“Até quando a má-fé é boa”, por Humberto Gonzaga 

 

O homem refugiar-se na má fé como ato de mentir para si mesmo, mas um mentir que não comporta a dualidade do enganador e do enganado, pois, aqui, aquele que é enganado é também consciente da verdade que deseja suprimir. 

A má-fé tem por sua natureza mesma a característica de negar a condição de liberdade do indivíduo um processo de constante e frustrado esforço, para fugir de algo que se faz presente na própria consciência, para isso é necessário que se pense constantemente nesse algo mais, isto é, o projeto da má-fé consiste em encarar certo aspecto como um ato do homem mentir para si mesmo. 

A má-fé pode ser compreendia como a tentativa de transferir responsabilidades que concernem unicamente ao indivíduo; ou seja, negar a condição de liberdade humana ao atribuir coisas exclusivamente a fatores sociais, metafísicos, históricos ou até inconscientes o fundamento e as responsabilidades de sua escolha, quando o indivíduo se encontra no estado de má-fé, tais fatores exercem influência na sua decisão ao determinarem as possibilidades da escolha; contudo, cabe somente a ele optar, por meio de sua total responsabilidade por qual possibilidade lhe é mais coerente. 

Contudo, não há determinismos que possam eximir o homem da sua condição ontológica de liberdade acompanhada do sentimento de angústia provocada pela responsabilidade que a liberdade carrega consigo, porém, o homem refugia-se na má-fé, como o ato de mentir para si mesmo, mas um mentir que não comporta a dualidade do enganador e do enganado, pois, aqui, aquele que é enganado é também consciente da verdade que deseja suprimir. 

Diante dessa constante tarefa de fazer-se, do desamparo, da falta de fundamentos prontos e da responsabilidade que carrega diante de si e da humanidade, a liberdade traz ao sujeito a angústia existencial, a qual emerge diante da responsabilidade da decisão acompanhada do sentimento da angústia, pois não é capaz de alterar as condições de existência que se lhe apresentam, tendo de escolher, por vezes, entre o ruim e o pior e tendo de arcar com as consequências dessa escolha; mais que isso, também não é capaz de não realizar essa escolha; e por fim, tem a incontornável tarefa de buscar, em sua subjetividade imanente de Deus, ou seja, na sua pura liberdade, os princípios que regerão sua escolha; isto é, terá de estar diante de seu próprio nada; eis o princípio da angústia. 

Desse modo, o ser humano, fundamentando-se na sua estrita liberdade, vê-se a todo instante compelido a se inventar, posto que sejam suas escolhas que constroem a sua essência. Diante desta condição, cabe somente a ele estabelecer, através de suas ações concretas, os critérios que servirão para dar sentido à vida que temos vivido assim como ela se nos apresenta no mundo. Tais fatores implicam em influenciar na sua decisão ao determinarem as possibilidades de escolha; contudo, cabe somente a ele optar, por meio de sua liberdade, por qual possibilidade lhe é mais adequado. Diante da condição de liberdade, não há como fugir; só há espaço para a subjetividade do sujeito, ou seja, para o seu próprio nada de ser, qualquer tentativa de preencher este espaço vazio será aqui denominada de má-fé. 

É como em uma canção dos Engenheiros do Hawaii 

Somos quem podemos ser 

Um dia me disseram 

Que as nuvens não eram de algodão 

Um dia me disseram 

Que os ventos às vezes erram a direção 

E tudo ficou tão claro 

Um intervalo na escuridão 

Uma estrela de brilho raro 

Um disparo para um coração 

A vida imita o vídeo 

Garotos inventam um novo inglês 

Vivendo num país sedento 

Um momento de embriaguez 

Somos quem podemos ser 

Sonhos que podemos ter 

Um dia me disseram 

Quem eram os donos da situação 

Sem querer eles me deram 

As chaves que abrem essa prisão 

E tudo ficou tão claro 

O que era raro ficou comum 

Como um dia depois do outro 

Como um dia, um dia comum 

A vida imita o vídeo 

Garotos inventam um novo inglês 

Vivendo num país sonolento 

Um momento de embriaguez 

Somos quem podemos ser 

Sonhos que podemos ter (E teremos!) 

Um dia me disseram 

Que as nuvens não eram de algodão 

Sem querer eles me deram 

As chaves que abrem essa prisão 

Quem ocupa o trono tem culpa 

Quem oculta o crime também 

Quem duvida da vida tem culpa 

Quem evita a dúvida também tem 

Também tem 

Também tem 

Nós todos temos um pouco de culpa 

Mas nós… 

Somos quem podemos ser 

Sonhos que podemos ter. 

Humberto Gonzaga é graduado em Filosofia pela UFPI 

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