo repúdio à conduta racista e discriminatória da companhia aérea LATAM Airlines contra os quilombolas Catarina de Fátima de Mesquita, conhecida como Tati do Quilombo Astrogilda e Marcelo da Paz Rocha do Quilombo do Brejal- Zona da Mata- MG e Morro do Salgueiro- Tijuca – RJ ocorrida no Aeroporto de Petrolina (PE) por ocasião da viagem de retorno no dia 20/10/2025, após terem participado como convidados do 13º CBA – Congresso Brasileiro de Agroecologia ocorrido na vizinha cidade de Juazeiro (BA).
Ao se apresentarem para o embarque de retorno ao Rio de Janeiro, os dois foram impedidos de viajar, sob a alegação de funcionários da companhia de que o documento de identidade de Catarina estava vencido. Essa alegação, embora verdadeira, buscou apenas esconder o real motivo do impedimento, pois os passageiros que esperavam na fila perceberam que a empresa, ao que tudo indica, vendera passagens acima dos limites dos assentos disponíveis na aeronave e assim, precisando barrar alguém, escolheram justamente os dois pretos para serem desconvidados a seguir viagem, transferindo-os para 2 (dois) dias à frente.
A indisponibilidade de assentos para todos os passageiros ficou evidente, pois outras pessoas brancas que também estavam se queixando e aguardando resolver a questão, acabaram sendo embarcadas, sendo deixados para trás apenas os dois pretos quilombolas.
A justificativa do documento vencido se mostrou incoerente e arbitrária uma vez que, após ter consumado o impedimento, esse mesmo documento (supostamente inservível para identificação) foi utilizado por um funcionário da LATAM para, contraditoriamente, emitir as novas passagens para dois dias depois, demonstrando que o argumento utilizado não passou de uma justificativa conveniente do racismo estrutural que todos os dias mostra que não aceita que os pretos sejam iguais aos brancos em direitos e oportunidades.
Também se mostrou arbitrária a justificativa do documento vencido, na medida em que o este mesmo documento foi apresentado e aceito no trecho de ida – Rio de Janeiro para o aeroporto de Petrolina.
Neste caso, ficou evidente que a solução da empresa foi descartar duas pessoas pretas, quilombolas e de comunidade de terreiro, em benefício dos demais passageiros que foram prontamente realocados em outros voos.
Vale destacar que durante o episódio, Catarina — mulher, NEGRA, idosa e quilombola — foi ainda exposta a uma cena de constrangimento público e humilhação: após negar o embarque, sua identidade foi levantada e exibida pela atendente diante de todos os presentes na fila, como se quisesse justificar a atitude da companhia, numa atitude desnecessária, vexatória e discriminatória. Em decorrência desse ato, Catarina passou mal e não recebeu qualquer suporte da empresa, sendo amparada apenas por outros passageiros.
Os danos causados à Catarina e, consequentemente, ao seu acompanhante de viagem, Marcelo são inúmeros: prejuízos pessoais, profissionais, emocionais e também enquanto consumidores, ressaltando que ambos são quilombolas de comunidades certificadas pela Fundação Cultural Palmares, e essa violência dirigida a eles representa um grave ataque não apenas a seus direitos individuais, mas à dignidade de todo um povo, motivo pelo qual o fato foi devidamente registrado em boletim de ocorrência e acompanhado por documentação comprobatória.
Exigimos: * Retratação pública da LATAM Airlines; * Reparação imediata pelos danos causados; * Investigação rigorosa dos fatos por órgãos competentes, como ANAC, Ministério Público Federal e Defensoria Pública da União; *Compromisso da empresa em adotar medidas concretas de combate ao racismo institucional, garantindo tratamento digno e igualitário a todos os passageiros.
Este caso escancara o racismo estrutural que persiste em nossa sociedade e que atinge de forma brutal os povos quilombolas, tradicionais e de terreiro. Não aceitaremos calados que empresas reproduzam práticas discriminatórias que desumanizam corpos pretos e negam direitos básicos de cidadania.
Racismo não é falha operacional. É crime.
Juazeiro/BA – Petrolina/PE, 20 de outubro de 2025
IRPAA – INSTITUTO REGIONAL DA PEQUENA AGROPECUÁRIA APROPRIADA
ABA
ANA
ASA
Representantes do Caxambú do Salgueiro
Relembre o caso
Após participarem do CBA, quilombolas não conseguem embarcar e denunciam Latam/Petrolina por discriminação racial: “Pessoas brancas foram realocadas em outros voos”
Redação PNB