Juazeiro, Macondo e a celebração do atraso com o fim da Zona Azul, Por Raphael Leal

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Muita gente compara Juazeiro a Macondo, cidade imaginária do clássico da literatura mundial, Cem Anos de Solidão,do nosso camarada Gabriel Garcia Marquez.

Aqui, somos quase 250 mil pessoas, mas com um pensamento paroquial, provinciano, como muita gente gosta de dizer. Também temos realismos fantásticos, coisas que parecem só acontecer aqui. E conhecendo a história e personagens, e lendo o livro do Gabo, não há como não fazer paralelos. Coisas surreais acontecem nesta urbe.

Mas vou me ater aos últimos acontecimentos.

Em toda cidade maiorzinha, até onde andei, existe uma coisa chamada estacionamento rotativo, ou zona azul, como ficou conhecida esta modalidade em todo o mundo. Em Juazeiro, foi implantado, tardiamente, em 2016, fruto de uma demanda de décadas dos comerciantes.

Após anos, a atual gestão criou um processo atabalhoado, suspendeu a empresa e o serviço e rompeu o contrato. Atualmente, retornamos ao passado, com uma saga que tínhamos vencido, a busca de vagas para estacionamento no apertado centro comercial de Juazeiro. Voltamos ao passado.

Eu, particularmente, acho que a empresa gestora do zona azul não prestava um bom serviço. Desde os poucos funcionários na emissão dos comprovantes à o que é repassado ao município. Mas não acho que deveria ser o fim da zona azul. Refizesse o contrato, impusesse condições. Mas acabar com o serviço?

E os fatos extraordinários não param por aí. Assim como Macondo, aqui também tem políticos que celebram este tipo de coisa atrasada. A prefeita comemorou em um vídeo de pouco mais de 10 segundos, se arvorando de fazer esta grande obra do atraso: “Suspendi a zona azul”. A assessoria de comunicação produziu uma matéria afirmando que a “População aprova a suspensão do Zona Azul em Juazeiro”, com dois personagens representando a “população de Juazeiro”, zero pesquisa. Além disso, há um desarranjo institucional. O diretor do órgão de trânsito parece compreender da necessidade de um serviço como este. Mas um funcionário, eu acho, que é suplente de vereador, e que comemorou com um carro-de-som a notícia do atraso (não é algo surreal?), questiona: “a quem interessa o serviço do zona azul em Juazeiro?”. Ora, cara- pálida, a Juazeiro, ao desenvolvimento, às adequações e o desejo de uma modernidade desta cidade. E a briga interna e exposta nas redes sociais e meios de comunicação continua.

Aí vem as indagações:Quem vai investir num centro de uma cidade onde não terá estacionamento para os clientes? Entenderam o porquê de muito investidor atravessar a ponte? Entre “denúncias” do suplente de vereador contra a gestão municipal não se sabe o futuro da cidade. Pagamos ao flanelinha, mais caro, mas não pagamos o zona azul? O que se tem de proposta nova?

Mesmo com o Caos administrativo pouco visto na história política desta cidade, creio que muita gente da gestão quer que o sistema de estacionamento rotativo retorne, melhor, com mais funcionários, mais transparência. Ganharia o meu apoio, nesta ação. Mas é difícil que isso aconteça, pois o apego às promessas de campanha é mantido. Veja, o fim do Zona Azul era promessa de campanha, assim como a da taxa de lixo, do hospital que seria construído no João Paulo II, Juá Card de 150 reais, construção de maternidade com não sei quantos leitos e UTIs Neonatal e blá-blá-blá. Propostas surreais, mas que funcionaram diante de um pleito eleitoral.

Bem, eu sei que vivemos numa Macondo, quer dizer, Juazeiro onde as ruas são escuras, tomadas de lixo, e vivemos de uma pracinha aqui, uma pavimentação ali(nem vou falar das qualidades destes serviços), uma pintura de posto de saúde acolá.

Mas é isso, em terra de João Gilberto, onde vivemos ainda sobre a aura da “cidade cultural”, com poucas ações culturais, estas minhas observações não seriam nada demais. Contudo, como sou inquieto e não falar sobre isso poderia me causar um problema de saúde, é o que tive a dizer. E tenho mais…deixa para outra hora.

Raphael Leal é jornalista.

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