“Sobre amizade, educação contextualizada, política do diálogo e desesperanças” – por Antônio Carvalho

"Sobre amizade, educação contextualizada, política do diálogo e desesperanças" - por Antônio Carvalho

Antonio Carvalho; professor da Educação Básica; doutorando em Educação e Contemporaneidade; membro do Coletivo Enxame.

Esse final de semana tive a oportunidade de reencontrar amigas e amigos professoras/es que há muito anos, mesmo vivendo na mesma cidade, o contato epidérmico de uma prosa etílica não acontecia. Amigos e amigas que sempre estão lá, nem que seja por uma mensagem de afeto enviada pelo whatsApp. Distantes, ainda mais nesse período pandêmico, mas perto pelo sentimento de amizade que se reverbera no modo como enxergamos o mundo, pois partilhamos posicionamentos parecidos acerca do que vemos e vivemos em nossas trajetórias, inclusive docentes. Foi um dia para boas fofocas, deboches e rizadas do que a vida tem nos apresentado.

Nosso Círculo de amizade também vem sendo construído em nossa busca por formação continuada, que nos mantém estudando até hoje, nos encontramos a primeira vez como grupo em uma pós-graducação que nos diziam de uma dita “educação contextualizada”, essa desenhada na retina utópica da possibilidade de políticas e práticas educacionais manifestas pelo compromisso ético com o diálogo permanente daqueles e daquelas que realizam o ato pedagógico, este que deve ser manifesto da nossa vontade de ser mais com o outro no mundo.
Hoje somos especialistas, mestres, mestrandas, doutorandos, pesquisadores e pesquisadoras interessadas em educação, especialmente escolar, haja vista ser o nosso lugar de atuação profissional nas redes estaduais e municipais no Vale do São Francisco, aqui, no coração dos territórios semiáridos, onde o Rio São Francisco é veia aorta, irriga terras, corpos e corpus políticos/epistêmicos nesses territórios de gente negra e indígena, cansadas e resistentes aos sistemas de opressão que estão presentes nas várias dinâmicas das existências como modus operandi dessas mesmas, inclusive nas gestões das redes de ensino das quais fazemos parte.

Falamos de todos/as: dos nossos filhos/as e sobrinhos/as, amantes e ex-amantes, colegas, conhecidos, vizinho; falamos de tudo um pouco: pandemia, sofrimentos, alegrias, política e condição de trabalho docente.

Observamos durante boa parte do diálogo que a dita “educação contextualizada” nos vendeu sonhos, desses recheados de doce, promessas que não tem existido mais nas ações dos padeiros que sovaram a massa teórica do seu arcabouço conceitual na cidade, nem nas pregações religiosas/pedagógicas que outrora conduziam o rito do encontro em sala de aula, inclusive em atividades de formação continuada daqueles e daquelas interessadas em questionar as práticas pedagógicas, inclusive as suas próprias. Padeiros que hoje acessam e exercem influência na administração das redes públicas de educação em nossa querida Juazeiro, que ocupam lugares estratégicos na gestão dos fazeres educacionais dessas redes. Padeiros e pregadores que hoje são mudos, que agem inclusive no sileciamento daqueles e daquelas que outrora se deliciavam com essa massa recheada de doce e polvilhada de açúcar, essa que se desmanchava na boca sob signo das palavras educação contextualizada e convivência, que alegrava o corpo e o espírito na espeça de dias melhores.

Parece que paira sobre nós uma nuvem de desesperança, onde a precarização da educação fica ainda mais acentuada, e agora sob outorgar daqueles e daquelas que um dia anunciaram outros mundos possíveis alicerçados no diálogo, este que não tem sido a politica de gestão das nossas redes de ensino. Nossos e nossas profetas se rederam à cobiça da ocupação dos cargos que até então servem, puro e simplesmente, ao movimento neoliberal de esmorecimento político dos corpos que habitam as nossas escolas. Parece que não temos mais horizonte para onde lançar o nosso olhar, parece que a educação contextualizada nada mais é do que uma promessa impossível de se realizar, assim como as propagandas de produtos de beleza, isso por conta dos interesses pragmáticos dos/as que governam a cidade o município. Parece que existe um medo incomensurável do diálogo, pois este tende a revelar aquilo que se sabe mais se evita, nos impedindo de falar em voz alta o que está errado sob risco de desestabilização dos lugares de poder.

Queridos e queridas amigas professoras, mesmo diante dessa nuvem cinzenta que hoje turvam nossos olhos, fico feliz em saber que estamos juntas na caminhada, que podemos nos apoiar e construir outras promessas possíveis, nem que para isso precisemos reinventar a massa e o doce que farão nossos corpos pularem de alegria, assim como acontece em setembro reinado pelos êres sempre ansiosos por coisas doces. Nosso horizonte esperançoso se manterá, nem que para isso precisemos substituir as palavras e as profecias. Estamos no caminho certo e é preciso rebolar manifestos de posturas éticas e dialógicas que afrontem nossa provinciana e conservadora Juazeiro.

Gratidão por suas existências, não tenham dúvidas que somos melhores que tudo isso!

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