“O autoconhecimento não é destino: é ponto de partida. Como estamos impactando o mundo?”, por Pablo Bandeira

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Qual é o verdadeiro propósito de nos compreendermos mais profundamente?

Ultimamente, tenho me perguntado se o autoconhecimento é um destino ou o primeiro passo de um processo. E, se levamos a sério a ideia de que, no sentido derridiano, o ser humano é um eterno devir — nunca uma identidade fixa, nunca uma essência que se alcança —, então compreender-se não pode ser um ponto de chegada. É, no máximo, o movimento inaugural de algo que continua.

Entender um parâmetro comportamental não elimina a possibilidade de auto-transmutação.

Eu costumava sentir que me entender era o objetivo. Essa sensação me dava a impressão de progresso. E, de certa forma, dá mesmo: quando compreendemos as razões pelas quais evitamos determinadas ideias, buscamos proteção em certas esferas da vida, adiamos tarefas, tememos a proximidade afetiva e reagimos de determinado modo, ganhamos perspectiva.

No momento em que conseguimos explicar um padrão, uma reação, uma escolha, parece que estamos a fechar um ciclo. Sentimos plenitude. “Eu sei por que faço isso.” E essa sensação de saber é tão satisfatória que traz uma sensação de mudança.

Só que compreensão não é, automaticamente, transformação. A compreensão acontece na mente; o impacto acontece lá fora, ao redor. Posso ter uma capacidade extraordinária de articular a origem de cada ferida e ainda assim repetir os mesmos padrões no trabalho, nos relacionamentos…

Esses padrões, venham de onde vierem, são o modo como eu impacto o mundo. Quem está absorvendo o impacto do meu comportamento compreensível?

Essa pergunta me faz sentir que entender a nós mesmos não é o suficiente. Decerto, a maneira mais significativa de encarar a vida não é medir-nos apenas pela qualidade do nosso autoconhecimento, mas pela qualidade da experiência que nossa presença proporciona às pessoas mais próximas.

Isso significa assumir a verdadeira responsabilidade por como nossos padrões impactam os outros.

Crescimento é quando o autoconhecimento deixa de ser uma percepção privada e começa a se tornar uma mudança pública.

Se somos um eterno devir, saber por que fazemos o que fazemos não encerra nada: apenas inaugura a possibilidade de nos tornarmos diferentes. O autoconhecimento é o primeiro passo de um processo que não se conclui, porque nós também não nos concluímos.

Em vez de perguntar “Você se entende?”, pergunte:

“O autoconhecimento o torna mais seguro para amar verdadeiramente? Mais agradável na convivência? Mais honesto? Mais presente com os outros? Mais capaz de buscar a vida que você deseja?”

Destarte, nosso autoconhecimento não deve ser medido pela profundidade com que conseguimos nos explicar, mas pela forma como as pessoas que amamos nos percebem ao longo do tempo, pois a vida é um processo amoroso de colaboração para o florescimento de si e do outro.

Mantenha-se criativo.

Pablo Bandeira, juazeirense, Advogado, formado em Direito pela FACAPE, com atuação em Direito Penal e Cível, produtor de textos sobre filosofia e ciência política

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