O Governo Interino de Temer: a serviço de quem e contra quem? por Ivânia Freitas

O Governo Interino de Temer: a serviço de quem e contra quem? por Ivânia Freitas

Pasmei (ainda que não fosse surpresa) ao ouvir Henrique Meireles (ministro da fazenda) justificar que, para ‘equilibrar’ as contas públicas, o governo Temer vai reduzir recursos da saúde e da educação através de um teto (ou seja, o máximo que se pode gastar).
Para ele (o governo), o que chamamos de investimento, é gasto/despesa. Nessa lógica, paira a ameaça (e vai) mexer na previdência, no financiamento da casa própria (especialmente do Minha Casa Minha vida), no Bolsa Família, Prouni, Fies, Bolsas estudantis, nas políticas de fomento à agricultura familiar; na provável diminuição do valor do salário dos aposentados e nos concursos públicos vetados. Como disse o próprio ministro “e mais ações desse tipo virão”.

Não é necessário ser economista ou cientista político para saber ‘de quem’ Temer está cortando na carne. Com certeza não é dos empresários, ou dos mais ricos, ou dos políticos. Sabemos disso porque não ouvimos falar em diminuição de juros ou de corte no orçamento dos bilhões destinados ao agronegócio; ou de limite ao subsídio financeiro às grandes empresas, ou de corte (necessários) aos privilégios financeiros (desnecessários) a políticos, deputados e senadores que têm uma ótima vida à custa do suor do nosso trabalho.

O que vimos recentemente, foi o aumento absurdo que será concedido aos ministros da corte de R$ 33,7 para R$ 39,2 mil, o que evidencia não uma contradição, mas, qual a direção do governo Temer; do lado de quem ele está e ‘contra’ quem ele age.
Eu costumo dizer que suas medidas são explicitamente a representação do grande diferencial entre seu governo e o governo da presidente Dilma Rousseff. Elas afirmam o que vimos falando desde as eleições, há, de fato, um incômodo (ou ódio?) da direita brasileira no que se refere à ascensão da classe trabalhadora e Michel Temer tem a missão de resolver esse ‘problema’.

Nos governos Lula e Dilma, ainda que não tenham rompido com os princípios e fortalecimento do grande capital, a direção sinalizava que havia outro projeto sendo traçado e expresso, efetivamente, nas políticas de investimentos na educação,saúde, moradia, bem como, na oferta de concurso público (garantindo estabilidade em múltiplos setores e áreas); as políticas de crédito para abertura do próprio negócio; o aumento do poder de consumo e acesso aos bens culturais possibilitados também, pelas políticas de redistribuição de renda (como o bolsa família)que permitiram, ainda acessaras tecnologias da comunicação e informação. Todo esse conjunto, elevou, sem dúvida alguma, as condições socioeconômicas e plantou uma maior autoestima, especialmente no povo mais pobre.

Nesse contexto, filho de garis, professores e de empregadas domésticas passou a estudar em universidade que só ricos frequentavam. Elas, as empregadas domésticas foram reconhecidas em sua profissão e, de posse de um novo poder aquisitivo, elas mesmas passaram a estudar, a comprar o celular da mesma marca da patroa e até andar de carro novo.

O povo passou a se sentir ‘gente’ com nome e sobrenome. Havia muita esperança de que o ‘céu’ não era o limite, pois “tudo quanto é gente” (como dizem os incomodados), de todas as cores e regiões, passou a andar de avião! Do mesmo modo, fazer uma viagem internacional deixou de ser privilégio de apenas um punhado da população e lá se foi o pobre para o exterior.

Ainda desafiando a lógica, os pobres foram fazer mestrado e doutorado, inclusive, fora do Brasil. Universidades estaduais e federais expandiram-se e chegaram às pequenas cidades; negros passaram a usar jalecos e serem chamados de doutores; mulheres passaram a comandar ministérios e até grandes corporações; trabalhadores rurais sentaram-se à mesa com governadores, ministros e presidentes sem terem receio de apresentar e discutirem suas demandas; o povo passou a discutir política pública em conferências pelo Brasil a fora; as vozes silenciadas dos gays, lésbicas,pretos, pobres e doentes, saíram do gueto e ganharam lugar nas pautas das políticas públicas; serviços ampliaram-se nas áreas da saúde (como o PSF); a cultura foi entendida como elemento importante no desenvolvimento da nação e ao povo apontavam-se inúmeras possibilidades.

Tivemos 13 anos de conquistas de direitos sociais e assustadoramente, em pouco mais de um mês, grandes perdas!
As medidas do governo Temer são provas irrefutáveis de que não é à classe trabalhadora desse país que ele serve ou irá servir. O projeto de Temer e seus aliados é outro, e bem distinto do que estávamos acostumados, ao longo desses frutíferos 13 anos que, inclusive, fizeram com que esquecêssemos como era viver a partir de um ‘outro projeto’, quando o Brasil era apenas (inclusive para os olhos externos), o país do futebol.

Embora estejamos todos pasmados com o quantitativo de direitos já rompidos, ainda parece não ter sido suficientemente claro para uma parte da população, o quanto de estrago esse conjunto de medidas irá causar. Não apenas na diminuição drástica do poder aquisitivo que, verdadeiramente se acentuou agora, mas, no enfraquecimento do poder de mobilização e intervenção social nas políticas públicas.

O governo Temer não dialoga com a classe trabalhadora e tão pouco com ela se preocupa. Para ele, os trabalhadores são apenas mão de obra e quanto mais barata, melhor. É a classe trabalhadora mais pobre quem precisa da educação pública (e de qualidade); é a classe trabalhadora que precisa do serviço público de saúde – o SUS, fortalecido e não diminuído; é a classe trabalhadora que precisa do financiamento para ter sua casa própria; do financiamento estudantil para ter ‘esperança’. Mas para o governo Temer, isso é gasto e não importa a quem afete, é preciso cortar.
O governo interino (com postura de permanente) está preocupado mesmo é com o ‘mercado’, com a economia cujo projeto é não para servir aos interesses da população, mas sim fortalecer ao grande capital (que o financia) e dele (do governo) se alimenta.

Está sendo colocado em prática, o projeto da direita que a maior parte da população descartou nas urnas desde 2002 e que massacra, fervorosamente toda a classe trabalhadora.
O Estado se reduz para atender ao povo e se amplia para o mercado. É assim para o grande capital, é assim para o governo Temer. É assim em tempos de golpe!

Professora Ivânia Freitas – UNEB- Campus VII – Doutoranda em Educação pela Universidade Federal da Bahia.

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