“Metade do mundo são mulheres. A outra metade, os filhos delas”, Por Maria de Lourdes da Silva

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Metade do mundo são mulheres. A outra metade, os filhos delas -Efu Nyaki

Inicio esta reflexão sobre a Mulher do primeiro quarto de século XXI, com a frase de uma mulher africana, da Tanzânia, que vive entre nós há aproximadamente 30 anos, na capital João Pessoa, onde realiza um trabalho missionário de cura, ajuda, que inspira outras mulheres brasileiras, vivendo uma realidade onde o feminicídio cresce assustadoramente, o patriarcado impera e a misoginia é a atitude da vez! Para este mês temos tantos nomes a homenagear, que se torna quase impossível nomear a todas. Mas citarei algumas que julgo notáveis, e talvez nem tanto conhecidas.

As irmãs Mirabal, também conhecidas como As Mariposas ou As Borboletas, Pátria, Minerva e Maria Tereza, que, na República Dominicana de 1960, sob a égide da ditadura de Rafael Trujillo, lutaram e combateram ao lado de seus maridos contra a tirania e o despotismo do seu carrasco. Foram Mortas a pauladas, estavam juntas, foram vítimas de uma cruel emboscada. O carro que as conduzia, após visitas aos cônjuges na prisão, foi jogado de um barranco, simulando acidente.

Uma delas cursou Direito, mas Trujillo a impediu de exercer, por ser mulher, o dia 25 de novembro lhes honra como Dia Internacional pela Eliminação da violência contra a Mulher.

Aqui no Brasil as histórias são infindáveis, com uma mulher ou menina sendo assassinada pelo companheiro ou pela própria família a cada 10 minutos. Ressalto aqui o caso da ícone da música brasileira – Elza Soares, que quase foi linchada em sua própria casa e teve que sair do Brasil fugida da população, que atribuía o fracasso de seu marido Garrincha, a ela. A namorada do goleiro Bruno, Elisa Samudio, que foi espancada até a morte, esquartejada, uma parte dada aos cães e a outra parte enterrada na parede do sítio do mandante do assassinato, porque exigiu uma pensão de 50 mil reais para seu filho e ele só queria dar 30 mil. A tentativa de homicídio a Maria da Penha, que deu origem à Lei Maria da Penha. A Lei teve origem numa queixa que Maria da Penha fez, do Brasil, da justiça brasileira, na Comissão Interamericana de Direitos Humanos, na O.E.A., reclamando da postura negligente do Judiciário brasileiro diante da violência perpetrada contra a mulher no país. Após o julgamento do processo a OEA condenou o Brasil por negligência, omissão e tolerância em vista à violência doméstica, penalizando assim o Brasil com exigências que diziam respeito à proteção das mulheres e a Lei Maria da Penha é resultado dessas sanções a nível de recomendação. A Lei engloba a violência física, sexual, psicológica, patrimonial e o assédio moral.

Nosso país tem origem em fortes instituições que sustentam o modus vivendi de nossas elites, o patriarcado, o latifúndio e a escravidão, que implicam diretamente na misoginia, na pobreza e no racismo. Existe um acordo coletivo inconsciente onde os assassinatos, espancamentos, degolas, esquartejamentos, enforcamentos, de mulheres, são aceitos passivamente pela sociedade, sempre imputando à vítima a culpa de sua desgraça, seja por suas vestes, ou por seus modos, ou por sua fala (a chamada cultura do estupro) mas na verdade, todo o tempo, é porque ela é uma mulher! De parte do latifúndio, temos uma grande concentração de terras e de renda nas mãos de um mínimo de representantes, enquanto a pobreza, a fome, o analfabetismo, a falta de moradia assolam grande parte da população, incluindo mulheres e crianças negras. E a escravidão, mesmo abolida, insiste, rincões afora, em deixar suas marcas em novas formas de senzala, com novas versões de capitão do mato e feitor de escravos.

Historicamente, devo lembrar, desde o início da história da humanidade, temos sido as culpadas, as causadoras, as pecadoras. Lilith, mulher criada do barro, qual Adão, não aceitou submeter-se a ele, decidiu partir do Éden, e Adão, queixando-se dela a Deus, conseguiu transformá-la na mãe de todos os demônios. Então Deus fez Eva, não mais do barro, mas da costela de Adão, mas ela também pecou e provocou Adão a pecar, atendendo a serpente e comendo o fruto proibido. Condenada a partos dolorosos e a ganhar a vida com o suor do seu rosto. Através da figura de Eva vimos sendo vistas como pecadoras, fonte de doenças e mazelas para a humanidade.

Na Idade Antiga, as mulheres de Atenas não eram consideradas cidadãs na Democracia grega, nem elas, independente da classe social, nem as crianças, nem os pobres.

Nesse contexto pode-se lembrar da curiosa Pandora, que abriu a caixa e soltou as doenças sobre a terra, pode-se lembrar da Medusa, a linda ninfa que recebeu o castigo de ter cabelos de serpente e olhos que transformavam em pedra quem os contemplasse porque Poseidon a possuiu dentro do templo de Atena.

Então, na democracia ateniense só os homens votavam, só os homens eram cidadãos, lembrando que nós, mulheres brasileiras, só passamos a votar a partir de 1930, 41 anos depois de haver sido proclamada a República.
Não se pode esquecer de citar ainda a prima notte, costume feudal, onde o senhor feudal poderia tomar para si a noiva do servo na primeira noite, na noite de núpcias. Na Idade Média também consta que milhares de mulheres foram queimadas vivas em fogueiras da Inquisição.

Na era da revolução industrial as mulheres foram postas a trabalhar nas fábricas, elas e as crianças, porque eram mão de obra mais barata. A partir do final do século XVIII até os dias atuais, a mulher vem, enfim, levantando as trincheiras da sua luta pela liberdade, sua e da humanidade. Nos dias de hoje já temos governantes do sexo feminino, senadoras, deputadas, prefeitas, presidentas de banco, como Dilma Roussef, a quem não posso deixar de citar, a Coração Valente do Brasil.

Falar da mulher é infinito. Pincelei aqui alguns pontos para iniciar uma discussão. O último que apresento é a fala do Presidente Lula esta semana, enquanto ele estava no Japão, sobre Janja, sua esposa: A Janja foi me representando. (…) a mulher do Presidente Lula não nasceu para ser dona de casa. Ela vai estar aonde ela quiser, vai falar o que ela quiser e vai andar onde ela quiser.

 Maria de Lourdes da Silva, Filósofa, terapeuta, escritora

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