Bolsonaro discursa na ONU com ataque a Lula e fala em tom de campanha

Bolsonaro discursa na ONU com ataque a Lula e fala em tom de campanha

Pressionado internamente a menos de duas semanas das eleições, o presidente Jair Bolsonaro (PL) usou o espaço nobre do primeiro discurso de um chefe de governo na Assembleia-Geral da ONU nesta terça-feira (20) para se dirigir a seus possíveis eleitores, com foco muito maior nos acenos ao público doméstico do que nos líderes mundiais que acompanhavam a fala.

Falando como em um discurso de campanha, o presidente atacou a esquerda e seu principal adversário, Luiz Inácio Lula da Silva (PT), ainda que sem citá-lo nominalmente, e mencionou casos de corrupção na Petrobras durante governos petistas. Bolsonaro afirmou que sua gestão “extirpou a corrupção sistêmica que existia no país”, a despeito de investigações que envolvem ele próprio e sua família.

Diferentemente do que fez em edições anteriores, o presidente adotou tom mais moderado e acatou as sugestões do Itamaraty de evitar ataques diretos a outros países, como vinha fazendo com Chile e Argentina.

A exceção se deu quando Bolsonaro fez críticas, também sem citar nomes, aos regimes de Daniel Ortega, na Nicarágua, e Nicolás Maduro, na Venezuela -ambos os países são ditaduras de esquerda com as quais algumas alas do PT têm proximidade. O presidente mencionou o acolhimento a refugiados que fogem do regime venezuelano e disse que “o Brasil abre suas portas para acolher os padres e freiras católicos que têm sofrido cruel perseguição do regime ditatorial da Nicarágua”.

Também mirando o pleito em outubro, o presidente fez de seu discurso um aceno ao eleitorado feminino, grupo em que Lula conta com 46% das intenções de voto, contra 29% de Bolsonaro. O líder brasileiro afirmou que tem atribuído prioridade à proteção das mulheres e citou registros de queda em feminicídios, embora casos tenham aumentado no período de sua gestão.

“Trabalhamos no Brasil para que tenhamos mulheres fortes e independentes, para que possam chegar aonde elas quiserem. A primeira-dama, Michelle Bolsonaro, trouxe novo significado ao trabalho de voluntariado desde 2019, com especial atenção aos portadores de deficiências e doenças raras”, disse.

Michelle acompanhou o discurso de dentro do salão da Assembleia-Geral, assim como o ministro Fábio Faria (Comunicações) e o deputado federal Eduardo Bolsonaro, filho do presidente. Também estava no plenário o embaixador do Brasil na ONU, Ronaldo Costa Filho.

Bolsonaro ainda citou os eventos do 7 de Setembro quando, em suas palavras, “milhões de brasileiros foram às ruas, convocados pelo seu presidente, trajando as cores da nossa bandeira”. “Foi a maior demonstração cívica da história do nosso país, um povo que acredita em Deus, pátria, família e liberdade”, afirmou, concluindo o discurso com um lema de sua campanha que é a adaptação de um slogan fascista.

Pouco antes, o candidato a reeleição já havia citado temas caros à sua militância, com menções ao que ele chama de “valores fundamentais” -o que inclui a posição contrária ao aborto (“direito à vida desde a concepção”), à diversidade sexual (“defesa da família” e “repúdio à ideologia de gênero”) e favorável ao armamento (“legítima defesa”).

O presidente também usou o espaço para pedir um cessar-fogo na Guerra da Ucrânia, tema principal da primeira edição da Assembleia desde o início do conflito no Leste Europeu, e reforçar sua posição de neutralidade. O Brasil tem sido criticado por potências ocidentais -e pelo presidente da Ucrânia- pela hesitação em condenar a invasão conduzida por Vladimir Putin.

“Não acreditamos que o melhor caminho seja a adoção de sanções unilaterais e seletivas, contrárias ao direito internacional”, argumentou Bolsonaro. “Essas medidas têm prejudicado a retomada da economia e afetado direitos humanos de populações vulneráveis, inclusive em países da própria Europa. A solução para o conflito na Ucrânia será alcançada somente pela negociação e pelo diálogo.”

Bolsonaro procurou defender atos de sua administração. Segundo ele, o governo federal se concentrou, “desde a primeira hora, em garantir um auxílio financeiro emergencial aos mais necessitados”. Na verdade, a gestão Bolsonaro propôs em março de 2020 um pagamento inicial de R$ 200, um terço dos R$ 600 que foram aprovados pelo Congresso naquele ano.

O presidente também exaltou o alto nível de vacinação contra a Covid-19, mesmo que ele próprio tenha questionado a importância da imunização em uma série de ocasiões e negue ainda hoje que foi vacinado.

“Lançamos um amplo programa de imunização, inclusive com produção doméstica de vacinas. Somos uma nação com 210 milhões de habitantes e já temos mais de 80% da população vacinada contra a Covid-19. Todos foram vacinados de forma voluntária, respeitando a liberdade individual de cada um”, disse.

Como havia sido sugerido por sua campanha, Bolsonaro procurou destacar sua política econômica e afirmou que “o Brasil chega ao final de 2022 com uma economia em plena recuperação”, em referência às projeções mais otimistas do PIB.

Ele citou números positivos de queda de desemprego e da inflação, ainda que seu mandato deixe como herança e o agravamento da dívida. Apesar dos altos índices de insegurança alimentar no Brasil, o presidente afirmou que “se não fosse o agronegócio brasileiro, o planeta passaria fome”.

Principal calo do presidente aos olhos da comunidade internacional, a gestão ambiental foi usada por Bolsonaro para atacar a imprensa, ao dizer que “na Amazônia brasileira, área equivalente à Europa Ocidental, mais de 80% da floresta continua intocada, ao contrário do que é divulgado pela grande mídia nacional e internacional.”

Bolsonaro vendeu o país como um “campeão da transição energética” ao exaltar a matriz renovável, e aproveitou a brecha para se referir de forma velada a países europeus críticos à sua gestão ambiental, que precisaram aumentar a exploração do carvão após a escassez de gás natural devido à Guerra da Ucrânia.

Por tradição, o presidente brasileiro é sempre o primeiro chefe de Estado a falar no evento. Na sequência, deveria vir o americano Joe Biden, mas o democrata adiou o discurso para quarta-feira (21), após decidir viajar a Londres para o funeral da rainha Elizabeth 2ª.

Em meio a uma disputa eleitoral que está longe de estar resolvida, viajar para fora do país, principalmente para dois destinos internacionais em sequência -o presidente também foi a Londres acompanhar o funeral da rainha Elizabeth 2ª- não foi um cálculo simples.

A avaliação do governo, no entanto, foi de que a viagem era obrigatória e que o custo político de faltar seria maior que o de comparecer, além de reforçar a imagem de isolamento do Brasil no xadrez político mundial.

Entretanto, o presidente brasileiro só tem reuniões bilaterais marcadas com dois presidentes, o equatoriano Guillermo Lasso e o polonês Andrzej Duda. Eles são inexpressivos para a economia brasileira, mas importantes na agenda ideológica do governo de unir líderes direitistas.

Este foi o quarto discurso do líder brasileiro na ONU. Em 2019, ele usou a tribuna para atacar críticos de sua política ambiental, a imprensa e países como Cuba e Venezuela, em um discurso agressivo e inusual para líderes brasileiros, com 32 minutos de duração.

Em 2020, gravou pronunciamento exibido de forma remota na Assembleia devido à pandemia e se defendeu das críticas pelo descontrole da Covid no país, além de afirmar que o Brasil era vítima de mentiras sobre as queimadas na Amazônia. Na ocasião, o discurso durou 14 minutos.

No ano passado, fez o discurso mais curto dentre os do brasileiro, com 12 minutos, com acenos à sua base radical. A viagem foi marcada pela recusa do presidente em se imunizar contra a Covid-19.

Esta é a primeira edição totalmente presencial da Assembleia-Geral desde a eclosão da Covid-19, em 2020. Naquele ano, líderes mundiais discursaram de forma remota, sem que nenhum viajasse a Nova York. Em 2021, parte deles falou de forma presencial, como Bolsonaro, e parte enviou vídeos, caso do líder chinês, Xi Jinping -que recentemente fez sua primeira viagem internacional após a pandemia.

Folhapress

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