“Gente como eu é sempre suspeita, acusada e discriminada”, desabafa homem que denuncia violência policial, em Juazeiro(BA)

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Um homem negro, nascido em Juazeiro da negra Bahia, 44 anos, desempregado e fazendo os eventuais “bicos”, morador da periferia, em tratamento no serviço de atendimento psicossocial e de comportamento bem avaliado pelos profissionais que lhe assistem.

Para preservá-lo não diremos o seu nome. Que poderia ser José, João, Francisco, Severino… Ele engrossa a fileira dos invisíveis e massacrados por uma sociedade que lhe nega direitos e de um Estado racista, perverso e excludente.

Contou este homem ao Portal Preto No Branco que no dia 21 de outubro, quando acompanhava a Caminhada do Outubro Rosa, na orla de Juazeiro, foi abordado violentamente por dois guardas municipais e dois policiais militares, que sem ao menos pedir sua documentação, lhe imprensaram numa árvore, deram-lhe chutes, pisaram no seu rosto e lhe fizeram refém de porradas e xingamentos.

De que estava sendo acusado, ele diz não saber. Mas imagina que era apenas “suspeito” de um crime que lhe jura desconhecer ” Eles já chegaram me chamando por um nome que eu desconheço. Nem pediram meus documentos e foram me enchendo de porrada. Me bateram muito, me algemaram e somente quando eu já estava caído no chão, implorando para que parassem, se afastaram tomando o rumo da Adolfo Viana”, conta o homem.

Ele diz também que os quatro agentes de segurança estavam sem o distintivo, ou seja, sem identificação. Mas agiam em nome do Estado e isso é fato.

” Outros policiais que estavam próximos, tiraram as algemas e me liberaram. Assim, como se trata um cão de rua. Espancam e chutam pra longe”, desabafou.

Ele não foi muito longe, conta ” Consegui andar até a “praça do Jacaré”, mesmo com muitas dores. Já no chão e sangrando, pedi ajuda a um grupo de jovens e eles chamaram o Samu. Fui levado para a UPA E medicado. Deveria ter ficado em observação, mas como estava muito mal acomodado, pedi pra ir pra casa e me liberaram”.

O homem que diz não saber porque estava apanhando e garante que apenas observava o evento e “não estava fazendo nada de mal”, se define com um “semi-analfabeto” que sabe dos seus direitos ” Eles não tinham o direito de me espancar. Eu não estava cometendo nenhum crime. A prova é tanta que me bateram, mas não me prenderam. A rua é de todas as pessoas e apenas por ser pobre e preto, eles não poderiam me abordar com tanta violência”, desabafa mais uma vez.

O denunciante diz que procurou a Guarda Municipal para denunciar a agressão, mas não deram importância a sua queixa “Fui atendido, mas desconfiaram de mim. Como se eu tivesse inventando a situação. No local em que fui espancado tem câmeras e eles poderiam buscar essa gravação, se quisessem apurar minha denúncia”, sugere ele.

Ainda com dores nas costas, em consequência do espancamento, ele diz esperar que sua denúncia seja apurada, mesmo desconfiando que o seu caso é mais um no meio de uma multidão de gente como ele.

” A justiça não foi feita pra gente como eu. Gente como eu é sempre suspeita, acusada e discriminada. Mesmo inocentes, já nos culpam e nos condenam”.

O PNB está encaminhando a denúncia para os órgãos citados.

No Dia da Consciência Negra, o relato deste homem negro, que acusa o Estado de violência policial, chamamos atenção para a cultura do racismo ainda tão presente em todos os segmentos da sociedade.

Segundo a pesquisa “Discriminação racial e preconceito de cor no Brasil”, realizada em 2003 pela Fundação Perseu Abramo, 51% dos negros declararam que já sofreram discriminação da polícia, percentual que cai para 15% quando a mesma pergunta foi feita aos brancos. Dos negros vítimas de preconceito, 78% disseram que foram discriminados por policiais brancos.

A violência e racismo também aparecem relacionados no Mapa da Violência 2010, em que são analisados os homicídios entre 1997 e 2007. O estudo indica que um negro tem 107,6% mais chances de morrer assassinado do que uma pessoa branca.

Sete anos depois, os dados não mudaram muito. A cada 100 pessoas que sofrem homicídio no Brasil 71 são negras, segundo números atuais. O racismo continua institucionalizado pelo Estado brasileiro.  De acordo com o Atlas da Violência 2017, os jovens negros entre 12 e 29 anos estão mais vulneráveis ao homicídio do que brancos na mesma faixa etária. E são os negros que representam 50,46% da população carcerária.

Da Redação por Sibelle Fonseca 

 

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